A Cepal acertou: analise de complexidade para entender Prebisch e Furtado

Os antigos economistas do desenvolvimento, também conhecidos como estruturalistas, dividiam-se em duas principais correntes: uma anglo-saxã e outra latino-americana. Ambas as vertentes baseavam suas análises sobre desenvolvimento econômico em conceitos de “linkages” ou ligações produtivas, complementaridades, armadilhas de pobreza e dualismos. A visão estruturalista definia o desenvolvimento econômico como uma transformação radical na estrutura produtiva das economias no sentido de sofisticação do tecido produtivo. Com base na hipótese de que a estrutura produtiva industrial de um país afeta tanto o ritmo quanto a direção do desenvolvimento econômico, a literatura estruturalista destaca a importância da industrialização no processo de mudança estrutural.
Para os economistas estruturalistas, sem um processo de industrialização robusto não é possível aumentar o emprego, a produtividade e a renda per capita de um país e, consequentemente, reduzir a sua pobreza. Para esses autores o processo de desenvolvimento envolve uma realocação da produção de setores de baixa produtividade para setores de alta produtividade, onde retornos crescentes de escala prevalecem. Paul Rosenstein-Rodan, Ragnar Nurkse, Arthur Lewis, H. Singer, Albert Hirschman, Gunnar Myrdal e Hollis Chenery pertencem ao grupo de pensadores econômicos associados com o estruturalismo original ou pioneiros do desenvolvimento. Suas contribuições seminais desafiaram a visão neoclássica acerca da eficiência do mercado para promover a mudança estrutural necessária para o processo de desenvolvimento econômico. Uma outra linha de contribuições vem do chamado estruturalismo latino-americano, que está relacionado, principalmente, à Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) cujas obras se integraram em uma escola de pensamento coerente no final dos anos 1950. À luz das experiências históricas, os principais pensamentos apresentados nesta versão latino-americana são encapsulados nas obras de Raul Prebisch e Celso Furtado, com foco sobre os desafios específicos enfrentados pelos países em desenvolvimento para crescer em uma economia mundial dividida em dois pólos: o “centro” e a “periferia”, com suas distintas estruturas produtivas (Prebisch, 1949; Furtado, 1964).

Para todos esses autores clássicos do desenvolvimento econômico as atividades produtivas são diferentes em termos de suas habilidades para gerar crescimento e desenvolvimento. Atividades com altos retornos crescentes de escala, alta incidência de inovações tecnológicas e altas sinergias decorrentes de divisão do trabalho dentro das empresas e entre empresas são fortemente indutoras de desenvolvimento econômico (Reinert 2009, pg. 9). São atividades onde em geral predominam competição imperfeita e todas as características desse tipo de estrutura de mercado (importantes curvas de aprendizagem, rápido progresso técnico, alto conteúdo de R&D, grandes possibilidades de economias de escala e escopo, alta concentração industrial, grandes barreiras à entrada, diferenciação por marcas, etc…). Esse grupo de atividades de alto valor agregado se contrapõe às atividades de baixo valor agregado, em geral praticadas em países pobres ou de renda média com típica estrutura de competição perfeita (baixo conteúdo de R&D, baixa inovação tecnológica, informação perfeita, ausência de curvas de aprendizado e possibilidades de divisão do trabalho (Reinert e Katel 2010, pg 7.) Para esses economistas o aumento de produtividade de uma economia viria justamente da subida da escada tecnológica, migrando de atividades de baixa qualidade para as atividades de alta qualidade, rumo à sofisticação tecnológica do tecido produtivo  (Bresser-pereira 2014, pg.103). Para isso a construção de um sistema industrial complexo e diversificado é fundamental, sujeito a retornos crescentes de escala, altas sinergias e linkages entre atividades (Reinert 2010, pg.3). A especialização em agricultura e extrativismos não permitiria esse tipo de evolução tecnológica.

O  mapa acima retirado do Atlas da Complexidade Econômica mostra o espaço produtivo de 120 países no comércio internacional de 750 produtos em 2012, cada bolinha representa um produto negociado no mercado mundial em 2012. As cores representam categorias de produtos, sendo os mais sofisticados as máquinas e equipamentos na cor azul no centro.  No cinturão externo estão as commodities agrícolas, minerais e energéticas. Os produtos altamente complexos estão no centro da rede e os de baixa complexidade estão na periferia. Os países ricos produzem e exportam os produtos do centro da rede, os países pobres produzem e exportam os produtos da periferia da rede; como diria a CEPAL. O core da produtividade de um pais está nessas atividades “complexas” produzidas em rede. O restante são commodites e serviços não sofisticados. Os serviços sofisticados dependem das atividades complexas. Produtos de baixa sofisticação e complexidade não demandam redes produtivas sofisticadas.

Essa segmentação entre produtos sofisticados integrados em rede versus produtos de baixa sofisticação e isolados aparece claramente nos resultados empíricos do atlas da complexidade econômica e nas antigas discussões de economistas clássicos do desenvolvimento. Commodities e extrativismos em geral não estão inseridos em redes e tendem a ser produzidos em países pobres da África e América Latina. Produtos industriais sofisticados e integrados em rede são feitos no leste asiático, Europa e EUA. Tecidos produtivos complexos tendem a ser construídos em torno de bens industriais ou processamento de commodities. A história das nações mostra que quem dominou o core dessas atividades produtivas ficou rico, isso é especialmente verdadeiro para EUA, Japão e Inglaterra. Muitos tentaram, alguns conseguiram. O leste da Ásia conseguiu. O leste da Europa também esta conseguindo. África e América Latina tentaram mas não conseguiram.

Nesse sentido o Atlas da Complexidade econômica também traz uma contribuição inestimável para o debate; ao calcular a probabilidade de produtos serem co-exportados por diversos países, o Atlas cria uma medida muito interessante sobre conhecimento produtivo contido nos produtos e capacidades locais necessárias para produzi-los. Quanto maior a probabilidade de dois produtos serem “co-exportados” maior a indicação de que contem caracteristicas similares e de que portanto demandam capacidades produtivas similares para serem produzidos, são produtos irmãos ou primos. O indicador de “co-exportacao” acaba funcionando como uma espécie de medida de “encadeamento produtivo” de cada produto, ou seja, ele indica as conexões produtivas existentes entre vários bens graças aos pré-requisitos comuns necessários para produzi-los. Os bens que tem muita conectividade estão portanto carregados de potencial de conhecimento e tecnológico enquanto que os bens que tem baixa conectividade requerem capacidades produtivas simples e que tem baixo potencial multiplicativo de conhecimento. Por exemplo: países que produzem motores de combustão avançados provavelmente tem engenheiros e conhecimentos que permitem produzir uma série de coisas similares e sofisticadas. Países que produzem só bananas ou frutas tem conhecimentos limitados e provavelmente serão incapazes de fazer bens mais complexos. É importante frisar aqui que toda dificuldade para se observar isso decorre da incapacidade de se medir e capturar diretamente essas competências produtivas locais. O que se observa no comércio internacional são os produtos e não as habilidades que os países têm em produzi-los.

Os exemplos abaixo retirados do Atlas da Complexidade ilustram bem o ponto: maquinário de escavação e carros são altamente “encadeantes” e complexos em termos de conhecimentos, minério de ferro e soja tem baixíssimo poder de encadeamento e são não complexos. Novamente os produtos manufaturados aparecem como destaque em termos de complexidade e “conectividade” em relação a outros tipos de bens. Commodities em geral não apresentam esse tipo de característica. Do ponto de vista empírico fica claro no Atlas que manufaturas se caracterizam em geral como bens mais complexos e commodities aparecem como bens não complexos. O mapa abaixo apresenta as 34 principais comunidades de produtos do Atlas divididos em relação as suas características de complexidade e “conectividade”. E’ possível observar no mapa que maquinário, produtos químicos, aviões, navios e eletrônicos se destacam como bens mais complexos e conectados entre si. Por outro lado, pedras preciosas, petróleo, minerais, peixes e crustáceos, frutas, flores e agricultura tropical apresentam baixíssima complexidade e conectividade. Cereais, têxteis, equipamentos para construção e alimentos processados situam-se numa posição intermediaria entre os bens mais complexos e menos complexos. Do ponto de vista conceitual o Altas também traz um ganho interessante para o argumento estruturalista da industrialização na medida em que cria uma nova dimensão para comparação entres bens. Com o avanço tecnológico das ultimas décadas fica cada vez mais difícil distinguir se um produto e’ manufaturado, semi-manufaturado ou bruto, ou ainda, se um produto e’ industrial ou quase industrial. Dos 4.500 produtos analisados na base mais ampla do Atlas fica muito difícil dizer no detalhe quem e’ industrializado e quem não e’. Por outro lado, e’ possível construir um ranking em termos de complexidade desses 4.500 produtos e das 34 comunidades que abrigam esses produtos. Nos resultados do Atlas fica bastante claro que os países hoje considerados ricos se especializam na produção das comunidades complexas concentradas em manufaturas e os países pobres se especializaram na produção das comunidades não complexas concentradas em recursos naturais.

Ver Construindo ComplexidadeA vingança dos estruturalistas, como medir complexidade?

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Referencias

1. Rainer Kattel & Erik S. Reinert, 2010. “Modernizing Russia: Round III. Russia and the other BRIC countries: forging ahead, catching up or falling behind?,” The Other Canon Foundation and Tallinn University of Technology Working Papers in Technology Governance and Economic Dynamics 32, TUT Ragnar Nurkse School of Innovation and Governance.

2. Erik S. Reinert, 2010. “Developmentalism,” The Other Canon Foundation and Tallinn University of Technology Working Papers in Technology Governance and Economic Dynamics 34, TUT Ragnar Nurkse School of Innovation and Governance.

3. Rainer Kattel & Jan A. Kregel & Erik S. Reinert, 2009. “The Relevance of Ragnar Nurkse and Classical Development Economics,” The Other Canon Foundation and Tallinn University of Technology Working Papers in Technology Governance and Economic Dynamics 21, TUT Ragnar Nurkse School of Innovation and Governance.

4. Bresser-Pereira, L.C., 2014, A Construção Política do Brasil, editora 34, São Paulo, Brazil

5.  C. A. Hidalgo, B. Klinger, A.-L. Barabási, and R. Hausmann, “The Product Space Conditions the Development of Nations”, Science 27 July 2007: 317 (5837), 482-487. DOI:10.1126/science.1144581

10 thoughts on “A Cepal acertou: analise de complexidade para entender Prebisch e Furtado”

  1. Tenho lido seus artigos e sugestões que deu alhures. Sao muitos artigos. Vou aos poucos. Minha curiosidade vai em dois pontos: medida clara de capital humano e economia com pouca troca de informação tecnológica – “rede” de pouca intensidade. Minha especulação é que , relativamente aos países “complexos” fazemos muito pouco, tanto qualitativamente (patentes seria um bom indicador, com o caso típico o da embrapa – que dizem gerar muitas patentes, mas isso não se reflete na lucratividade da empresa), quanto quantitativamente (numero de engenheiros formados, quantos efetivamente trabalham como engenheiro e , se trabalham como, que tipo de atividades fazem). Além disso, intuo uma economia dominada por multinacionais na industria e creio eu que agora até em negócios de baixa complexidade. Se essas multinacionais , de fato, dominarem, provavelmente “conversem” pouco internamente – ou seja, os efeitos de linkage internamente ao país seriam pífios, embora não se possa negar a inserção externa porque de fato essas empresas multinacionais devem negociar com o exterior. Creio eu que as investigações deveriam ser feitas por amostragem, in loco, através dessas empresas, verificando-se o que importam e o que exportam, de forma a se ter uma noção clara da situação sobre sua matriz produtiva. Todos os artigos que li até agora, sugerido pelos seus artigos, usam dados de forma agregativa. “Abusando” mais uma vez de sua boa vontade, se pudesse me indicar trabalhos sobre o ponto que tratei aqui , muito lhe agradeceria.

  2. Paulo, o índice de complexidade tem alguma relação com o valor adicionado das exportações? Pergunto isso por causa das indústrias montadoras, como as maquilas no México. O índice consegue contornar isso?

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