Alta tensão no FED

O novo QE europeu ja contribui para novas máximas da bolsa na Alemanha num momento em que a desvalorização do euro torna as ja competitivas exportações alemãs ainda mais competitivas. O superavit em conta corrente da Alemanha segue aumentando, tendo ja superado a posição chinesa. Por essa rota o BCE segue o caminho do Banco Central japonês que produziu bastante desvalorização do yen e novas máximas na bolsa local. Os efeitos do “quantitative easing” (vulgarmente conhecido como impressão monetária) nas economias parecem bastante claros agora. Forte alta de preços de ativos e desvalorização cambial. O caso americano é obviamente paradigmático aqui com fortíssima valorização das bolsas e títulos de alto e baixo risco. Mas também na Europa se observa um derretimento de yields ate mesmo para países problemáticos como Italia que segue com economia fraca, investimento agregado em queda e divida publica em expansão

Se os efeitos dos QEs parecem mais ou menos claros em termos de impactos sobre preços de ativos, o mesmo não se pode dizer sobre o que esta ocorrendo nas economias “reais” desses países. No Japão, apesar da forte alta da bolsa, ha novo risco de queda trimestral do PIB e os salários reais continuam em baixa. Não ha perspectiva vigorosa de retomada do crescimento. Na Europa a Alemanha é exceção e de fato apresenta hoje no mundo umas das melhores perspectivas de crescimento. Apesar de alguma melhora no sul da Europa, a situação continua ainda muito complexa para Portugal, Espanha, Grécia e Itália: as bolsas desses países sobem mas as economias não parecem reagir com o mesmo vigor. Claro que o euro desvalorizado ajuda a todos, mas os desequilíbrios das moedas “intra Europa” permanecem. A situação da Alemanha no momento ilustra bem o problema de uma área monetária ótima que não é ótima. A política monetária expansionista adequada para os países do sul da Europa é inadequada para Alemanha que ja cresce “sozinha”.

Nos EUA a atividade voltou a se desacelerar nesse primeiro trimestre de 2015 e ha duvidas sobre a causa do movimento: inverno frio como em 2014 e greve temporária nos portos do oeste ou uma nova desaceleração mais estrutural por conta de investimentos e produtividade que não reagem, derretimento do preço do petróleo e apreciação do dólar graças a perspectiva de subida de juros? Os empregos gerados nos EUA nos últimos anos tem se concentrando em serviços de baixa sofisticação e baixa produtividade, alem do boom de gás e petróleo de xisto. O pouco de investimento que se observou estava ligado ao setor de energia e a alguma retomada do mercado imobiliário. De um modo geral a recuperação dos EUA tem sido modesta com quedas na taxa de desemprego graças ao abandono das pessoas da forca de trabalho, mas ainda assim uma recuperação quando comparada ao que ocorre no Japão e Europa.

Os banqueiros centrais sabem que correm grandes riscos com essa política de injeção maciça de liquidez que tenta criar credito mas acaba criando bolhas. Na Europa e Japão os dilemas não são tão grandes pois a economia real vai mal e a balança de riscos entre bolhas e desaceleração ainda pende para o lado do medo da recessão. Nos EUA, onde a recuperação caminhou mais, a balança parece estar levemente inclinada para o risco de bolha. Ou seja, na visão do FED, a recuperação existe, não é tão solida quanto se gostaria mas pelo menos o desemprego caiu. E aqui reside o grande risco para os portfólios mundo afora hoje. Se o FED seguir em sua visão de que os riscos para a “estabilidade financeira” estão crescendo, como vez ou outra menciona Yellen e outros diretores, as coisas podem se complicar para os preços de ativos.

O objetivo do FED parece ser uma alta “lenta, gradual e segura” da taxa de juros, se é que isso é possível. Seria então uma tentativa de temperar os ânimos financeiros nos ativos de risco, sem estragar a modesta recuperação da economia americana: um estouro controlado de bolha. Se tudo correr bem, as bolsas se acalmam e param de subir, o mesmo valendo para os títulos de alto e baixo risco. Se correr mal pode surgir a grande correção que muitos esperam ha anos. Sob a ótica da economia real, dinâmica de preços e salários e comportamento do mercado imobiliário não haveria necessidade de subida de juros ja. O payroll fraco de Marco com vagas abaixo de 130mil contribuiu para empurrar as expectativas de alta dos juros para Setembro. Ocorre que se o motivo da alta de juros for mais a “estabilidade financeira”, os movimentos de juros do FED ficam mais sujeitos a avaliações do comitê do FOMC sobre esse tema do que as condições econômicas correntes propriamente ditas. Dessa tensão no FED entre frear ou não o ímpeto financeiro dependera a trajetória dos ativos de risco no mundo e no Brasil. 

 

*empregos gerados nos EUA em fev e mar

3 thoughts on “Alta tensão no FED”

  1. Olá Paulo. Eu tenho a tendência a achar que o FED, se subir os juros, será feito de modo bem suave. O motivo principal é que a dívida do governo dos EUA é alta. Cada aumento nos juros por lá é um tiro no pé e considero isso um efeito colateral enorme. O que você acha ?

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