Festa da liquidez

Bernanke anunciou o tão esperado QE3. O FED vai comprar 40 bilhões por mês de Mortgage Backed Securities (títulos lestreados em hipotecas) indefinidamente até que as condições no mercado de trabalho americano e na economia em geral melhoram. Os juros também continuarão próximos de zero até pelo menos 2015 e as compras de títulos de longo prazo do tesouro americano continuam (operação twist). Chuva de dinheiro. O helicopter Ben quer garantir que as taxas de juros fiquem baixas em todas as classes de ativos por lá. Como avisou em seu discurso, ao sentir que as condições financeiras estão tranquilas, as pessoas se motivam mais a gastar e os empresários a investir. Essa é a aposta da politica monetária ultra-expansionista do ultra-keynesiano Ben Bernanke.

Ao analisar as propriedades da função de demanda por moeda num dado sistema econômico Keynes tratou teoricamente de um fato curioso, que nunca tinha visto nem acreditava ser possível na prática. Uma situação em que o estoque de liquidez e moeda na mão dos agentes atingisse um ponto de saturação. Num caso desses novas rodadas de injeção de liquidez teriam pouco ou nenhum efeito sobre o nível da taxa de juros de curto prazo que deveria já estar próxima de zero. Se imaginarmos a função demanda por moeda como uma hipérbole, haveria uma convergência assintótica em direção a zero no eixo da taxa de juros conforme a demanda por moeda explode para o infinito. Um banco central injetando moeda até não poder mais, o juro próximo de zero e os agentes econômicos saturados de liquidez. Gastar hoje ou no futuro, tomar emprestado ou emprestar, o futuro com o mesmo preço do presente. Bem vindos ao caso japonês e americano hoje.

O que aconteceu na crise americana não foi exatamente o que Keynes tinha em mente quando pensava sobre a situação limite da armadilha da liquidez. Mas sua tese de preferência pela liquidez se aplica perfeitamente ao caso. Numa situação de desespero, de incerteza em relação ao futuro, os agentes econômicos trocam ativos menos líquidos por ativos mais líquidos, sendo a moeda o caso extremo. Na crise a demanda por liquidez explode pois surge uma suspeita generalizada em relação ao valor dos ativos de risco. Se as autoridades monetárias não respondem imprimindo moeda, as taxas de juros (que são o preço da liquidez) explodem. Mas o Fed do Bernanke tem respondido a altura. Aliás, com mais força que o próprio aumento da demanda por liquidez. Desde o início da crise até o final de 2010, já contando com a nova onde de afrouxamento monetário, a base monetária deverá passar de U$500 bilhões para quase 3 trilhões de dólares.

Esses dólares que têm sido jogados de helicóptero na economia mundial tem destino certo: ativos no mundo emergente. Nos EUA os consumidores não gastam, as empresas não investem e os bancos não emprestam. Todos endividados, sem emprego e renda. Então o melhor mesmo é investir no Brasil, China e Índia. Por aqui, a pressão no câmbio continuará forte ainda, nossos ativos de risco (ações, imóveis, títulos) vão subir. Bernanke está jogando liquidez na nossa festa. Ao tentar ajudar a economia americana Ben está mesmo é turbinando os emergentes.

*gráfico de Andre Perfeito: http://research.stlouisfed.org/fred2/

ver Tempestade perfeita no mundo emergente e Depressões no mundo rico

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