Câmbio errado e Desenvolvimento econômico

A taxa de cambio tem dupla natureza: de um lado o preço relativo entre bens tradables e non-tradebles e de outro o preço de um ativo financeiro. A dinâmica de determinação da taxa de câmbio é fundamentalmente financeira, especialmente num contexto de abertura da conta capital. Do ponto de vista da relação de preços tradables e non-tradables o país vem entrando numa situação problemática na medida em que a apreciação do câmbio real dificulta cada vez mais a inserção da produção doméstica na economia mundial. Os preços brasileiros quando convertidos para dólares alcançam níveis surpreendentes, eliminando a competitividade de nossas indústrias, inclusive das mais eficientes.

Como preço relativo entre tradables e non-tradebles, o câmbio afeta fortemente a dinâmica tecnológica do país, na medida em que impacta decisões de investimento, produção e inovações. O nível do câmbio real tem um papel fundamental na dinâmica macroeconômica a partir de uma perspectiva de longo prazo. Ao influir na determinação da especialização setorial da economia, notadamente no que diz respeito a estímulos à indústria, o impacto do nível do câmbio na dinâmica de produtividade é elevado. Sobrevalorizações cambiais são especialmente nocivas para processos de desenvolvimento econômico, pois reduzem substancialmente a lucratividade da produção e investimento nos setores de bens comercializáveis manufatureiros. Ao realocar recursos para os setores não manufatureiros, especialmente para a produção de commodities (com retornos decrescentes de escala), e para setores não comercializáveis, as sobrevalorizações cambiais acabam por afetar toda a dinâmica tecnológica da economia. Subvalorizações, por outro lado, estimulam a produção e investimento nos setores manufatureiros onde retornos crescentes de escala são possíveis.

Ao definir a rentabilidade da produção de manufaturas através da relação de preços tradabels-non tradebels, o câmbio real acaba por definir a viabilidade de setores econômicos importantes para o aumento da produtividade geral da economia. Sobrevalorizações podem impedir a transferência de mão de obra dos setores de baixa produtividade para os de alta produtividade já que o preço dos bens não comercializáveis fica artificialmente elevado. Um dos canais importantes de progresso técnico e aumento de produtividade fica assim bloqueado, impedindo a economia de transitar da situação de imaturidade para a maturidade nos termos kaldorianos. Uma moeda competitiva, por outro lado, pode ser um estímulo adequado para a integração de trabalhadores em atividades de alta produtividade e retornos crescentes. Para concluir vale destacar os impactos da volatilidade cambial no desempenho da economia. Num ambiente de conta capital aberta a determinação da taxa de câmbio é financeira e depende da tradicional dinâmica minskyana de “boom” e “bust”. O preço relativo tradables-non tradables passa a ser determinado no mercado financeiro com dinâmicas bastante complexas. Ou seja, a rentabilidade da produção manufatureira, que é fundamental para o desenvolvimento econômico de longo prazo, passa a depender dos humores do mercado financeiro. ver meu paper sobre o temaConstruindo complexidade e paper que formaliza a discussao

Cálculos feitos por Emerson Marçal no CEMAP http://cemap.fgv.br/, a diferença entre as duas linhas calcula o desvio do câmbio em relação a sua posição correta.

 

15 thoughts on “Câmbio errado e Desenvolvimento econômico”

  1. As correlações são de forma alguma evidentes. No momento de grande valorização do cambio entre 2003 e 2010 as exportações industriais brasileiras cresceram a taxas razoáveis e no período em que a taxa se desvaloriza, as exportações cresceram a taxas muito mais baixas, elas parecem ter sido muito mais sensíveis ao ritmo de variação da demanda externa do que da variação da taxa de cambio

    1. A deval de 2002 da forte impulso às exportações indústrias que começam a perder força perto de 2008. A sobrevalorização cambial que começa a se formar a partir de 2005/2006 cobra seu preço já a partir de 2009. O déficit da balança manufatureira se amplia bem a partir de 2007/2008. De forma resumida o câmbio real sai de uma posição subvalorizada entre 2002-2005 para uma posição sobrevalorizado entre 2006 e 2014

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