Dissolução de uma zona monetária

Como seria uma saída de Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda da zona monetária? Traumática. Imagine que você é um investidor com recursos líquidos (CDBs, títulos públicos, títulos privados) hoje em algum desses quatro países. Seu dinheiro está estacionado em algum banco português, espanhol ou irlandês ou ainda em títulos públicos desses governos fanfarrões. E existe um risco considerável de quebra de padrão monetário, ou seja, você vai dormir com euros e acorda com Escudos e Pesetas!! O que você faria hoje, com a escalada de tensão no mercado mundial? Sacava tudo e mandava para outro país! Alemanha, EUA, América Latina. Eis aí uma corrida bancária acompanhada de fuga de capitais.

Nos momentos de desespero, como nos ensinava o velho Keynes, os agentes correm desesperadamente para ativos líquidos. Ouro, moedas fortes, etc… Se o euro persistir numa crise dessas, o que parece mais provável, será também um repositório natural das riquezas de portugueses, espanhóis, gregos e irlandeses, contando que esses recursos fiquem na Alemanha, é claro! Uma situação extrema como essas poderia acontecer? Poderia. Os europeus estão brincando com coisa séria. Depois que a corrida bancária e a fuga de capitais são desencadeadas fica muito difícil segurar. Lembremo-nos dos casos de México, Brasil Argentina por aqui nos 90. Aliás, o caso argentino é bem ilustrativo. Quando os argentinos descobriram que 1 peso não era igual a 1 dólar correram para o banco para tentar sacar os dólares. Só que obviamente não havia uma quantidade de dólares suficientes para honrar todos os pesos existentes na economia argentina, criados via crédito. Corralito! Todos entraram no curral tentando converter seus pesos em dólar! No final das contas viram que um peso valia mesmo era 0,33c de dólar! No caso europeu a situação é mais complexa pois as moedas antigas foram abolidas de fato. E os BCs nacionais não podem mais emitir para socorrer uma corrida bancária. Quem socorre então!? O Banco Central Europeu.

Se o Banco Central Europeu quiser estancar a crise de vez terá que embarcar o quanto antes num programa de afrouxamento monetário a la EUA e UK. Alias a recuperação nesses dois países será e tem sido bem mais rápida pois uma política monetária expansionista e uma desvalorização cambial ajudam demais nessa hora. Além daquele fundo enorme que os europeus fizeram teriam que vir a público agora e dizer: “Nós vamos emitir quanto for necessário para socorrer os PIGS. Ninguém vai quebrar pois o BCE comprará, usando moeda emitida, todos os títulos duvidosos que correm por aí”. Loucura? Foi exatamente o que o FED americano fez! E não bastassem os 2 trilhões de dólares que emitiram, estatizaram ainda varias companhias! E entraram no capital de todos grandes bancos americanos! Ah, mas a Europa conservadora não fará isso. Que sacrilégio!

Os austeros alemães, com sua tradição monetarista do Bundesbank vão agora emitir para financiar PIIGS fanfarrões!? Os cortes de salários, o sacrifício do povo alemão durante esses últimos quinze anos para que? Para financiar gregos, portugas e espanhóis gastadores? Veraneio na costa do sol? Porre de vinho do porto? Olimpíadas em Atenas? Eles que se virem para curar essa ressaca e pagar as contas. A Europa rica do norte vai estender a mão aos pobres do sul? Não? Até porque a zona do euro pode continuar sem eles. A Europa do leste poderia entrar, formando uma nova periferia para investimentos. Os PIIGS mesmo poderiam voltar depois com câmbios mais desvalorizados a se reintegrar na zona do euro. Qual será o desdobramento dessa zona?