A América Latina não conseguiu completar o salto dos produtos simples para os produtos complexos

No mapa acima podemos observar a evolução da complexidade dos 5 principais países da região: Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e México. Ate o inicio dos anos 80, Brasil, Argentina e México apresentavam ainda elevada complexidade econômica que foi sendo perdida ao longo das décadas seguintes. Com exceção do México, graças a questão a ser discutida adiante das maquilas, as maiores economias da America Latina regrediram em termos de capacidades tecnológicas, complexidade e capacidade de inovação. As economias do Chile e Colômbia também apresentaram regressões tecnológicas relevantes depois dos anos 90.
A partir da crise da dívida no início dos anos 80, o padrão de crescimento dos países latino – americanos se distanciou de seu registro histórico. Países como Brasil e México que exibiam altas taxas de crescimento per capita até então entram num ciclo de “stop and go ” que persiste até hoje. Com a exceção do Chile e possivelmente Colômbia, o desempenho dos países da região nos 80 e 90 ficou muito aquém de seu desempenho histórico. Nesse período mais recente de crescimento cíclico e inflação fora de controle, dois elementos são comuns à maioria dos países- latino americanos: populismo e sobrevalorizações cambiais que se mostraram desastrosos para o desenvolvimento da indústria local.

Os países da América Latina são conhecidos por sua longa tradição de populismo econômico que traz em seu bojo descontroles orçamentários, inflação e ciclos de apreciação cambial. Crises no balanço de pagamentos e processos inflacionários crônicos são constantes latino-americanas. A sobrevalorização cambial e a indisciplina fiscal foram dois ingredientes básicos em sua história recente, especialmente quando comparados com países do leste e sudeste asiático. Os ciclos de apreciação cambial decorrentes dos episódios populistas e de estabilização tiveram graves conseqüências no desenvolvimento do setor de bens comercializáveis não tradicional da região.

A Argentina representa um caso paradigmático na America Latina do padrão de sobrevalorização cambial e crise nos anos 90; que também foram observados no Brasil e Mexico. Depois da bem sucedida implantação da caixa de conversão e do programa de estabilização no início dos 90, o câmbio real se apreciou consideravelmente, especialmente após o fortalecimento do dólar na segunda metade dos 90 e da desvalorização brasileira em 1999, ate que sucumbiu no inicio dos anos 2000 trazendo enorme crise para o pais.

O programa de estabilização chileno iniciado na segunda metade dos 70 também guarda semelhanças com o plano de conversibilidade argentino. A partir de sua implantação, observa-se uma forte apreciação cambial, que somada a outros fatores, acaba por terminar numa enorme crise em 1982. Os salários reais aumentaram, o consumo aumentou, o endividamento externo aumentou e finalmente o balanço de pagamentos entrou em colapso, seguido de forte depreciação cambial.

A política macro mudou, entretanto, no Chile depois da grande crise da dívida e contribuiu para um avanço interessante da sofisticação produtiva e aumento de complexidade; o desempenho exportador chileno melhorou muito depois da depreciação relativa do câmbio real. Nos anos 70 e início dos 80, a moeda chilena passou por dois grandes ciclos de apreciação e crise resultantes do período populista da primeira metade da década e dos esforços de estabilização da segunda. Apesar da abertura comercial e de políticas com vistas a melhorar o desempenho do setor externo, o estímulo exportador foi prejudicado pelo comportamento da taxa de câmbio.  Na segunda reforma comercial dos 80, a desvalorização real do câmbio contribuiu para o impulso exportador.

A partir daí o Banco Central passou a adotar uma postura mais intervencionista no mercado cambial com vistas a evitar apreciações. O setor de exportações não tradicional, ligado principalmente a peixes e vinhos e não cobre, atingiu um percentual de 20% no total das exportações em 1989 saindo da casa dos 8% em meados dos anos 70.

O sucesso exportador desse período esteve fundamentalmente relacionado à política de câmbio relativamente desvalorizado. O crescimento médio das exportações chilenas no período 1960-1973 foi de 3,5%, mantendo-se nesse nível entre 1973-1983 e saltando para 5,5% entre 1983-2002. Depois do início dos 2000, o advento da China e a explosão de preço do minério de ferro reverteu completamente esse processo, fazendo com que o cobre voltasse a representar quase 60% das exportações chilenas como pode se observar nos mapas abaixo.chile1

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A sobrevalorização cambial junto com tarifas de importação elevadas foram largamente utilizados em países da América Latina no período de substituição de importações para estimular a industrialização substitutiva de importações (ISI). Funcionavam como uma forma indireta de taxação sobre a exportação de commodities e para neutralizar a doença holandesa na região como tem argumento em vários trabalhos Bresser-Pereira.

Transferiam para o setor industrial parte dos lucros auferidos pelas exportações agrícolas que se beneficiavam do elevado nível de preços dos bens primários. Entretanto, a partir da consolidação da industrialização a estratégia passou a ser contraproducente na medida em que dificultava a penetração dos produtos latino-americanos no mercado internacional; o protecionismo foi excessivo e tornou as empresas brasileiras dependentes do mercado domestico cativo.

Ao longo do tempo as empresas da America Latina não conseguiram se sofisticar e começaram a perder espaço tanto em seus mercados domésticos, especialmente depois da abertura comercial da região, quanto em mercados mundiais. Como destaca Fishlow (2004), a sobrevalorização cambial deixou de ser funcional para o desenvolvimento da América Latina como na fase de industrialização substitutiva de importações (ISI) na década de 70.

O caso mexicano é sui generis pois a economia tem se especializado em ser uma montadora de bens importados da Asia para vender nos EUA. Aparece aqui umas das fragilidades do Atlas da complexidade que não consegue capturar esse valor adicionado de maquilas em manufaturas diretamente. Para se fazer isso teria que se analisar a pauta importadora dos países, também disponível no banco de dados. No caso mexicano é possível ver claramente que há enorme importação de bens complexos e exportação de bens complexos; daí a conhecida caracterísrica de “maquila” da economia mexicana.

O lado ruim desse tipo de especialização produtiva é que não há uma produção de fato de complexidade “made in Mexico”. Por outro lado, as empresas e industrias mexicanas estão mais próximas de dar esse salto pois já estão minimamente integradas a essas redes e cadeias produtivas. “Bastaria” serem capazes de começar a produzir mais domesticamente e importar menos, algo simples de se dizer e difícil de se fazer. Os mapas de exportação e importação da economia mexicana abaixo mostram essa característica.

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Uma maneira interessante para se controlar esse viés do Atlas é fazer uma comparação entre marcas e patentes e gastos em P&D como proporção do PIB em países com seu nível de complexidade, algo feito no trabalho de Schteingart, D. (2014) e apresentado no gráfico abaixo para a média do período 2000-2010; a “capacidade tecnológica” ou inovação de cada país é medida como gastos em P&D e número de patentes registradas nos EUA.

É possível ver claramente que México e Brasil figuram como “montadores”, ou seja, apresentam complexidade mas têm baixo nível de inovação. Os países nórdicos, leste asiático e norte da Europa, além de EUA e Canadá se destacam como países complexos e inovadores. Os países do sudeste da Ásia, com destaque para Malásia, Tailândia, Indonésia e até mesmo China estão também na categoria de “montadores”. Australia é o único país que aparece no quadrante de inovadores com baixa complexidade.

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Os países asiáticos de sucesso, por outro lado, conseguiram avançaram na construção de complexidade “feita em casa” com capital próprio e criando empresas globais de capital nacional:o destaque fica obviamente com Japão e Coreia do Sul, mas os países do sudeste asiático também têm avançado nessa direção e até mesmo India mais recentemente.

Sobre as tradicionais comparações entre Asia e America Latina, a grande diferença entre as duas regiões parece estar, portanto, no regime de comércio e na administração macroeconômica. Enquanto a América Latina se concentrou num processo de substituição de importações voltado para o mercado interno com forte viés a apreciações cambiais, os países asiáticos perseguiram um programa de estímulo às exportações, com práticas constantes de câmbio reais competitivos.

A explicação para a superioridade do ajuste asiático em relação a crise da dívida, por exemplo, estaria na existência de um amplo e dinâmico setor de bens comercializáveis não commodities, capaz de gerar os recursos necessários para pagar a dívida externa (além dos auxílios de financiamento recebidos diretamente do Japão, especialmente no caso da Coreia do Sul).

A diferença entre essas duas regiões aparece claramente na comparação da razão dívida externa/ exportações no início dos 80. Indonésia, Coréia do Sul, Malásia e Tailândia apresentavam uma média ponderada de 0,821 em 1981 contra uma média de 2,715 para Argentina, Brasil, Chile, México, Peru e Venezuela no mesmo ano. Sachs (1985, pg.541) identifica ainda uma relativa apreciação das moedas latino americanas em relação às asiáticas para o período 1979-81 comparado a 1976-1978, com a exceção de Brasil e Peru.

Após a fase de estabilizações inflacionárias e âncoras cambiais dos anos 90 a América latina entrou em novo ciclo de crescimento puxado por aumentos de preços de commodities e expansão de crédito; uma dinâmica parecida com o que se observou no sul da Europa desde a introdução do euro. Houve grande acumulação de reservas graças ao boom de preços de commodities chinesas e os bancos centrais da região acumularam muitas reservas ainda sob o trauma das crises cambiais dos anos 90.

Foram de fato anos dourados pra a América Latina em termos de taxas de crescimento mais elevadas, transferências de renda e redução de desigualdades. Mas assim como ocorreu no sul da Europa, nesses anos dourados não houve sofisticação tecnológica do tecido produtivo. Foram principalmente expansões baseadas em setores de serviços não sofisticados, imóveis e commodities brutas.

Mesmo com as intervenções dos bancos centrais os câmbios reais dos países da região se apreciaram devido ao aumento de preços dos bens não comercializáveis. A região toda seguiu uma dinâmica do tipo doença holandesa descrita acima. O voracidade por commodities da economia chinesa representou um prêmio de loteria para esses países que acabaram se comportando como “cigarras”.

O boom de preços de minério de ferro, soja, cobre e petróleo forçou a especialização produtiva de Brasil, Argentina, Chile e Colômbia na direção de produzir esse tipo de bens. Houve no Brasil desindustrialização relevante como discutiremos adiante e perda generalizada de complexidade econômica nos países da região. A América Latina não conseguiu trilhar o caminho dos países nórdicos (Noruega, Finlândia e Suécia) e do sudeste da Ásia (Tailândia, Indonésia e Malásia) no sentido de sofisticar seu tecido produtivo apesar das (ou graças as) riquezas em recursos naturais.

Na duas regiões houve muita proteção e subsídios. Nas duas regiões os estados desenvolvimentistas passaram por uma ascensão e queda; foram desmontados a partir dos anos 90. Qual foi a diferença então? Na América Latina não houve ênfase em desenvolver capacidades locais produtivas, houve dependência de multinacionais. Não houve ênfase suficiente em exportações de manufaturados, muitas crises no balanço de pagamentos; a classe capitalista não foi aguerrida o suficiente para conquistar mercados externos, o excesso de proteção criou mercados domésticos cativos.

No sudeste da Ásia houve política industrial agressiva com planejamento do governo; houve desenvolvimento de capital nacional e capacidades locais; os asiáticos focaram nas exportações de manufaturados. Em síntese a história aqui brevemente  apresentada parece se resumir a uma tendência recorrente de ciclos de boom e bust na América Latina associados e bonança de commodities e a um persistente e consistente esforço na Ásia de sofisticação produtiva, especialmente após o final dos anos 70.

Enquanto os primeiros passaram por vários ciclos de apreciação e crises cambiais, com o já conhecido populismo econômico dos anos 70 e 80 e com os planos de estabilização dos anos 90, os países asiáticos concentraram-se na sua estratégia de “export-led growth” com estímulo permanente ao setor manufatureiro. Ao perseguir o controle fiscal e promoção de exportações de manufaturas, os asiáticos evitaram muitos dos problemas latino-americanos.

Enquanto os primeiros usaram o câmbio como instrumento de populismo econômico e ferramenta de estabilização com consequências devastadoras para a indústria local, os segundos parecem ter usado a política macro como estímulo ao setor exportador manufatureiro, mantendo-se fiéis a sua estratégia de desenvolvimento. Nesse sentido, a estratégia de industrialização com promoção de exportações de manufaturas (EPI) do leste e sudeste asiático provou-se muito mais eficaz do que a estratégia de substituição de importações latino-americana (ISI).

ver Construindo complexidade

8 thoughts on “A América Latina não conseguiu completar o salto dos produtos simples para os produtos complexos”

  1. “Sobre as tradicionais comparações entre Asia e America Latina, a grande diferença entre as duas regiões parece estar, portanto, no regime de comércio e na administração macroeconômica. ”

    E o fato dos EUA despejarem dinheiro na industrialização de Japão, Coréia, Cingapura e HK para criar “pontas de lança” ao lado dos países de socialismo real URSS, CdN e China.

    Enquanto isso impedia ou dificultava qualquer tentativa da América Latina de se desenvolver tecnologicamente e mal permitia que possuísse um setor industrial de segunda revolução industrial

    Afinal, para os EUA, os países ou produzem matérias primas, ou produtos industriais. Os dois só eles podem

  2. Ou o Brasil mete dinheiro em infra-estrutura, educação, ciência e tecnologia, ou nunca vai deixar de ser um meio-broxa. Gasto com endividamento ao estilo de Keynes. Não tem outra solução. E quebrar patentes. Usar que o conhecimento hoje em dia voa pela internet e quebrar todas as patentes que puder

    Ou o Estado mete o dedo e coloca a capacidade ociosa do país para se mexer, ou vai continuar em crise

    Ou se integra fortemente com a AL para exportar seus produtos para a região, já que o restante do mundo mal está comprando da China, ou vai cotninuar com alta taxa de desemprego

  3. uma outro parâmetro para avaliar o salto de produtos simples para complexos seria comparar o numero de patentes de modelo de utilidade de nacionais com o de invenções de nacionais depositadas no INPI. O grafico deve mostrar um comportamento bem parecido com o que voce obteve

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