A soja não salva

O grafico acima mostra o valor total de soja em grãos exportado em 2014 e os principais players do mercado mundial. O Brasil ocupa lugar destacado com 40% do mercado. A tabela abaixo mostra a divisão do PIB brasileiro de 2015 (5 trilhões de reais) divido em seus vários subsetores. A agropecuária representou 5,2% do PIB em 2015 segundo o IBGE. Fazendo uma conta rápida percebemos que a participação da produção de soja como proporção do PIB no Brasil não passa de 2%. Se o Brasil ocupasse 100% do mercado mundial de soja (pensando hipoteticamente), a soja chegaria a um máximo de 5% do PIB brasileiro. Mesmo dobrando nossa produção chegaríamos rapidamente numa restrição de mercado la fora.

A produção de soja nos EUA (maior produtor mundial do grão) chega 108,014 milhões de toneladas ano com área plantada de 33,614 milhões de hectares (Produtividade: 3.213 kg/ha). O Brasil (segundo maior produtor mundial do grão) atinge produção anual de 95,070 milhões de toneladas com área plantada de 31,573 milhões de hectares (produtividade: 3.011 kg/ha, fonte: CONAB). O consumo interno de grãos no pais é de 39,936 milhões de toneladas, exportação de grãos (Agrostat) 45,7 milhões de toneladas que resulta em U$ 23,3 bilhões. Exportação de farelo de soja (Agrostat) chega a 13,7 milhões de toneladas, resultando em U$ 7,0 bilhões e exportação de óleo de soja soma 1,3 milhões de toneladas ou U$ 1,1 bilhões; total exportado do produto e derivados U$ 31,4 bilhões. Mato Grosso, Parana e Rio Grande do Sul são os maiores produtores.

A soja consumida no Brasil  vira ração, oleo, tofu, shoyu ou leite de soja. A atividade gera aproximadamente 80.000 empregos diretos e 1,5 milhões de empregos indiretos no país. O problema dos empregos indiretos é que o grosso são serviços não sofisticados (lojista, garçom, motorista de táxi, etc), a proporção de engenheiros agrônomos é muito pequena em relação ao resto. São clusters produtivos de baixa complexidade e sofisticação. O produto soja está em posição muito ruim no ranking de complexidade de mais de 4.500 produtos do mercado mundial em 2013 (ranking aqui)

Raciocínio parecido se aplica ao minério de ferro (gráfico abaixo). Em 2014 o Brasil representou 24% de um mercado de 140 bilhões de dólares. Em termos de participação no PIB brasileiro o minério de ferro chega próximo a 3%. Se dobrássemos nossa participação nesse mercado, ganharíamos mais 3% percentuais de PIB. Ou seja, também aqui o tamanho do mercado mundial limita nossa capacidade de expansão. Ferro e soja são os dois produtos mais relevantes da pauta exportadora brasileira (gráfico abaixo). Alem de já termos ocupado de forma avassaladora esses dois mercados, são produtos que empregam muito pouco em seus processos produtivos e trazem poucos potências de inovações tecnológicas e spill overs de conhecimento: são produtos do tipo “beco sem saída”.

A agricultura em geral, e a soja em particular, não desenvolve elos produtivos nem dentro dela mesma nem com outros setores. O agronegócio como um todo não pode ser considerado agricultura, o agronegócio poderia sim ser caracterizado como “processamento de commodities” (peito de frango, suco de laranja, açúcar); permite, portanto, uma “complexificação” parcial por assim dizer da produção. O mesmo vale para processamento de recursos naturais, no limite o aço é isso. Ou seja, não basta uma atividade produtiva ser mecanizável e ter divisão do trabalho que geram ganhos de produtividade. Para contribuir com o desenvolvimento econômico uma atividade produtiva precisa ter elos, muitos elos, para aumentar o potencial de mecanização e divisão do trabalho; isso a agricultura simples e mineração simples não têm.

O agronegócio pode gerar aumento de complexidade produtiva se os tratores, os químicos, as plantadeiras e colheitadeiras forem feitas domesticamente com competência como fizeram EUA e Canadá por exemplo. Mas não há nenhuma garantia de que isso ocorra. A agricultura pode simplesmente importar as maquinas e químicos que necessita e nesse caso o país continuara a ser uma grande fazenda “high tech”, que emprega muito pouca gente só para dirigir o trator, a plantadeira e a colheitadeira. O caminho do desenvolvimento mostra que é preciso sim produzir tratores, colheitadeiras, plantadeiras ou fertilizantes, ou algo complexo que não seja soja, milho ou trigo apenas.

A possibilidade de mecanização e especialização é maior na indústria e nos produtos complexos do que em outros setores justamente por conta da maior possibilidade de divisão do trabalho intra-indústria e entre a indústria e outros setores, algo claramente explorado e discutido na literatura econômica estruturalista a partir das leituras de Kaldor e Myrdal dos 1960 e 1970. Esses insights originais de Adam Smith foram ampliados no trabalho de Allyn Young (divisão do trabalho e increasing returns) dos anos 1920 e também no pensamento austríaco de Bohm Baverk. Kaldor parte dos trabalhos de Allyn Young e da divisão do trabalho dentro das empresas e entre as empresas para destacar a importância dos retornos crescentes de escala na indústria. Para alguns austríacos a lá B. Baverk o setor industrial também é chave.

Essa característica da indústria e das possibilidades de divisão do trabalho ficaram conhecidas como as economias de “roundaboutness” (termo chave de HPE de toda essa discussão) que diz o seguinte: se o Robinson Crusoé estiver sozinho numa ilha vale mais a pena ele gastar tempo fazendo um barco e uma vara de pesca do que sair nadando para pescar peixes. Ou seja, se ele dividir a tarefa de pesca e “mecaniza-la” ele será bem mais PRODUTIVO do que se sair nadando para pescar. Nessa linha Allyn Young destaca a importância do roundaboutness que Smith tão bem sacou e o Bohm Baverk aprofundou. Conclusão: as atividades industriais são as mais propícias para se aplicar o roundaboutness (divisão do trabalho, especialização e mecanização) e, portanto, são o motor da produtividade de uma economia.

ferroXs_Brasil

colheitadeiras

quimicos

tratores

lista do que e’produzido no Brasil: http://www.eventosbrazilmachinery.com/agrishow/lista

15 anos de PIB no Brasil:PIB

5 thoughts on “A soja não salva”

  1. Será que faz sentido pensar se esse não seria o momento de lançar as bases pra uma privatização da EMBRAPA? A lógica é que se desse certo, isso abriria espaço pros grupos que já estão bem capitalizados começarem a avançar em termos de complexidade.Até porque o mercado já existe, vc tem inclusive a In Vitro Brasil (IVB), sendo vendida agora, o problema é ganhar escala, o que poderia surgir com um movimento nesse sentido na EMBRAPA

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