Choque de juros nos EUA fica para depois

jrs

A decisão de Setembro do FED de não retirar estímulos surpreendeu a todos. Desde então vários diretores tem se pronunciado com suas visões sobre o que seria a política monetária correta e qual o timing adequado para a retirada dos estímulos. Os dados recentes da economia americana justificam e justificavam uma retirada gradual dos estímulos, mas não um choque de juros como o que se observou. A taxa do título de 10 anos saiu de 1,5% e foi a quase 3%! O FED não está satisfeito com o tamanho de seu balanço que se aproxima dos 4 trilhões de dólares (dinheiro impresso). Mas um choque de juros dessa magnitude certamente não estava nos planos. Fica a sensação de que ele “se arrependeram” em termos do tamanho do movimento nas taxas. Queriam sim reduzir as compras mensais, mas um aperto monetário dessa natureza não era o objetivo. Por isso a decisão de continuar com os estímulos por enquanto (no taper).

Impressiona também o nível de conflito entre os atuais diretores do FED. O presidente do FED de Dallas, R. Fischer, que é membro não votante, disse que Janet Yellen é uma mulher sensacional mas está completamente errada sobre política monetária. Fisher acusou a casa branca de ter politizado uma discussão técnica; como se a técnica de política monetária fosse simples e consensual. Nem os diretores nem Bernanke parecem ter certeza sobre o que estão fazendo. No meio de tantas divergências, o próprio Bernanke parece perder destaque e os outros diretores surgem como “quase” presidentes, ainda mais num momento de transição como o atual. Os “Hawks” do FED acham que já passou o prazo para retirada de estímulos. Os “Doves” querem prolongar. Além da fraqueza do mercado de trabalho nos EUA medida por taxa de participação das pessoas na força de trabalho começa agora a preocupar a dinâmica do mercado de residências. Apesar da forte alta recente de preços e da melhora em termos de construção de novas casas, a permissão para construção de novas casas e o início de novas construções ficou abaixo do esperado nas ultimas coletas de dados; consequência da subida recente das taxas de juros das hipotecas?

Em perspectiva histórica o número atual de construção de novas residências deixa ainda muito a desejar e o mercado de construção encontra-se numa situação curiosa:  vendas de casas no maior nível dos últimos 3 anos e o pedido de novas hipotecas despencando para o pior nível dos últimos 3 anos. O mergulho dos pedidos para novas hipotecas começou em Junho desse ano quando a mudança de discurso do FED quanto a estímulos jogou as taxas longas de juros lá para cima. O juro do título de 10 anos do governo americano dobrou e as taxas de juros em hipotecas longas subiram de 3,5% ao ano para 4,5%. A mudança de retórica do FED foi altamente contracionista em termos de política monetária e a recuperação do mercado imobiliário está sob ameaça agora. As vendas de casas continuam altas pois o efeito da enorme queda dos pedidos de hipotecas não chegou ainda na ponta vendedora. O mercado de casas deverá se desaquecer nos próximos meses, tendo possivelmente já afetado a decisão do FED quanto à retirada dos estímulos.

Certamente o FED está levando em consideração essas “novidades” em relação aos dados do mercado de trabalho e imobiliário. Nossos juros longos, câmbio e Bolsa dependem dessa decisão por enquanto. O choque de juros involuntário produzido por lá acabou colocando nossa taxa de câmbio na casa dos R$2.30, juros longos no patamar de 12% e Bovespa abaixo dos 50.000. O recuo recente da taxa do título de 10 anos nos EUA para 2,6% contribuiu bastante para aliviar o cenário no Brasil. Apesar dos temores com o teto da dívida agora o que deve mesmo definir o cenário para o final de 2013 serão as reuniões do FED de Outubro e Dezembro, além da escolha do novo presidente. Se os “Doves” continuarem no comando e o choque de juros ficar para depois, poderemos ter um cenário um pouco melhor por aqui.

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