Brasil 2013: entre o FED e a China

O segundo semestre de 2013 será marcado por tensões quanto a desaceleração da China e retirada dos estímulos do FED. Foi assim o mês de Julho, serão assim os próximos meses. Não há dúvidas de que a China transitará para um crescimento abaixo de 7%. Também não há dúvidas de que as compras de ativos por parte do FED vão cessar. A questão chave é a velocidade e intensidade desses processos. Ambos não totalmente no controle das autoridades. No caso americano, mesmo que o discurso do FED seja super-dovish, não se pode controlar as ansiedades e interpretações do mercado. No caso chinês, achar que o governo poderá estimular a economia eternamente é uma ilusão. Uma hora a coisa sai do controle. Por aqui dólar, Bovespa e juros longos dependem fundamentalmente desses desdobramentos. Se forem mais suaves poderemos ter uma bolsa recuperando parte do terreno perdido, câmbio oscilando num patamar mais controlado e juros longos se estabilizando na casa dos 11%. Qualquer tropeço maior trará de volta a tensão, num movimento parecido ao que vimos no último mês de Junho com Bolsa voltando para os 45 mil pontos, câmbio subindo a 2,3 e juros longos passando dos 11,5%.

No caso do FED é importante colocar o discurso recente em contexto. No final de Janeiro termina o segundo mandato de Bem Bernanke a frente do FED; e provavelmente não assumirá um terceiro. Desde que assumiu, Bernanke promoveu a maior expansão monetária da história dos EUA e do mundo. Tirou o balanço do FED de aproximadamente 800 bilhões de dólares em 2008 para mais de 3,5 trilhões hoje com a novidade última das compras de 85 bilhões por mês iniciadas em Dezembro de 2012. Há muitas controvérsias em torno dessa estratégia, mas diria que a resposta de Bernanke foi a altura do ocorrido: a maior crise americana desde 1929. É difícil antecipar como exatamente o FED sairá dessa postura super-dovish. Mas uma coisa é certa, as condições de super- liquidez estão chegando ao fim. A economia americana não está mais a beira de um colapso, e o crescimento de pelo menos 1,5% ao ano parece assegurado num horizonte próximo. A expansão monetária não seguirá até o infinito e muitos diretores do FED gostariam de termina-la já conforme pudemos constatar na leitura das últimas atas do FOMC. Se for se aposentar do FED, Bernanke terá que encaminhar essa questão. O sentido natural do movimento será de retirada dos estímulos e eventualmente subida da taxa de juros de curto prazo. Resta ver como os mercados reagirão (de novo) ao eventual término desse tsunami monetário.

O caso chinês também é complicado. O modelo chinês de crescimento replicou a estratégia de sucesso do Japão do pós-guerra, da Coréia do Sul e Taiwan dos anos 70 e 80 e de Malásia, Indonésia e Tailândia nos 90. Câmbio competitivo e exportações de manufaturas para a economia mundial. Transferência de trabalhadores do campo para o setor industrial com ampla ajuda e interferência do governo. Uma industrialização “forçada”, por assim dizer, com manipulação de preços, proibições e distorções que “direcionavam” a indústria para produzir para o mercado mundial. Esse modelo de crescimento começou a se esgotar em 2008 com a grande crise americana. A partir daí Pequim seguiu uma nova estratégia. Estímulos monetários e creditícios. Desde então o crédito por lá explodiu e um sistema paralelo (shadow) financeiro surgiu. Muitos excessos foram cometidos e os desequilíbrios atuais são fartos. O novo governo que assumiu colocou as reformas como prioridade e parece que o ajustamento da economia chinesa será feito agora, por bem ou pro mal. Todos sabem que o milagre japonês morreu no crash de 1990 e os milagres de Coréia, Malásia, Indonésia e Tailândia acabaram na crise de 1997. Como será a aterrisagem chinesa? Os últimos dados de crescimento mostram que ainda é o investimento agregado que puxa a demanda. As exportações tem contribuição fraca e o consumo cresce a taxas bem menores. Esse modelo de crescimento é insustentável pois não será possível utilizar tanta capacidade instalada por muito mais tempo. O excesso de investimento (próximo de 50% do PIB) também é um problema. Quando esse surto de investimento passar a China finalmente se tornará um país “normal” com taxas de crescimento mais civilizadas na casa dos 4%ou 5% talvez. Resta saber se essa transição será gradual ou brusca. E se aparece já com força nesse segundo semestre de 2013. A esse respeito, bastaram dois PMIs (indicador de atividade dos gerentes de compras) de EUA e China no final de Julho para acabar com a calmaria nos mercados. O PMI chinês de 47,7, maior queda em 11 meses, mostrou que a desaceleração chinesa está aí, bem clara. O PMI americano de 53,2 em julho, maior patamar em 4 meses, voltou a trazer preocupações quanto a retirada de estímulos do FED. Os dois fantasmas que assustam o mundo estão por aí. A Bovespa que seguia num pequeno rally se ajustou. O câmbio futuro que chegou a cair para R$2,22, pulou para R$2,27 e os juros longos abriram mais de 2%. A volatilidade do segundo semestre continuará seguindo esse script.

No front brasileiro a atividade continua decepcionando e a inflação parece ter dado uma trégua. Nosso mercado de trabalho tem apresentado fortes sinais de desaquecimento. A época de geração de 1,5 milhão de postos de trabalho por ano ficou para trás. Os dados do último CAGED mostram a desaceleração na criação de vagas e o desemprego voltou para o patamar de 6%. O crescimento esperado de 2% para esse ano não será suficiente para recolocar nosso mercado de trabalho na rota da criação de vagas. A desaceleração do consumo agregado e investimento já aparece no mercado de trabalho. A pressão de inflação de serviços deve cair bem e o ciclo de alta da SELIC deve ser mesmo moderado, não chegando a 10%. O IGP-M de de Julho deu pistas do que deve acontecer com a inflação nos próximos meses. O IPC-M marcou deflação numa indicação do alívio nos preços ao consumidor.  Em junho o IPA-M subiu com força graças à desvalorização cambial, mas esse efeito parece ter arrefecido em julho. Houve uma queda no IPA-M e no IPC-M. Daqui para frente a inflação dependerá mais do novo patamar da taxa de câmbio já que o nível de atividade econômica e mercado de trabalho brasileiro estão mais fracos. De todo modo os IGPs continuam rodando na casa dos 5%-6% ao ano. Bom para os CRIs e fundos imobiliários que estão ativos nesse indexador.

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