Cenário para 2013

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O novo acordo da Grécia saiu.  Prazos foram alongados e juros reduzidos. A meta será trazer a relação dívida/PIB para 124% em 2020 e tentar voltar ao mercado em 2017. Para o curto prazo sem dúvida que a questão foi resolvida. Haverá uma liberação de 34,4 bilhões já para Dezembro. Mas para o médio prazo os problemas continuam. As novas metas são quase utópicas. Importante lembrar que o PIB grego já caiu 25% desde que a crise começou em 2008. Para um PIB em queda livre não há corte de gastos capaz de reduzir a relação dívida PIB. Quanto mais se corta gasto, mais o PIB cai e pior fica essa relação. Nessa situação observa-se um multiplicador orçamentário super-elástico para baixo. Ou seja, as bombas de austeridade tendem a agravar ainda mais a situação no curto prazo apesar de a intenção ser boa no longo prazo.

O problema fundamental da Europa é de desequilíbrios estruturais entre seus países membros, especialmente os do sul em relação aos do norte. Com indústria menos sofisticada e nível de produtividade menor, os países do sul sempre se valiam do truque da desvalorização da moeda para recuperar a competitividade perdida graças à inflação acima da média europeia. Com o advento da moeda única esse truque acabou e a estrutura intra-industrial do continente está desajustada. Desde a introdução do Euro até hoje os preços e salários na França, Portugal, Espanha, Grécia e Itália subiram muito mais do que na Alemanha, Holanda, Áustria e Nórdicos e a produtividade ficou estagnada. Também graças à expansão do crédito e forte redução das taxas de juros o endividamento privado nesses países explodiu. Hoje estão endividados e com um altíssimo custo unitário de produção industrial.

Sem desvalorização cambial não dá para corrigir esse desequilíbrio. As exportações ficam estagnadas, a produção industrial afunda junto com a explosão do desemprego. Consumo e investimento agregados não reagem devido à incerteza em relação ao futuro. Os governos altamente endividados não têm nenhum poder de fazer política anticíclica para ajudar: aumentar gastos e cortar impostos. Aliás são obrigados a fazer justamente o oposto, agravando ainda mais a recessão. O aumento dos custos de captação e a subida de juros diminuem ainda mais o estímulo para investir nesses países. Nem as chamadas “reformas estruturais” seriam, no limite, capazes de corrigir tamanhas distorções que se criaram nesses últimos 10 anos.

Tudo isso para dizer o seguinte: a crise europeia ainda vai durar vários anos. Na falta de uma solução mais criativa continuaremos a observar um ajustamento do tipo padrão ouro, onde a recessão e a deflação vão lentamente corrigindo o nível de preços e salários até que algum dia a competitividade seja retomada. Enquanto isso governos continuam com dificuldades: greves, protestos e baixíssimo dinamismo econômico. E a Troika vai segurando esses países para que eles não abandonem a moeda única. A monetização dos déficits é inevitável para evitar rupturas.

Nos Estados Unidos a história é diferente. Há ampla capacidade e possibilidade de se fazer política anticíclica. Os QEs ajudaram muito, bem como a política fiscal expansionista de Obama. Não a toa os EUA de hoje são a única região rica do mundo cujo PIB é superior ao nível de 2008 (UK, Euro e Japão não recuperaram esse patamar ainda). A desvalorização do dólar contribui para a retomada da indústria americana. E a política de juros zero de Bernanke somada aos estímulos fiscais ajudam na recuperação. Claro que o Fiscal Cliff pode atrapalhar. Segundo contas preliminares poderia retirar entre 1% e 2% de crescimento dos EUA em 2013. Mas estruturalmente a situação é bem melhor. Obama vai se valer da força política da reeleição para cortar o mínimo possível de gastos e algum acordo até o final do ano certamente sairá. No front americano a probabilidade de más noticias é bem menor do que na Zona do Euro. O mercado imobiliário já apresenta alguns sinais positivos, bem como a produção de máquinas e equipamentos. Com um pouco de sorte e dependendo da habilidade de Obama os EUA poderão sim trazer boas noticias para o mundo em 2013.

Por aqui o governo brasileiro tem feito de tudo para tentar retomar o crescimento, especialmente depois da divulgação do pibinho do terceiro trimestre. Administra uma “banda cambial informal assimétrica” para tentar alcançar um câmbio mais desvalorizado. Trouxe a SELIC para sua mínima histórica e praticou inúmeras desonerações na tentativa de estimular o consumo e o investimento. No entanto nosso cenário de crescimento continua dependente de Europa, EUA e China. Não teremos a capacidade de crescer sozinhos a taxas robustas se essas regiões não melhorarem. Na China a principal probabilidade é de um soft landing. Redução do crescimento sem traumas. Os impactos de China sobre preço de commodiites são fundamentais para a economia brasileira. Nossas exportações hoje dependem em mais de 20% de China.

A dificuldade brasileira é, num certo sentido, parecida com o que o ocorre no sul da Europa. A indústria brasileira passa por uma situação bem difícil em termos de custo unitário de produção. A subida dos salários nos últimos anos somadas as estagnação recente da produtividade por aqui fez com que o custo unitário de produção (produtividade/salário) subisse muito no Brasil. Nosso crescimento em 2013 não será tranquilo. 3% seria excelente dada a situação de Europa e EUA. O crédito também continua mostrando sinais de desaquecimento por aqui. Esse motor que funcionou bem nos últimos anos não contribuirá com tanto vigor a partir de agora. Será difícil sustentar crescimento só com o setor de serviços. Tudo isso me leva a crer que vai faltar demanda agregada para puxar o crescimento no ano que vem. A retomada firme da atividade econômica em 2013 não está garantida.

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