Algumas palavras sobre o “intervencionismo”

Algumas palavras sobre o “intervencionismo”. A importância das chamadas políticas de ITT, ou industrial, trade and technology policies e de política macro adequada aparecem na discussão sobre complexidade como uma das principais explicações do sucesso dos países hoje considerados ricos. Obviamente que o uso de políticas protecionistas para desenvolver a indústria nascente não garante o sucesso como também inúmeros casos históricos demonstraram. A indústria aérea na África do Sul e Indonésia são exemplos de fracasso. Bem como a lei da informática no Brasil dos anos 80. Não basta fomentar uma industria. Ela precisa crescer, amadurecer e se tornar eficiente como se observou no Japao, Inglaterra e EUA. Como bem apontam os autores destacados nessas discussões, o processo de desenvolvimento se dá num ambiente de intensa competição e nações ricas lutam para preservar suas vantagens competitivas em relação aos países em desenvolvimento, tornando o processo muito mais desigual e assimétrico. Na conhecida expressão do economista alemão F. List, após atingirem um elevado estágio de desenvolvimento os países ricos “chutam a escada”, tentando impedir que países pobres percorram o mesmo percurso. Para a perspectiva aqui apresentada, o papel do estado no desenvolvimento econômico é, portanto, fundamental – para bem ou para mal. O “intervencionismo” do governo não é uma panaceia, muito pelo contrário. Traz inúmeros problemas de rent seeking e distorções.

A tentativa de se criar complexidade não vem sem custos. Em última análise é sempre uma iniciativa privada aguerrida e competitiva que constrói um tecido produtivo sofisticado, investindo incessantemente na busca de lucros. Quem decide o que vai ser produzido é o empresário que está no business de ganhar dinheiro. O problema surge quando ganhar dinheiro num país significa ficar eternamente extraindo commodities “da terra”. Nesse caso não surgirão as externalidades responsáveis pelo desenvolvimento econômico. E daí vem o debate: o mercado por si só promoverá esse “upgrading produtivo”? Aqui o setor público deve contribuir com a manutenção de preços macro adequados (equilíbrio fiscal, inflação baixa e estável, câmbio competitivo, prêmio de risco e juros baixos) e políticas de estímulo à inovação e educação adequadas. O protecionismo a indústria infante pode ser usado em alguns casos específicos, mas com metas de ganhos de produtividade e prazos bem definidos como se fez no leste asiático por exemplo. Sempre haverá, no entanto, o risco de captura da agência pública pelo regulado, o que desvirtua completamente o processo.

Por outro lado, desregular tudo e abrir a economia tão pouco resolverá o problema. Economias com empresas fracas sujeitas a fulminante concorrência internacional verão seu tecido produtivo ser dizimado rapidamente em condições de abertura indiscriminada e preços macroeconômicos errados. Os conceitos de desindustrialização e doença holandesa, por exemplo, tratam exatamente desses problemas de regressão tecnológica e queda de renda per capita observados inúmeras vezes na história das nações. Na presença de retornos crescentes de escala uma abertura ampla entre dois países de nível de renda muito desigual produz forte polarizacao da produção no país que já tem mais escala e nível de produtividade. Há risco de destruição total da indústria existente no país mais pobre; seria o equivalente a colocar um peso pena para lutar com um peso pesado. Em países com mesmo nível de renda ok, o ideal é abrir e que vença o mais forte. Ainda sobre a questão da abertura o nível da taxa de câmbio real também é chave. Sobrevalorizacoes muito intensas equivalem a zeragem de tarifas: um pouco do que vimos no Basil dos últimos anos. Com câmbio competitivo é melhor mesmo que não existam tarifas, aliás me lembro de um texto do Rodrik em que ele argumentava que um câmbio competitivo era a melhor política industrial horizontal possível.

Para concluir, vale destacar que a perspectiva da complexidade apresentada aqui tem um propósito muito mais positivo do que normativo. O que a análise do mundo pela ótica da complexidade mostra é que não há caminho possível para o desenvolvimento econômico sem que se siga a rota da sofisticação do tecido produtivo. Todos países ricos são hoje complexos, todos países pobres são não complexos. Como chegar lá? Eis a questão mais importante para entender o Desenvolvimento Econômico.

Ver Construindo complexidade

13 thoughts on “Algumas palavras sobre o “intervencionismo””

  1. Do fim da guerra em diante, Coreia do Norte e Coreia do Sul seguiram distintas trajetórias de modernização retardatária. Orbitando em torno da União Soviética e da China, a primeira se edificou com base na ideologia do Juche patrocinada por Kim Il Sung, cujos pilares são a independência política e a autossuficiência nos campos da economia e da defesa, e que segue em vigor como a essência do “socialismo” norte-coreano. À segunda, foi facultado pelos norte-americanos acesso favorável a seu conhecimento, tecnologia e mercados, que foram fatores indispensáveis à rápida industrialização e modernização do país, fortemente impulsionadas pelo governo ditatorial de Park Chung Hee (pai da ex-presidente sul-coreana, Park Geun Hye, eleita em 2012 pelo conservador Partido Saenuri, removida do cargo por um processo de impeachment em março de 2017 e atualmente presa)

    http://diplomatique.org.br/a-peninsula-coreana-na-mira-do-imperio/

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