O vôo da galinha

O gráfico abaixo mostra a evolução do PIB brasileiro acumulado em 4 trimestres. Continuamos num padrão de vôo de galinha desde o início dos 90. A economia brasileira não consegue deslanchar para um ritmo de crescimento estável e permanente. O gráfico mostra, entretanto, que depois de 2002 atingimos a maior sequência de crescimentos trimestrais desde os anos 80. As desacelerações de 96 e 98 se deveram a crise mexicana, asiática e russa, somadas a nossa fragilidade cambial. Em 2002 tivemos uma grande crise associada a transição política. Pela primeira vez a esquerda assumiu o poder no país.

A partir de 2003 a economia começa a se acelerar para não mais cair de um crescimento acumulado abaixo de 1,1% em 4 trimestres. A grande crise de 2008 derrubou fortemente nosso crescimento, como sabemos. O crescimento do PIB acumulado caiu de 6,6% para -1,0%, uma queda brutal. Os últimos dados mostraram que o PIB desacelerou com força no ano passado. Cresceu apenas 2,7% em 2011, a pior marca desde 2003 se ignorada a crise de 2008. O governo está preocupadíssimo e há risco de repetirmos esse crescimento pífio em 2012.É verdade que o Brasil vive hoje o seu melhor momento econômico dos últimos 30 anos. A partir da migração para um regime de câmbio flutuante, melhora nas contas públicas e limpeza de nosso passivo externo, voltamos a observar um ciclo de crescimento com início em 2003 que já dura aproximadamente 7 anos.

Nosso primeiro arranque no século XX começa nos anos 30 e termina no final dos 50 e dura por volta de 25 anos. O segundo arranque que vai do final dos 60 até o final dos 70 dura quase 14 anos. Se de fato estamos entrando no terceiro grande ciclo de crescimento da economia brasileira, podemos esperar pelo menos mais uma década de taxas na casa dos 4%. Nossos indicadores macro estão no melhor patamar da história recente: nível de reservas, relação dívida/PIB, dívida externa/exportações, inflação sob controle, queda do juro real, aumento da relação crédito/PIB, redução do desemprego, aumento do salário real, mercado doméstico aquecido. Nosso desemprego está nos menores níveis dos últimos 30 anos e a criação de vagas formais atinge recordes históricos.

O número de trabalhadores com vínculo formal na economia aumentou em mais de 10% nos últimos anos e as contribuições para a previdência tem também aumentado muito. O mercado de trabalho brasileiro está desaquecido e os setores ligados a produção de bens de consumo para a população de baixa e média renda se beneficiarão bastante. Nosso crescimento será puxado pelo motor interno. As transformações recentes em nosso mercado de trabalho são, na verdade, fruto de um processo estrutural mais profundo e importante. Estamos agora colhendo os benefícios da transição demográfica feita nos 70 e início dos anos 80. Pela primeira vez na história do país o número de jovens que chega ao mercado de trabalho está diminuindo. Em 2005 o número absoluto de jovens brasileiros (entre 15 e 24 anos) caiu de 35 milhões para 33,9 milhões em 2009.

Essa redução de oferta de trabalho relativa fará com que os salários reais passem a aumentar de forma consistente daqui para frente. No jargão dos economistas, parece que estamos passando do ponto de inflexão do modelo de Lewis, situação na qual os salários reais sobem, pois a mão de obra excedente começa a desaparecer. Se isto de fato se confirmar será uma notícia fantástica para o país pois finalmente teremos um verdadeiro mercado de consumo de massas. A ascensão da classe C, que hoje já é 50% da população, está intimamente ligada a esse processo. O crescimento dos shoppings centers, a construção civil para a baixa renda, a explosão de venda de eletrodomésticos são todos exemplos desse fenômeno. Nessa esteira, nosso mercado de capitais também se beneficiará, obviamente. Empresas ligadas a infraestrutura, logística, consumo, etc… apresentarão crescimento explosivo. Alguns trabalhos já comparam o Brasil de hoje com os EUA dos anos 50. Tudo leva a crer que poderemos ter anos dourados pela frente, se a crise lá fora contribuir. ftp://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Fasciculo_Indicadores_IBGE/pib-vol-val_201201caderno.pdf

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *