Construindo complexidade: uma nova maneira de encarar o processo de desenvolvimento econômico

O ultimo livro de Cesar Hidalgo, físico e professor do MIT, é leitura obrigatória para entender a riqueza e pobreza das nações. O desenvolvimento econômico surge no livro como a capacidade de criação de uma rede produtiva sofisticada. Para Hidalgo, países ricos são aqueles com alta capacidade computacional para processar informação e gerar produtos em uma intrincada rede produtiva. Um economia pobre seria hoje o equivalente a um Atari, uma economia rica a um super-computador. Trata-se, obviamente, de entender a riqueza e pobreza das nações a partir da ótica de domínio de conhecimento e tecnologia como já faziam os economistas clássicos do desenvolvimento, mas agora numa roupagem mais atual e com ampla sustentação empírica a partir da utilização de enormes bancos de dados.

Os principais insights do livro estão baseados nos trabalhos feitos em conjunto com R. Hausmann no Atlas da Complexidade Econômica de 2011 (uma parceria entre o Media Lab do MIT e a Kennedy School de Harvard (http://atlas.media.mit.edu/). A metodologia criada para medir a complexidade econômica de uma economia ou sua “capacidade computacional”, nos termos de Hidalgo, culminou num atlas que reúne extenso material sobre uma infinidade de produtos e países ao longo das 5 últimas décadas (772 produtos e 144 países em 2012). 

Como medir a “complexidade econômica”  ou “capacidade computacional” de uma economia? Hildalgo criou um método de extraordinária simplicidade e comparabilidade entre países. A partir da analise da pauta exportadora de uma determinada economia o autor é capaz de medir de forma indireta a sofisticação tecnológica de seu tecido produtivo. Os dois conceitos básicos para se medir se um país é complexo economicamente ou sofisticado são a ubiquidade e diversidade de produtos encontrados na sua pauta exportadora. Se uma determinada economia é capaz de produzir bens não ubíquos, há indicação de que tem um sofisticado tecido produtivo.

Claro que há um problema aqui de escassez relativa, especialmente de produtos naturais como diamantes e urânio, por exemplo. Os bens não ubíquos devem ser divididos entre aqueles que têm alto conteúdo tecnológico e, portanto, são de difícil produção (aviões por exemplo) e aqueles que são altamente escassos na natureza (nióbio por exemplo) e, portanto, tem uma não ubiquidade natural. Para controlar esse problema de recursos naturais escassos na medição de complexidade Hidalgo usa uma técnica engenhosa: compara a ubiquidade do produto feito num determinado país com a diversidade de produtos que esse país é capaz de exportar. Por exemplo: Botsuana e Serra Leoa produzem e exportam algo raro e, portanto, não ubíquo: diamantes brutos. Por outro lado têm uma pauta exportadora extremamente limitada e não diversificada. Temos aqui então casos de não ubiquidade sem complexidade.

No extremo oposto estão, por exemplo, produtos como equipamentos médicos de processamento de imagem, algo que praticamente só Japão, Alemanha e Estados Unidos conseguem fabricar; certamente produtos não ubíquos. Só que nesse caso as pautas de exportação de Japão, EUA e Alemanha são extremamente diversificadas, indicando que esses países são altamente capazes de fazer várias coisas. Ou seja, não ubiquidade com diversidade significa “complexidade econômica”. Por outro lado, um país que tenha uma pauta muito diversificada, mas com bens ubíquos (peixes, tecidos, carnes, minérios, etc…) não apresenta grande complexidade econômica; o pais faz o que todos fazem. Diversidade com ubiquidade significa falta de complexidade econômica.

O truque do autor nessas medidas de complexidade é usar a diversidade para controlar a ubiquidade e vice versa. Nessa linha de raciocínio Hidalgo segue classificando diversos países e chega a correlações impressionantes entre níveis de renda per capita e complexidade econômica; esse indicador pode ser tomado como uma proxy do desenvolvimento econômica relativo entre países. Não à toa Japão, Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido e Suécia estão sempre entres os países mais sofisticados do mundo nos últimos 10 anos. O desenvolvimento econômico pode ser tratado nessa perspectiva como o domínio de técnicas de produção mais sofisticadas que em geral levam a produção de maior valor adicionado por trabalhador; como diria a tradição estruturalista em economia.

As relações feitas por Hidalgo no livro entre capital humano, capital social e redes de conhecimento produtivo dentro dessa nova perspectiva são particularmente precisas. A questão do capital humano surge de uma maneira muito mais rica no livro. Hidalgo argumenta que a educação produtiva relevante do país é um conhecimento tácito que está nas empresas e nas atividades e, portanto, não se aprende na escola. É uma questão de “on the job experience” embutida nas redes de produção e empresas existentes nos países. Se não existe o parque produtivo onde as pessoas possam buscar esses conhecimentos fica difícil aprender as habilidades uteis para gerar produtos complexos; esse tipo de conhecimento não e ensinado na escola nem na faculdade.

Os insights de economias de rede são também chave para entender o ponto principal de Hidalgo. A criação de produtos complexos requer grandes redes, com ampla integração entre firmas. Os exemplos clássicos aqui são automóveis e aviões que necessitam de uma infinidade de fornecedores e produtores integrados ao processo produtivo. Produtos de baixa sofisticação e complexidade não demandam redes desse tipo. Essa segmentação entre produtos sofisticados integrados em rede versos produtos de baixa sofisticação e isolados aparece claramente nos resultados empíricos do atlas. Commodities e extrativismos em geral não estão inseridos em redes e tendem a ser produzidos em países pobres da África e América Latina. Produtos industriais sofisticados e integrados em rede são feitos no leste asiático, Europa e EUA. Tecidos produtivos complexos tendem a ser construídos em torno de bens industriais ou processamento de commodities. Seguindo W. Leontief, Hidalgo destaca que a análise desagregada por tipos de produtos feitos em cada país é fundamental para entender a dinâmica de formação dessas redes e por consequência do próprio processo de desenvolvimento econômico.

O livro como um todo apresenta uma perspectiva muito interessante, já conhecida ha tempos pelos economistas estruturalistas, mas que certamente ganha novo fôlego com os trabalhos empíricos de Cesar Hidalgo, R. Hausmann e equipe no Atlas da Complexidade Econômica. Um pais desenvolvido nada mais e’ do que um pais que tem uma sofisticada rede produtiva. A chave para o desenvolvimento econômico esta na capacidade de produzir bens e serviços complexos e sofisticados. Como fazer isso? Essa e uma longa e velha discussão entre economistas estruturalistas e seus críticos mais liberais.

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58 thoughts on “Construindo complexidade: uma nova maneira de encarar o processo de desenvolvimento econômico”

  1. Muito interessante. Uma série de questões podem ser levantadas a partir dessa abordagem, por exemplo, como se articulam sofisticação produtiva e sofisticação institucional, e automaticamente, como medir e ampliar a sofisticação institucional, aceitando-se como válida a hipótese de que ela seria a base da complexidade produtiva.

  2. Sim, concordo em parte, porem como falei, seria preciso um critério objetivo para mensurar a sofisticação institucional, assim como foi possível fazer com a complexidade produtiva. Que peso teriam a tradição cultural, sofisticação das elites, capital social e outros fatores nesse cálculo da sofisticação institucional?

    Digo isso pois me identifico com as abordagens institucionalistas, acho-as um complemento importante em grande parte da análise sobre desenvolvimento econômico.

    Porém não conheço o tema em profundidade para avaliar se já existe um consenso em torno de indicadores de complexidade institucional

      1. Obrigado pelo link. Mas, concordo, deixa a desejar. Eles usam um conceito de desenvolvimento institucional de matriz neo-clássica, então acham que Banco Central “independente” é indicador de boa qualidade institucional…

          1. Uma institucionalidade capaz de dizer não a influencias institucionais produzidas por sociedades mais complexas certamente é uma institucionalidade forte. Pensemos no PC chinês por exemplo, e no arsenal de conhecimento tácito embutido em suas estruturas, forjadas por revoluções, guerras, e fortíssimas pressões externas e internas ao longo de décadas. É um pilar institucional importantíssimo e impossivel de ser compreendido a partir da visão estreita dos modelos usados pelo Banco Mundial.

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