Analise Retórica em Economia

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Desde seu papel na obra de Adam Smith – que dava aulas de retórica antes de se voltar a economia – passando por sua importância no trabalho de Keynes e na revolução keynesiana, parece bastante difícil entender a superação de controvérsias na História do Pensamento Econômico[1] sem o apoio desta chamada arte. Como bem diz Keynes em uma de suas célebres passagens, “ In economics you cannot convict your opponent of error – you can only convince him of  it. And, even if you are right, you cannot convince him, if there is a defect in your powers of persuasion and exposition or if his head is already so filled with contrary notions that he cannot catch the clues to your thought which you are trying to throw at him. “ (Keynes 1973, p470)

Dentro desse programa de pesquisa, encontramos várias análises que destacam o papel da retórica na evolução de idéias econômicas. Bianchi e Salviano Jr. (1996), por exemplo, procuram demonstrar como a utilização desta por Raul Prebisch jogou papel fundamental na aceitação de suas idéias no campo. Antonio Maria da Silveira (1996), por sua vez, tem presente em seu texto  “A sedição da escolha pública” – mesmo que de forma subreptícia – a importância da retórica no sucesso recente da escola da Public Choice – principalmente nos trabalhos de Buchanan. Fernández (2000) analisa como esta contribuiu para o progresso da teoria dos custos de transação de Oliver Williamson.

De grande interesse também é um dos trabalhos de Donald McCloskey, The Rethoric of Economics 1998, que faz uma análise da obra “ Railroads and American Economic Growth “ de Robert Fogel. O autor mostra como Fogel, também laureado com o Nobel em 1993, utiliza-se de várias técnicas de persuasão para convencer seu público a respeito de suas idéias. Enfim, poderíamos seguir citando exemplos que ajudariam a corroborar a importância da retórica na economia , nos valendo, entre outros, de Coase, Muth e Paul Samuelson[2]. Evidentemente não há aqui espaço, nem é de nosso interesse principal, esse tipo de desenvolvimento analítico. O tema do papel da retórica no progresso da ciência econômica é controverso[3] e, no que segue, tentaremos, apenas, clarificar um pouco as posições existentes no campo da metodologia para podermos situar nossa análise.

Para os assim chamados partidários da retórica, perguntar se o uso desta é nocivo ao conhecimento humano constitui-se num falso problema. Como bem aponta McCloskey, uma utilização preconceituosa desse termo esteriliza sua maior contribuição, a saber, a busca da  “grande razão” através da conversa e do debate: “ Não minta, preste atenção, não burle; coopere; não grite; deixe que falem os demais; seja imparcial; explique-se quando perguntarem; não recorra a violência ou à conspiração em ajuda de suas idéias ”… são regras que fazem parte da Sprachethik como aponta o filósofo alemão Jurgen Habermas e  lembra McCloskey (1996, p66).  Para seus críticos, o recurso excessivo a técnicas de persuasão desvirtua a atividade científica na medida em que perde de vista a busca da verdade em detrimento do convencimento. Vejamos um pouco mais acerca desse debate.

Para julgarmos que alguém abusa de determinados expedientes de convencimento, mesmo que estes impliquem em abandono ou desprezo da verdade – como num caso de um bom advogado criminalista que liberta um assassino a partir de uma eficiente utilização da retórica[4] – devemos partir de algum conceito claro e definido de verdade, uma Verdade com V maiúsculo para usar os termos de Fernández (1996). E aqui reside o maior problema. Sabemos que em ciência a questão das verdades – “base empírica” ou “observação” – é problemática, principalmente pela dependência que estas têm nas teorias que formulamos (Lakatos 1965, pgs.129-130).

A partir da obra de Thomas Kuhn, “ A estrutura das revoluções científicas “ e de Imre Lakatos, no trabalho intitulado “ O falseamento e a metodologia dos programas de pesquisa científica “- ambos, de alguma forma, tributários da tradição popperiana – parece surgir um consenso, na área da metodologia científica, a respeito da inexistência de verdades absolutas ou com V maiúsculo. Tanto no conceito de programas de pesquisa lakatosiano, como na idéia kuhniana de paradigma, encontramos uma resposta possível e aceita para a definição do “ operador verdade “ em ciência. Ambos nos mostram que esta não pode ser provada – não existe conhecimento demonstrado para usar os termos de Popper ou de Lakatos[5] – e o que nos resta, portanto, é uma solução temporária, baseada em “ consensos “ na comunidade científica.[6]

Nesta esteira, mais especificamente a partir da idéia de paradigma, surge a retórica como defendida por McCloskey[7]. “ The idea that science is a way of talking, not a separate realm of Truth, has become common among students of science since Thomas Kuhn. “ (McCloskey 1998, p21). A obra “ Proofs and Refutations: The Logical of Mathematical Discovery “, de Imre Lakatos (1976) que, segundo McCloskey, trata do papel da retórica na matemática, parece também apontar no sentido da complementaridade de idéias entre esses dois autores. Enfim, na ausência dessa tal Verdade demonstrada e absoluta, devemos nos contentar com um acordo atingido a partir do consenso – através do debate e discussão – capaz de nos fornecer pelo menos uma verdade com v minúsculo. Ainda sobre este ponto é interessante notar o comentário de Arida (1996) acerca do sucesso do programa de pesquisa neoclássico em economia.

“ A reavaliação ainda que sumária das controvérsias que firmaram o programa neoclássico de pesquisa mostra que a resolução destas controvérsias foi determinada pela superioridade de procedimentos retóricos, de um lado, e pelo vigor comparativo dos programas por outro. Em nenhuma das controvérsias o recurso à evidência empírica desempenhou papel predominante. Inexistiam regras comuns de validação; a “ verdade “ do programa neoclássico estabeleceu-se por motivos estranhos ao modelo hard science “ (Arida 1996, p24) [grifos nossos]

A discussão da retórica em economia vincula-se também a movimentos na filosofia. Como nos mostra Bento Prado Jr., a problemática da retórica no campo da economia deve também ser entendida a partir de um movimento filosófico mais abrangente. Em suas palavras, [ estes textos ] percorrem esse novo terreno aberto pela crise do ideal da unified science ou do “ modernismo “, para usar a linguagem de McCloskey. Os limites desse novo terreno são bem definidos: crítica do positivismo, mas a partir de pontos de vista diferentes. Tais pontos são o neopragmatismo de Rorty, a teoria crítica na sua versão habermasiana, a integração ricoeuriana dos instrumentos da filosofia analítica, da fenomenologia e da hermenêutica, a epistemologia kuhniana, com suas idéias de revolução científica e de mudança de paradigma. É dentro desse campo que ganha pertinência a questão retórica da economia…” (Bento Prado Jr. 1996,  p8)

Assim, para uma abordagem “ otimista “, a conversa, a discussão, o debate, enfim, a boa retórica, constitui-se num possível caminho de avanço do conhecimento. Boa conversa significa boa ciência (McCloskey 1996, p69). A retórica é, portanto, entendida aqui do ponto de vista construtivo[8], jogando papel importante na busca da verdade.

De outro lado, argumentarão seus oponentes, a retórica busca convencer e persuadir e não a verdade. Nesse sentido, boas teorias serão aquelas convincentes e, portanto, capazes de converter a maioria dos cientistas. Nas palavras de Paulani (1996) ao criticar as idéias de McCloskey, “ … pois a função das teorias e hipóteses científicas não é a busca da quinta roda inoperante [a verdade]; a causa de sua existência é serem persuasivas, interessantes, razoáveis, terem apelo. Assim, boa teoria é a teoria que convence mais, que persuade a platéia e os interlocutores. Tornando-nos todos vítimas, assim, dos magos da retórica, por piores que possam ser suas intenções. “ (Paulani 1996, p109)

Ou ainda, como nos mostram Aldrighi e Salviano Jr. (1996), muitas das técnicas retóricas podem, por vezes, ser completamente nocivas à boa ética científica, “ … a mera consulta a um manual de retórica permite concluir que há muitas figuras retóricas cujo uso conflita com os ideias de clareza e honestidade que McCloskey subscreve. “ (Aldrighi e Salviano Jr.1996, p90)

Sabemos que originalmente a retórica foi criada para convencer. Rego (1996) nos mostra a origem dessa discussão entre Górgias, Sócrates e Platão. Os assim chamados críticos do papel da retórica para o avanço da ciência parecem entender a mesma do ponto de vista de Górgias, em que o “ agonismo da retórica deve ser entendido como uma arte de se ter sucesso a qualquer preço, inclusive através do imbroglio” (Rego 1996, p135). A busca da verdade cede lugar à busca da persuasão e a atividade científica cai por terra. O debate acerca da contribuição da retórica para o avanço científico não é nada trivial. Identificamos acima suas duas dimensões. Uma primeira positiva, que destaca seu importante papel exploratório e analítico de idéias[9], que contribui para o aumento da “ razoabilidade “ científica através da discussão, opondo-se claramente “ a idéia de que retórica é o oposto da lógica “(Fernández 2000, p3), significando retórica, portanto, “ pensamento explorado pela conversação “.[10]

Uma segunda, onde a retórica é vista com destaque para sua conotação negativa, “ um engano verbal, como na “ retórica vazia “, ou em “ mera retórica “(McCloskey 1996, p70). Privilegia-se assim seu aspecto agonístico, onde seus praticantes visariam a “ participar de um campeonato na arte de persuadir “(Paulani 1996, p109). Essa controvérsia não é facilmente solucionável. Como bem apontam Bianchi e Salviano Jr. (1996), no limite parece bastante difícil conciliar as posições de discurso persuasivo de um lado e conversa civilizada de outro. “ Querer convencer e querer dizer a verdade não são incompatíveis, mas também não são substitutos. “ (Bianchi e Salviano Jr. 1996, p175).

Menos controversa é a questão da utilidade de estudos retóricos para a compreensão do avanço da ciência econômica. Não pretendemos, nem poderíamos, resolver aqui se o uso desta é nocivo ou não ao progresso científico. Podemos, entretanto, defender a virtude metodológica de análises retóricas como forma de contribuição para o melhor entendimento do saber econômico. Sob esse breve pano de fundo iremos agora analisar as estratégias argumentativas utilizadas por Douglass North na construção de seu livro de 1990.

Douglass North “ como Retórico “

O trabalho de Douglass North representa hoje uma referência essencial para a pesquisa voltada à história econômica e para o corpo do conhecimento de economia como um todo, principalmente através da chamada corrente institucionalista. A partir da publicação de “ Institutions, Institutional Change and Economic Performance “ em 1990 e da obtenção do Prêmio Nobel de 1993, North passou a ser leitura obrigatória para todos que se interessam em estudar o desenvolvimento das economias no longo prazo e, mais especificamente, os determinantes da “ riqueza e pobreza das nações “.

A base de todo arcabouço teórico de North está no entendimento da formação e da evolução das instituições – “ humanly devised constraints that shape human interaction “ – numa economia ou sociedade. O marco do início de sua pesquisa nesse campo encontra-se em seu trabalho “ Sources of Productivity Change in Ocean Shipping, 1600-1850 “  de 1968 (Goldin, 1994). Neste estudo, North encontra um resultado curioso: o aumento da produtividade da indústria de transporte oceânico no período analisado decorre muito mais de inovações e evoluções institucionais, entre as quais a redução da pirataria, do que de mudanças na tecnologia de transporte. Ou seja, uma evolução institucional pareceu ser mais importante do que uma evolução tecnológica.

A partir de então, North desenvolve uma série de trabalhos, principalmente de caráter histórico, que procuram entender o papel das instituições na evolução das sociedades, tanto primitivas quando modernas. Destas obras destacam-se “ Institutional Change and American Economic Growth “ (1971), “ The Rise of the Western World “ (1973) e “Structure and Change in Economic History “ (1981) , obra na qual o autor se propõe à arrojada tarefa de analisar toda a história econômica da humanidade, à luz de suas idéias sobre instituições. É recorrente, portanto, a busca do entendimento da dinâmica do processo de evolução institucional. Sua obra de 1990, talvez a mais conhecida e divulgada, representa esse esforço e, nas palavras do autor (North 1990, p7), encontra a resposta teórica do seu projeto de pesquisa.

Esse breve estudo não se preocupará, entretanto, com a análise dessa contribuição ou dessa “ resposta teórica “ stictu sensu,  trabalho este já feito por inúmeros outros autores. Mais do que em sua contribuição específica, estaremos interessados na maneira como esta foi construída e apresentada, ou seja, faremos uma análise da retórica na obra de Douglass North. Ao fazer uma discussão desse tipo, nosso trabalho se filia a uma tradição relativamente recente de estudos em economia. Nos Estados Unidos, tendo seu principal representante em McCloskey – a partir de seu paper seminal de 1983, “ The Rhetoric of Economics ”, no Journal of Economic Literature – e no Brasil, a partir da publicação do texto  “A História do Pensamento Econômico como Teoria e Retórica” de Pérsio Arida, também em 1983.

Não existe uma receita pronta para se fazer uma análise desse tipo. Mas, como aponta Arida (1996, p37), apesar de um certo caráter histórico das formas retóricas de sucesso, é possível construir uma lista, mesmo que incompleta, de figuras e estratégias que obtiveram sucesso ao longo dos tempos na ciência econômica. Um outro caminho possível, seria analisar o próprio estilo do texto e a maneira como são feitas as colocações pelo autor ao desenvolver suas idéias.

No que segue, faremos primeiramente uma análise do estilo de Douglass North. Para tal, discutiremos alguns conceitos por ele apresentados ao campo da economia – com especial destaque para a relação destes com o conhecimento vigente e pelo cuidado do autor em introduzir questões controversas. Na seção subsequente, daremos ênfase a algumas das clássicas regras de retórica, como listadas por Arida (1993). Estaremos aí então preocupados em buscar estruturas de pensamento no corpo teórico de North que possam ser caracterizadas como tais. Essa divisão – mesmo que arbitrária – tem um objetivo prático. Visa separar uma análise de formas e figuras retóricas de literatura em geral – como faz McCloskey em seu trabalho sobre Fogel -, de uma aplicação mais específica destas à analise da ciência econômica – como faz Arida em seu texto sobre a história do pensamento econômico.

Por questões de espaço, concentraremos nossa análise no texto de 1990, “ Institutions, Institutional Change and Economic Performance ”. Nos parece que aí residem as investidas retóricas mais importantes do autor. Na verdade, podemos identificar já a partir da primeira parte da obra uma forte estratégia de persuasão. Ao invés de simplesmente começar a descrever suas idéias e contribuições, o autor recheia as primeiras páginas de seu livro com fartos movimentos retóricos. Desde a utilização de clássicas figuras como a paramologia e a metáfora, passando por argumentos de erudição e de cientificidade (voltaremos a esses pontos mais adiante), North tem muito cuidado ao apresentar suas idéias. Vejamos abaixo como o autor nos tenta convencer da possibilidade de integração do instrumental institucionalista à teoria neoclássica e de como estudar instituições representa algo relevante – movimento retórico efetuado em 3 partes.

Inicialmente, faz questão de apresentar seu  “aparato” como complementar a economia neoclássica e a cliometria – essas duas escolas parecem constituir seu principal público alvo ao longo do livro já que a referência a estas é recorrente. Apresenta, em seguida, a possível omissão das mesmas em relação a incorporação de algum instrumental do tipo institucionalista de forma branda, como uma “não apreciação”. Diz o autor:

“ Yet, neither current economic theory nor cliometric history shows many signs of appreciating the role of intitutions in economic performance because there as yet has been no analytical framework to integrate institutional analysis into economics and economic history. The objective of this book is to provide such an underlying framework. “ (North 1990, p3) [grifos nossos]

Segue insistindo na tentativa de integrar a teoria vigente às suas idéias. Nas duas primeiras páginas utiliza as palavras complementaridade, reconciliação na sequência e integração por duas vezes – afirmando claramente, perto do final da primeira seção,

“ Defining institutions as the constraints that human beings impose on themselves makes the definition complementary to the choice theoretic approach of neoclassical economic theory “  (North 1990, p5)

Ao longo do livro, percebemos que a complementaridade, de fato, entre a teoria de North, cliometria e escola neoclássica é no mínimo controversa. Sem nos aprofundar muito neste ponto, podemos citar – a título de exemplo – dois dos principais pilares do pensamento de North que podem ir contra a teoria vigente:

i) A defesa de uma teoria de racionalidade “processual” como desenvolvida por Simon (1986) – que também possa incluir de alguma forma cooperação e altruísmo – ou seja, a não aceitação da racionalidade instrumental ou rational choice, que constitui pilar fundamental do arcabouço neoclássico; em suas palavras:

“ The motivation of the actors is more complicated (and their preferences less stable) than assumed in received theory. More controversial (and less understood) among the behavioral assumptions, usually, is the implicit one that the actors posses cognitive systems that provide true models of the worlds about which they make choices or, at the very last, that the actors receive information that leads to convergence of divergent initial models. This is patently wrong for most of the interesting problems with which we are concerned. ” (North 1990, p17) [ Neste ponto parece que North evita fazer uma crítica que mencione explicitamente o conceito de expectativas racionais ]

ii) A utilização de uma teoria de múltiplos equilíbrios e retornos crescentes, fortemente baseada no conceito de “ path dependence “ como desenvolvido por Arthur (1988) e David (1985). Seguindo North, os mecanismos self-reinforcing de Arthur ocorrem devido a quatro motivos principais: i) altos custos de set-up , ii) efeitos de aprendizado, iii) efeitos de coordenação e iv) expectativas adaptativas. A consequência dos mesmos é, na sequência: i) possibilidade de múltiplos equilíbrios, ii) possibilidade de equilíbrios ineficientes, iii) lock in e iv) path dependence. North utiliza-se desses conceitos para definir a dinâmica das matrizes institucionais das sociedades, em suas palavras:

“ In a world in which there are no increasing returns to institutions and markets are competitive, institutions do not matter. If, as discussed in chapter 2, the actors initially have incorrect models and act upon them, they either will be eliminated or efficient information feedback will induce them to modify their models. [ ] But, with increasing returns, institutions matter. Indeed, all four of Arthur”s self-reinforcing mechanisms apply, although with somewhat different characteristics.” (North 1990, p95)

North  prefere começar o livro sem dar destaque a essas divergências que só serão encontradas ao longo do texto. A passagem abaixo, retirada já do final da obra, ilustra a mudança de postura em relação ao instrumental neoclássico, marcando de maneira muito mais explícita a posição do autor:

“ The cliometric contribution was the aplication of a systematic body of theory – neoclassical theory – to history and the application of sophisticated, quantitative techniques to the specification and testing of historical models. … However, we have paid a big price for the uncritical acceptance of neoclassical theory. Although the systematic application of price theory to economic history was a major contribution, neoclassical theory is concerned with the allocation of resources at a moment of time, a devastatingly limiting feature to historians whose central question is to account for changes over time. Moreover, the allocation was assumed to occur in a frictionless world, that is, one in which institutions either did not exist or did not matter. These two conditions gave away what economic history is really all about: to attempt to explain the diverse patterns of growth, stagnation, and decay of societies over time, and to explore the way in which the frictions that are the consequences of human interaction produce widely divergent results.” (North 1990, p131)

Ao levantar alguns temas controversos – como por exemplo o problema da convergência entre países pobres e ricos – ainda no primeiro capítulo, com relação às previsões e resultados alcançados por esta teoria, North se limita a dar parcos contra argumentos de abrangência, mas sempre ressaltando as virtudes desse modelo, como veremos mais abaixo. Inicia, portanto, uma crítica, mas interrompe-a rapidamente para dar o que se poderia chamar de uma “reviravolta retórica”. Ao invés de atacar seu público – “cliômetras e neoclássicos” – em seus pontos fracos, North opta por fazer uma discussão de toda sua trajetória intelectual ao longo de seus últimos 17 anos. Vemos aqui a clássica construção do ethos, ou a apresentação do autor de tal modo que inspire confiança e credibilidade ao leitor. Como bem aponta McCloskey[11] e os manuais de retórica gregos, não há como persuadir sem que o público “confie” no orador ou escritor.

O estabelecimento de um ethos – seja consciente ou inconscientemente – é  essencial para qualquer boa persuasão. Como nos mostra Crowley (1999) – em  seu livro “ Ancient Rethorics “ – o escritor ou orador deve se colocar perante a audiência de tal modo que inspire confiança. Para tal, existem várias estratégias, desde a demonstração de “ good will “, passando pela honestidade intelectual e questões de reputação, entre outras. No caso de North – especificamente no primeiro capítulo que ora analisamos – encontramos um movimento explícito nesse sentido. Uma das principais estratégias de construção de  ethos está em mostrar que o autor entende do assunto sobre o qual argumenta – que fez a lição de casa para usar os termos de Crowley (1999), em suas palavras,

“ Rethors can create a character that seems intelligent by demosntrating that they are informed about the issues they discuss… [ ] … so in this case rethors must take special care to convince an audience that they are well informed[ ] He may do so by using language that suggests he is an “ insider “, by sharing an anedocte that indicates he has experience or knowledge in a particular area, or by describing his qualifications. “ (Crowley 1999, p112) [grifos nossos]

Encontramos a seguinte passagem já no início da obra de North – onde podemos ver a construção de seu “ caráter “ com base em honestidade intelectual e demonstração de aprofundamento sobre o tema em questão.

Let me briefly retrace my steps in dealing with this central issue [ evolution of institutions ]. In North and Thomas (1973) we made institutions the determinant of economic performance and relative price changes the source of institutional change. But we had an essentially efficient explanation; changes in relative prices create incentives to construct more efficient institutions. The persistence of inefficient institutions, illustrated by the case of Spain …[ ] Such an anomaly [ the case of Spain ] did not fit into the theoretical framework. In Structure and Change in Economic History (North 1981) I abandoned the efficiency view of institutions [ ] In that study I raised the question posed by Alchian´s evolutionary argument, but had no answer. [ ] It was possible to explain the existence of inefficient institutions, but why wouldn´t competitive pressures lead to their elimination? (North 1990, p7) [grifos nossos]

Para finalizar o capítulo, North conclui com uma breve discussão histórica sobre a evolução dos Estados Unidos, contrastada ao atraso dos países de terceiro mundo. Nesse ponto aparece o apelo à erudição – pois o autor mostra, rapidamente, que conhece bastante sobre história econômica – e mais do que isso, já numa tentativa de  associar sua teoria a “fatos empíricos” dando à mesma um caráter de cientificidade, além da abrangência garantida por análises históricas. De fato, ao longo do livro encontramos várias passagens que procuram dar um “tom científico” ao trabalho – outra estratégia de convencimento destacada por McCloskey. Como, por exemplo, no trecho,

“ The history I include is illustrative, designed to show the promise of the approach. But far from providing for the kind of hypothesis testing that must ultimately be done. ” (North 1990, pVii) [grifos nossos]

 Vemos, portanto, um belo “movimento” com intuito de persuasão. Neste capítulo há uma preocupação de North, caracterizadora dos bons textos, de obter uma identificação, ou mais do que isso, “a criação de um público ou audiência”[12]. Como mostra McCloskey, os expoentes da teoria literária destacam o importante papel do “leitor implícito” numa obra bem escrita.[13] Já no primeiro capítulo North apresenta suas idéias se referindo explicitamente a teoria neoclássica e a cliometria (North 1990, p3). É fato que o autor também se diz preocupado com a leitura do público não economista, principalmente de cientistas sociais. Também é fato que em alguns momentos do texto North “conversa” com a teoria marxista e com historiadores em geral. Mas o núcleo de sua obra direciona-se primordialmente para a “ current economic theory “ e “ cliometric history “, nos termos do próprio autor.

Boa prova dessa postura, encontra-se na análise do capítulo 2. O autor gasta 6 páginas para analisar e resenhar o que havia de mais recente em teoria dos jogos que se aproximava de seu projeto – por que não resenhar a teoria marxista? – para depois concluir que nenhuma destas empreitadas havia trazido grandes avanços. Ora, se essas teorias não apresentaram resultados tão promissores, por que então apresentá-las, senão como uma maneira de convencer o leitor – neoclássico – a respeito disso?

A partir de uma leitura mais atenta, poderíamos interpretar os dois primeiros capítulos do livro de 1990 como primordialmente retóricos. Tirando umas poucas passagens, encontramos quase 14 páginas preocupadas em conversar com o leitor a respeito de uma teoria que será ainda apresentada. Por que não ir direto ao ponto e começar a mostrar os conceitos do instrumental proposto?

Ainda sobre a questão de estilo, discutimos agora uma estratégia de argumentação típica de persuasão: a paramologia ou admittance[14]. Como aponta McCloskey (1998 p164) em seu estudo sobre Fogel, movimentos desse tipo constituem-se em conceder aspectos secundários – seja por convicção seja para dar força ao argumento – inicialmente, para ganhar outros mais importantes na seqüência.

Esse tipo de expediente é utilizado de forma recorrente ao longo do livro de North. Passagens como a seguinte se repetem muitas e muitas vezes. Ao criticar a idéia da convergência proposta pelo instrumental neoclássico, North inicia seu argumento com uma concessão.

Although we do observe some convergence among leading industrial nations that trade with each other, an overwhelming feature of the last ten millennia is that we have evolved into radically different religious, ethnic, cultural, political, end economic societies, and the gap between rich and poor nations, between developed and undeveloped nations, is as wide today as it ever was and perhaps a great deal wider than ever before.” (North 1990, p6) [grifos nossos]

 Quando North se propõe a “ bater de frente “ com o modelo neoclássico, aparecem vastas utilizações dessa forma de argumentação. Num dado momento do texto, o autor define o que seria o “ melhor sumário das hipóteses comportamentais do modelo neoclássico “ (North 1990, p19). Segue argumentando sobre dois pontos que considera essenciais para entender essa questão – que chama de problemas de motivação e decifração dos agentes – para depois fazer um movimento de convencimento. Abaixo repetimos alguns dos pontos destacados nesse chamado sumário, intercalando-os com a réplica de North apresentada para cada um deles. Nossos grifos destacam a estratégia de concessão utilizada pelo autor para ganhar, em seguida, pontos principais que mais lhe interessam.

  1. “ The economic world is reasonably viewed in equilibrium “(North 1990, p19) [modelo neoclássico]”- For some purposes the concept of equilibrium is a valuable tool of analysis, but for most of the issues that we are concerned with there is not one equilibrium, but multiple equilibria that arise because there is a continuum of theories that agents can hold and act on without ever encountering events which lead them to change their theories” (Hahn, 1987, p.324) “(North 1990, p24) [réplica]

 

  1. “ Individual economic actors repeatedly face the same choice situations or a sequence of very similar choices” (North 1990, p19). [modelo neoclássico]” – Although individual actors face many repetitious situations and, as noted above, can act rationally in such situations, they also are confronted with many unique and nonrepetitive choices where the information is incomplete and where outcomes are uncertain.” (North 1990, p24) [réplica]

 

  1. “The actors have stable preferences and thus evaluate the outcomes of individual choices according to stable criteria” (North 1990, p19) [modelo neoclássico]” – Although Becker and Stigler have made an impressive case (1977) for relative price changes accounting for many apparent changes in preferences, the stability issue is not so easily dismissed. Not only do anomalies show up at the disaggregated level at which psychological research has been conducted, but certainly historical evidence suggests that preferences over time change. I know of no way to explain the demise of slavery in the nineteenth century that does not take into account the changing perception of the legitimacy of one person owning another.” (North 1990, p24) [réplica]

 

  1. “Given repeated exposure, any individual actor could identify and would seize any available opportunity for improving outcomes and, in the case of business firms, would do so on the pain of being eliminated by competition.” (North 1990, p19) [modelo neoclássico]” – Actors would certainly like to improve outcomes, but the information feedback may be so poor that the actor cannot identify better alternatives. (North 1990, p24) [réplica]

 

  1. “Hence no equilibrium can arise in which individual actors fail to maximize their preferences.” (North 1990, p19) [modelo neoclássico]” – Competition may be so muted and the signals so confused that adjustment may be slow or misguided and the classic evolutionary consequences may not obtain for vey long periods of time.” (North 1990, p24) [réplica – aqui o autor não concede nada mas é bastante cauteloso ao criticar seu “adversário”]

 

  1. “Because the world is in approximate equilibrium, it exhibits at least approximately the patterns employed by the assumption that the actors are maximizing. (North 1990, p19) [modelo neoclássico]” – The condition of the world troughout history provides overwhelming evidence of much more than simple rational noncooperative behaviour.” (North 1990, p24) [réplica – novamente não há concessão mas surge um apelo às “ evidências empíricas “]

 

  1. “The details of the adaptative process are complex and probably actor and situation specific. By contrast, the regularities associated with otpimization equilibrium are comparatively simple; considerations of parsimony, therefore, dictate that the way to progress in economic understanding is to explore these regularities theoretically and to compare the results with other observations.” (North 1990, p19) [modelo neoclássico]” – The behavioral assumptions of economists are useful for solving certain problems. They are inadequate to deal with many issues confronting social scientists and are fundamental stumbling block preventing an understanding of the existence, formation, and evolution of institutions.” (North 1990, p24) [réplica]

 

Ou seja, vemos a utilização extensiva de espaço no texto para construir raciocínios de persuasão. Poderíamos seguir aqui analisando mais traços do estilo retórico de North. Não temos, entretanto, nem o espaço nem o interesse para tal. Importa aqui reter a preocupação de North com a forma de seu texto. Nas passagens acima, procuramos mostrar como o autor constrói a embalagem ou invólucro de sua teoria. Cada movimento argumentativo tem o objetivo de preparar o terreno para a introdução das idéias. A preocupação do autor em  dialogar com sua “ audiência “ é nítida. Percebemos tal atitude a partir do cuidado em identificar e interagir com as idéias e crenças supostamente presentes na cabeça de seu leitor implícito.

De fato, como nos mostra Dib (2001), um dos principais pré-requisitos para um esforço de convencimento passa pela identificação e interação com o conjunto de crenças pré existentes na mente de um receptor[15]. Toda e qualquer pessoa é incapaz de depreender exatamente um conceito que lhe é transmitido, na medida em que para entender e captar o mesmo tal indivíduo lançará mão, necessariamente, de suas próprias crenças e conceitos pré existentes. Nos termos de Dib (2001), uma idéia-núcleo – ou conceito puro – não trafega de forma simples da mente do emissor para o receptor. Este último é incapaz de percebê-la em sua forma mais pura pois para entendê-la necessita de seu filtro cognitivo. Uma retórica bem praticada consiste em identificar tais crenças ou paixões pré existentes para depois moldar a idéia a ser transmitida no sentido de sintonizá-la à mente – ou filtro cognitivo – do receptor. Nas palavras de Dib,

“ []… o processo de comunicação torna-se qualitativamente distinto do simples ato de transmitir a idéia – é preciso adaptá-la às crenças do receptor – trata-se de ter em mente a intenção de convencer. Ao tentar tornar a mensagem original mais palatável diante das paixões do receptor, o processo de comunicação da idéia torna-se estratégico. Neste caso, a idéia a ser transmitida não é simplesmente codificada pelo emissor, de modo a permitir seu trânsito no canal da comunicação fornecido pela linguagem – seu conteúdo é adaptado de acordo com os sentimentos do receptor, criando assim uma espécie de Cavalo de Tróia capaz de penetrar na fortaleza das paixões da audiência. “(Dib 2001, p16)

Encerramos aqui a análise do estilo literário de North, ou mais especificamente, a forma de sua argumentação. A presença de várias figuras retóricas parece confirmar nossa suspeita. O recheio do texto e a condução da argumentação parecem transformar a obra de North numa espécie de “ cavalo de Tróia “ para usar a metáfora de Dib (2001). Partiremos agora para um outro espaço de observação. Seguiremos o ponto de vista de Arida (1996) nos baseando, portanto, no estudo dos clássicos movimentos retóricos observados ao longo da história do pensamento econômico.

A Contribuição de North “ como Teoria e Retórica “

 Destacaremos agora a estratégia de North baseando-nos na lista sugestiva criada por Pérsio Arida no seu texto de 1983. Não intencionamos comentar todas as 8 regras – nos concentraremos nas três que se apresentam como mais pertinentes a este estudo.

Como primeiro exemplo, podemos mencionar o que Arida chama da sábia regra da utilização de metáforas. A utilização das mesmas na ciência econômica tem longa história (lembremos da clássica metáfora da “mão invisível” de Adam Smith). Segundo Arida, o que mais importa, entretanto, é a sábia utilização das mesmas – já que por definição todo modelo é de alguma forma metafórico. Diz ele,

“A metáfora atinge o máximo de eficiência retórica no início do debate ou na apresentação de certas proposições originais: no decorrer do debate ou controvérsia, tenta-se efetivar ao máximo possível sua eliminação que, com respeito a Bachelard, denominamos redução.” (Arida 1996, p42) [grifos nossos]

Não por acaso, North apresenta sua metáfora principal já na segunda página de seu primeiro capítulo. Diz ele,

“ Institutional constraints [ ] … are the framework within which human interaction takes place. They are perfectly analogous to the rules of the game in a competitive  team sport. [ ] Continuing the sports analogy… “ (North 1990, p4)

Além da aplicação desta, encontramos outra também bastante importante: a regra da  abrangência. Como aponta Arida, modelos ou idéias capazes de explicar ou dar conta de mais fenômenos têm uma tendência maior à aceitação. Evidentemente, ao se tratar de um historiador econômico, North irá usar e abusar do expediente de “chamar toda a história” como subsídio às suas idéias. Com muita freqüência encontraremos argumentos do tipo “ tal modelo não dá conta de explicar diversas questões encontradas ao longo de nossa história”. Como por exemplo no trecho abaixo,

” The central puzzle of human history is to account for the widely divergent paths of historical change. How have societies diverged? What accounts for their widely disparate performance characteristics. After all we all descend from primitve hunting and gathering bands. This divergence is even more perplexing in terms of standard neoclassical and international trade theory, which implies that over time economies, as they traded goods, services, and productive factors, would gradually converge.” (North 1990, p6)

Vejamos, por fim, aquela que talvez tenha a sido a mais importante regra retórica de todo desenvolvimento da ciência econômica, a regra da generalidade ou a tentativa de “subsumir” as teorias alheias à nova teoria proposta. Exemplos nesse sentido são fartos. Marx, como, mostra Arida (1996), tentou “ subsumir ” os mercantilistas, os fisiocratas e a economia política clássica em sua teoria do capital a partir dos conceitos de capital dinheiro, capital mercadoria e capital produtivo. Jevons advogava que sua teoria do valor era “mais geral” e portanto podia explicar a tese do valor trabalho como um caso específico da sua (Jevons 1965, p105). Bastante conhecida também é a estratégia de Keynes ao dizer que o modelo clássico era válido somente para um caso específico – ou estado – de uma economia de mercado, a saber, o ponto de pleno emprego. Diz ele já no início da Teoria Geral,

 I have called this book the General Theory of Employment, Interest and Money [] … the object of such a title is to contrast the character of my argumentation and conclusions with those of the classical theory of the subject … [ ] The characteristics of the special case assumed by the classical theory happen not to be those of the economic society in which we actually live, with the result …”(Keynes 1964, p3)

Ao longo do livro de North encontramos várias tentativas de reduzir a teoria neoclássica a um caso especial do institucionalismo ou a um conjunto de instituições específicas. Além de abusar da regra de abrangência, North vai além, tentando mostrar que seus  “adversários” não são capazes de explicar muito do que observamos na história pois seus modelos se aplicam somente a “casos e momentos específicos do tempo”. Trechos como os seguintes são comuns ao longo de toda a obra.

“In a world in which there are no increasing returns to institutions and markets are competitive, institutions do not matter. “(North 1990, p95) [ ] Institutions, together with the standards constraints of economic theory, determine the opportunities in a society. (North 1990, p7) [ ]… what behaviour then is consistent with an institutions free world? (North 1990, p18) [ ] Incentives are the underlying determinants of economic performance. They are implicit in the theories we have employed and assumed to have a particular form and effect”. (North 1990, p135) [grifos nossos]

É certo que a questão de formas gerais e particulares em teorias apresenta-se com alguma controvérsia. Em geral, veremos autores propondo – como faz North – que seus modelos são mais gerais e portanto mais significantes. Poderia se argumentar que existem critérios objetivos para qualificar teorias como gerais ou particulares – por exemplo quando um argumento é capaz de substituir constantes por variáveis, para usar os termos de Arida (1996). Mas sabemos que na verdade a relação entre teorias não pode ser entendida sob prisma tão simplificador (Arida 1996, p39). Uma discussão aprofundada a esse respeito está fora do escopo deste trabalho. Cabe aqui, entretanto, citar mais um exemplo com o intuito de ilustrar a importância retórica dessa regra.

Partindo da própria referência à estratégia de Keynes que tenta subsumir os clássicos, vemos, a partir de Arida (1996), que na síntese neoclássica os adversários de Keynes voltam a subsumi-lo e na seqüência desse embate, os pós-keynesianos tentam novamente subsumir os neoclássicos. Dentro da própria disputa entre seguidores de Keynes surge discussão parecida. Numa das controvérsias entre Pós e Novos Keynesianos encontramos um genuíno confronto de generalidade. Davidson (1995) procura mostrar que seu conceito de não-ergodicidade requer menos axiomas para obter resultados keynesianos, e portanto representa uma teoria mais geral. Rosser (1996), por sua vez, ao utilizar o ferramental de “ chaos “ e “ sunspots “ defende que sua teoria requer menos do que as condições de linearidade implícitas na proposta de Davidson e que, portanto, é matematicamente mais geral. Nas palavras do autor,

“A central feature of the debates over New Keynesian and Post Keynesian economics has been which is the more “general” approach. Thus Davidson (1994, 1995) argues that his version of “Keynes-Post Keynesianism” is more general because it involves a minimum number of axioms. He obtains core Keynesian results with a linear unique equilibrium model and thus claims that this is more general than approaches relying upon nonlinear dynamics and their associated complexity phenomena. There is something to this argument. But, things are not so simple. One of his axioms is that of nonergodicity. [ ] Indeed, one may have fundamental uncertainty without nonergodicity, as in models displaying chaotic dynamics [ ] Here we come to the crux of the issue: nonlinear and complex dynamics provide a clear foundation for fundamental uncertainty that embraces cases not convered by nonergodicity. Furthermore, nonlinearity is mathematically the general case of which linearity is the special case. Empirically there is almost no reason to believe that the world is linear. “ (Rosser 1996, p12)

Vemos assim que as disputas de generalidade persistem na ciência econômica. A estratégia de North ao tentar absorver a teoria neoclássica como um caso particular da sua carrega enorme poder de persuasão. As três regras discutidas acima procuraram destacar um pouco mais desse aspecto da construção de sua obra.

 

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[1] O texto de Arida (1983) é bastante esclarecedor neste sentido.

[2] Todos analisados por McCloskey

[3] Ver a esse respeito Fernández (1996), pg.151

[4] Sobre essa questão ver a discussão de Fernández(1996) pg.147

[5] Ibidem pg.110

[6] Existem controvérsias a respeito da  melhor utilização das idéias de Kuhn e/ou Lakatos em Economia, seguimos aqui Rego (1990) e não Blaug, partindo-se do pressuposto de que, a rigor, não existem grandes  diferenças entre a abordagem kuhniana e lakatosiana.

[7] A relação Kuhn – McCloskey está também sugerida em Rego (1990) pg.160 e Dib (2001) pg.5

[8] Ver a esse respeito a discussão em Rego (1996) pg.135 sobre a retórica de Aristóteles. Ainda sobre esse tema e também sobre a chamada Nova Retórica ver McCloskey (1996) pg.71

[9] Ver o projeto de Aristóteles explicitado em Rego (1996) pg.135 e pg.136

[10] Aldrighi e Salviano Jr. (1996) pg.83 com referência a McCloskey (1983) pg. 512

[11] Para uma discussão da construção de vários “ ethos “ em alguns autores ver  “ The Rethorics of Economics “ pg.7

[12] Ver a esse respeito o texto de Bianchi e Salviano (1996)

[13] Para que o leitor desfrute do texto e acredite em suas idéias é preciso que ele aceite fazer o papel do “ leitor implícito “. Ver “ The Rethoric of Economics “ pg.84

[14] Ver Lanham (1991) pg.2 e pg.194

[15] Voltamos aqui à importância da relação debatedor – platéia já explicitado acima.

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