Uma breve historia do Euro: 2000-2015

Há muito tempo atrás havia na Europa uma periferia pobre, composta basicamente de Portugal, Espanha, sul da Itália e Grécia e um centro rico, Alemanha, Bélgica, França Holanda e norte da Itália. Os ricos do norte resolveram ajudar os pobres do sul, também visando o auto-interesse, claro. A idéia era a seguinte: integrar os pobres do sul criando uma fronteira de investimentos importante para os capitais do norte. A Inglaterra assistiu de camarote. O mercado consumidor dos PIGS poderia representar e representou uma fonte de lucros e expansão para os capitais do norte. Para transformar esses tais PIGS em consumidores de fato alguns truques foram necessários. Primeiro dar-lhes uma moeda estável, com credibilidade e juros baixos. A adesão ao EURO significou uma brutal queda na taxa de juros desses países. Daí para bolha de consumo e bolha imobiliária foi um passo.

Os consumidores portugueses, gregos e espanhóis se atiraram às compras. O setor imobiliário voou. A costa do sol espanhola nunca tinha visto tanta construção desde a invasão dos mouros no ano 700 depois de cristo. O boom imobiliário da costa mediterrânea passou a rivalizar com o boom de Córdoba no século X, a cidade mais importante da Europa. Enquanto os espanhóis mantiveram suas contas públicas sob relativo controle, os portugueses e gregos se especializaram em tomar dívida pública também. Na Grécia as Olimpíadas, em Portugal a Expo 98 e a Eurocopa. A festa foi bonita. Tudo isso gerou muito dinamismo para a Europa como um todo, que voltou a crescer no período 1990-2006 e para os PIGS em especial que tiveram sua renda per capita dobrada. A convergência para o Euro foi espetacular. Juros caindo, credito dobrando, renda per capita dobrando, PIB crescendo. Ou não foi?

A Irlanda, o tigre celta, seguiu um caminho parecido. Aproveitou a proximidade com a Inglaterra e virou um gateway barato para o mundo anglo-saxão. Juro baixo, mão de obra barata e crédito farto também estavam presentes na festa irlandesa. Assim como os espanhóis, mantiveram o gasto público sob controle. O endividamento que explodiu mesmo foi o privado. Depois da crise, a coisa mudou, claro. Os governos espanhol e irlandês começaram a fazer gasto público para tentar segurar a demanda agregada e o PIB. Não deu. A arrecadação minguou e o déficit publico explodiu. Em 2010 a Irlanda fechou suas contas com um déficit público de mais de 30% do PIB! E na Espanha a dívida pública e privada soma hoje 270% do PIB! Para não dizer das taxas de câmbio reais que estão todas desalinhadas.

E como estamos hoje? Passada a euforia de renda per capita dobrada, explosão imobiliária e de infra-estrutura ficaram as contas para pagar. O setor privado e público dos PIGS está ultra-endividado e a economia estagnada. Só que onde não há produção e renda, não dá para pagar as contas. Então ficamos assim, o desemprego aumenta, a produção pára e a renda fica estagnada. E segundo os keynesianos o governo deveria entrar em cena para tentar reativar a economia, fazendo especialmente investimento público. Só que os governos dos PIGS não podem mais fazer política econômica. Abriram mão da política cambial (não tem mais moeda), não podem fazer política fiscal, estão endividados até o último fio de cabelo e a política monetária é do banco central europeu.

Aliás, inventaram uma situação bizarra onde há integração monetária mas não há integração fiscal. Se uma “unidade da federação” quebra, os outros membros não querem socorrer.  Como analisou recentemente Paul Krugman, seria uma situação de quebra hipotética de um estado americano (Califórnia, Texas?) em que o governo central se recusa a socorrer. Imagine a situação do Texas sendo expulso da federação americana por que se endividou demais (setor publico e privado) e agora não tem como pagar.  Na Europa pode acontecer isso. Se os alemães e holandeses se cansarem vão mesmo é expulsar os gregos, portugueses e irlandeses da zona do EURO. O problema aí será o efeito dominó chegar nas super-endividadas Espanha e Itália. Faz sentido uma zona do Euro sem esses países?

Moral da história: a integração do EURO deu certo de 1990 até 2008. Tem dado errado a partir de então. Como fica o futuro? Existem duas opções bem claras: i)o norte rico da Europa socorre os primos pobres do sul que fizeram uma mega festa e deram muito lucro. Nessa opção, o BCE continua comprando divida dos PIGS e o mercado de capitais europeu vai reciclando lentamente essas dívidas. È uma opção lenta, bem lenta. Nesse esquema os PIGS ficam estagnados por mais uma meia dúzia de anos até que sues preços caiam e as dívidas diminuam. Uma espécie de deflação e reestruturação penosa de dívidas assistida pelo norte. Desemprego nas alturas e taxas de crescimento anêmicas.

Opção ii) saída dos PIGS da zona do EURO para posterior regresso. Nesse caso as moedas de Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda seriam desvalorizadas e os governos recuperariam a capacidade de fazer política econômica. Também seria uma saída traumática pois haveria um problema gigantesco de reconversão de dividas em euro para as moedas locais. Mas, resolvido o problema estático, essas economias recuperariam a capacidade dinâmica de gerar renda, produção e emprego. Na opção i) evita-se o problema estático da reconversão de dívidas mas as economias dos PIGS ficam travadas dinamicamente. Não há solução fácil para curar essa mega-ressaca.

ver Duas Europas (Norte e Sul) e PIGS sem moeda, Heiner Flassbeck_Sao Paolo_Ago_2017

 

 

 

13 thoughts on “Uma breve historia do Euro: 2000-2015”

  1. E a classe empreendedora dos PIIGS que transformariam parte relevante desse dinheiro em produção? Parece que quando chegou o dinheiro do norte para o sul, já tinham migrado há anos e décadas para outros países que os acolheram e reconheceram melhor sua importância… Quando chegou o dinheiro ao governo desses países do sul, o destino nem tinha como ser outro, virou não produção.

  2. Professor, me parece que as manifestacoes populares estao apenas no inicio pois nao se sentiu ainda integralmente o aperto fiscal, e o alto indice de desemprego principalmente entre os jovens podem exaltar o sentimento nacionalista nao deixando muita saida politica para os respectivos governos a nao ser deixar o Euro. Uma volta posterior acredito que seria muito improvavel. haveria uma rejeicao popular intensa pois remeteria a lembtanca desses momentos dificieis dentro de um cenario de recuperacao da renda. Uma terceira moeda para os PIIGS pode ser a solucao? Acho que independente da melhor solucao tecnica, pode prevalecer a “melhor” solucao politica.

  3. Desespero total! Vou viajar em junho para Amsterdam e Paris e esse Euro que não para de subir? Será que vai baixar um pouco até lá?

    Existe essa possibilidade ou arrisco e compro agora, mesmo com esse valor absurdo?

  4. Só o Sudeste da França e a Île-de-France são ricos

    O restante do país é pobre

    A parte rica da Europa vai do norte da Itália, passa pela Áustria e Sudeste da França, atravessa a Alemanha quase toda, chega ao Sul da Inglaterra e à Irlanda. Também entram aí os países escandinavos cuja população, juntando tudo, não dá 20 milhões de habitantes. Holanda também é rica
    Bélgica só Flanders é rica. A Wallonia é pobre

    A Europa é basicamente como qualquer país do mundo (já considero a região do Euro praticamente um país): tem um centro industrial e financeiro rico e o restante pobre vivendo de benefícios sociais parcos.

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