Como a Coreia superou a armadilha da renda média? Explicação a partir da ótica das redes e complexidade econômica

Num primeiro passo o sistema produtivo coreano superou a especialização em produtos de baixa complexidade e se diversificou: sua rede produtiva perdeu densidade em produtos simples e ganhou densidade em produtos mais sofisticados. Depois dos 90 conseguiu dar o salto e se especializar em produtos mais sofisticados, aumentando a densidade desse tipo de produto em sua rede produtiva. Fácil de explicar usando a perspectiva da complexidade (paper mind blowing de Cesar Hidalgo et al aqui!). Muito difícil de se executar na pratica das políticas públicas! (Boa leitura sobre o tema: (Livro sobre o tema, Tese sobre o tema)

Os mapas abaixo retirados do Atlas da Complexidade Econômica mostra o espaço produtivo da Coreia no contexto do comércio internacional de 750 produtos, cada bolinha representa um produto negociado no mercado mundial. As cores representam categorias de produtos, sendo os mais sofisticados as máquinas e equipamentos na cor azul no centro e quimicos na cor rosa. No cinturão externo estão as commodities agrícolas, minerais e energéticas, calcados e texteis em verde a direita. Os produtos altamente complexos estão no centro da rede e os de baixa complexidade estão na periferia. Os países ricos produzem e exportam os produtos do centro da rede, os países pobres produzem e exportam os produtos da periferia da rede; como diria a CEPAL. O core da produtividade de um pais está nessas atividades “complexas” produzidas em rede. O restante são commodites e serviços não sofisticados. Os serviços sofisticados dependem das atividades complexas. Produtos de baixa sofisticação e complexidade não demandam redes produtivas sofisticadas.

Essa segmentação entre produtos sofisticados integrados em rede versus produtos de baixa sofisticação e isolados aparece claramente nos resultados empíricos do atlas da complexidade econômica e nas antigas discussões de economistas clássicos do desenvolvimento. Commodities e extrativismos em geral não estão inseridos em redes e tendem a ser produzidos em países pobres da África e América Latina. Produtos industriais sofisticados e integrados em rede são feitos no leste asiático, Europa e EUA. Tecidos produtivos complexos tendem a ser construídos em torno de bens industriais ou processamento de commodities. A história das nações mostra que quem dominou o core dessas atividades produtivas ficou rico, isso é especialmente verdadeiro para EUA, Japão e Inglaterra. Muitos tentaram, alguns conseguiram. O leste da Ásia conseguiu. O leste da Europa também esta conseguindo. África e América Latina tentaram mas não conseguiram.

2 thoughts on “Como a Coreia superou a armadilha da renda média? Explicação a partir da ótica das redes e complexidade econômica”

  1. Correndo o risco do simplismo, sugiro que parte importante da explicação está nas diferenças de qualidade e visão estratégica das elites dirigentes coreanas e brasileiras. No país asiático, houve uma opção clara por um projeto nacional de desenvolvimento baseado na industrialização, educação e incentivos à inovação, que foi seguido com rigor. Por aqui, da década de 1980 em diante, o conceito de projeto nacional virou motivo de deboche (principalmente, nos meios financeiros), visão estratégica tornou-se artigo raro e as nossas elites dirigentes parecem ter feito uma opção preferencial pela hegemonia rentista, a partir da década de 1990. Superar tais obstáculos exigirá um processo de conscientização inusitado entre nós. Mas receba os meus cumprimentos pelos excelentes e elucidativos textos, que acompanho com o maior interesse.

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