A crise de 2008 e os problemas da teoria macro

Várias vozes se levantaram contra a teoria econômica depois da débâcle de 2008. A respeitada revista inglesa The Economist soltou um numero especial em 2009 que tratava do colapso da teoria econômica. Vários livros a respeito do assunto foram escritos. Destaque para “The return of depression economics” de Paul Krugman, “Animal Spirits” de G. Akerlof e R. Shiller, “Crises Economics” de N. Roubini e “How markets fail: the logic of economic calamities” de John Cassidy. Cada um desses livros, a seu modo, tece pesadas criticas ao estado corrente da teoria econômica neoclássica e propõe alguns possíveis caminhos ou soluções. Em toda essa discussão o regresso as idéias de Keynes e inevitável e de uma forma ou de outra os principais autores que tratam da crise de 2008 acabam dialogando com o velho mestre. Alguns dos pilares do pensamento keynesiano voltaram com força a partir do que se observou no estouro da bolha imobiliária americana. Vale destacar: 1)a instabilidade das finanças, 2)a racionalidade limitada dos mercados, 3)o não automatismo do pleno emprego.
Keynes destacou ao longo de sua obra três pilares teóricos sem os quais fica difícil entender o funcionamento do sistema capitalista. Primeiro a idéia de que o comportamento dos agentes financeiros tende a ser instabilizador. Como viria a mostrar de maneira mais detalhada H. Minsky, seguindo Keynes, os agentes financeiros tendem a se comportar de maneira pró-cíclica tomando risco nos momentos de boom e euforia e entrando em pânico nos momentos de crise. Esse tipo de comportamento acaba criando mais instabilidade e volatilidade no sistema. Um desdobramento dessa idéia aparece na noção de racionalidade limitada diante de um futuro incerto. Na ausência de bolas de cristais para prever o que ocorrerá os mercados constroem expectativas e convenções, com forte influencia psicológica. Essas avaliações subjetivas acabam por influenciar o preço dos principais ativos no mundo e, por conseqüência, decisões de produção, gasto, investimento, emprego, etc…

Keynes também chamava a atenção para a incapacidade de um sistema econômico gerar automaticamente pleno emprego. O sistema de preços de uma economia não é capaz de restabelecer sozinho o pleno emprego de seus meios de produção. Vale dizer, se sobram trabalhadores num país os salários não caem até o ponto em que estes possam ser novamente reempregados. Diante desses três problemas, fica clara a necessidade de um estado regulador, capaz de suprir as deficiências do mercado. Importante registrar aqui também que Keynes era um reformista e não um revolucionário. Queria consertar o sistema e não trocá-lo por outro.

Seguindo algumas dessas idéias e incomodado com a incapacidade da teoria econômica atual em lidar com a crise de 2008, George Soros criou o INET (Institute for new economic thinking) para ajudar a pensar os problemas da economia sob outras perspectivas. A idéia do instituto saiu de uma reunião de brainstorming promovida por Soros em setembro de 2009 nos EUA com 25 economistas. O objetivo principal do instituo sediado em NY é mobilizar a nova geração de economistas para pensar novos ângulos e perspectivas para o estudo da economia, numa discussão aberta que possa também incorporar lições de outras áreas do conhecimento.

Em abril de 2010 reuniram-se no Kings College, em Cambridge, mais de 50 economistas para debater novos rumos para o pensamento econômico. Entre eles estavam Stiglitz e Akerlof, ambos ganhadores de Nobel, Robert Skidelsky, o biógrafo mais importante de Keynes e Dominique Strauss-Khan, diretor geral do FMI à época. Os economistas presentes se dividiam em três correntes principais. Os pós-keynesianos, que procuram resgatar as idéias originais de Keynes para o mundo contemporâneo, ignorando os descaminhos da teoria econômica mainstream atual. Os novos keynesianos, que procuram ainda reinterpretar os problemas levantados por Keynes, só que em termos da teoria econômica (neoclássica) atual e por fim os behavioristas que buscam solução para a teoria econômica a partir do uso da psicologia e finanças comportamentais. Os três grupos tem em comum a insatisfação com o estado atual do pensamento econômico e buscam soluções para tentar consertar ou reformular um conjunto de conhecimento que se mostrou falho em 2008, para dizer o mínimo.

ver Krugman le Keynes: por que a crise não acaba?

3 thoughts on “A crise de 2008 e os problemas da teoria macro”

  1. Professor Paulo Gala, boa noite!

    É um prazer entrar em contato com você para informá-lo que li o seu livro “Perspectivas Macroeconômicas” que vai me ajudar muito no projeto de pesquisa de mestrado que pretendo fazer sobre Keynes a atual crise econômica. Escrito numa linguagem acessível, aprendi muito com ele. Também gostei das indicações de leitura sobre o assunto. Parabéns! Um abraço!

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