Doença holandesa definida como perda de complexidade econômica (ECI)

O gráfico acima mostra os principais produtos de exportação para 102 países no mundo em 2013; porcentagem da pauta (%) no eixo Y, complexidade econômica (ECI) do pais no eixo X e ao lado do pais o nome do principal produto. Países ricos exportam bem complexos e tem uma pauta exportadora bastante diversificado, países pobres exportam commodities (bens nao complexos) e tem uma pauta de exportação extremamente concentrada. Os países com doença holandesa correm em uma reta paralela acima, sendo que desses o grande exemplo de superação e’ a Noruega. Colômbia e Rússia conseguiram também alguma sofisticação produtiva além do petróleo, mas seguem ainda com baixa complexidade.
paper aqui com o gráfico

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Muito se discutiu no Brasil sobre a possível existência de doença holandesa nos últimos 10 anos. Na Holanda a descoberta do gigantesco campo de gás de Groningen (maior da Europa) no final dos ano 60 teria trazido problemas para o setor manufatureiro holandês, atrapalhando a dinâmica de crescimento segundo ampla literatura econômica sobre o tema que se desenvolveu nos 70 e 80. A revista inglesa The Economist inventou o termo no final dos anos 70. Aqui no Brasil o professor Bresser-Pereira foi um dos precursores a chamar atenção para o problema e escreveu ampla e precisamente sobre suas causas e consequências. No Brasil se debatia ha época se nossas exportações de minério de ferro ou até mesmo soja poderiam criar dinâmicas do tipo “doença holandesa” ou se as descobertas do petróleo do pré sal seriam ameaças importantes nesse sentido.

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Os argumentos teóricos que explicam os canais pelos quais a “Dutch Disease” pode afetar uma economia se relacionam primordialmente ao encolhimento do setor de bens comercializáveis não commodities. A apreciação cambial decorrente da exportação dos recursos naturais com base em rendas econômicas dificulta ou, no limite, torna impossível a produção de bens comercializáveis agrícolas e, especialmente, manufaturados que teriam maior potencial de inovações tecnológicas, economias de escala e ganhos de produtividade. O setor de recursos naturais ocupa o espaço da produção agrícola e de manufaturas num processo de “crowding out”. Capital e trabalho são deslocados para a extração de recursos naturais e produção de não comercializáveis. A indústria do país volta-se para dentro, especializando-se na produção de bens não comercializáveis que apresentam maior rentabilidade por conta da apreciação cambial. Dependendo da intensidade do processo, a economia se torna excessivamente “inward-looking”, o que também acaba prejudicando seu nível de eficiência devido à ausência da competição que seria encontrada no mercado mundial.

Do ponto de visita empírico nunca foi fácil determinar se um país sofre ou já sofreu de doença holandesa. Um grande avanço recente nesse sentido foi a construção do Atlas da Complexidade Econômica (Hausmann e Hidalgo 2011) que reúne um imenso banco de dados (Big Data) para 120 países e mais de 4.000 produtos do comercio mundial praticado nos últimos 50 anos. A partir das medidas de complexidade usadas pelo Atlas e’ possível definir em termos empíricos de forma mais precisa o que e’ a Doença Holandesa: perda de complexidade econômica. Os dois conceitos básicos para se medir se um país é complexo economicamente são a ubiquidade e diversidade de produtos encontrados na sua pauta exportadora. Se uma determinada economia é capaz de produzir bens não ubíquos, raros e complexos, há indicação de que tem um sofisticado tecido produtivo. Claro que há um problema aqui de escassez relativa, especialmente de produtos naturais como diamantes e urânio, por exemplo. Os bens não ubíquos devem ser divididos entre aqueles que têm alto conteúdo tecnológico e, portanto, são de difícil produção (aviões) e aqueles que são altamente escassos na natureza, por exemplo, o nióbio, e, portanto, tem uma não ubiquidade natural.

Para controlar esse problema de recursos naturais escassos na medição de complexidade os autores do atlas usam uma técnica engenhosa: comparam a ubiquidade do produto feito num determinado país com a diversidade de produtos que esse país é capaz de exportar. Se há’ não ubiquidade com diversidade o pais e’ considerado complexo. E aqui entra a questão da doença holandesa: os produtos geradores de doença holandesa, por exemplo petróleo e gás, são justamente os produtos menos sofisticados do banco de dados da complexidade. No ranking geral de complexidade as commodities brutas em geral estão sempre no final da lista. Ou seja, sempre que as exportações de um pais começam a se concentrar em recursos naturais brutos (petróleo, gás, minério de ferro, metais em geral) há perda de complexidade.

A vantagem de se utilizar o índice de complexidade (ECI) para se medir doença holandesa e’ a comparabilidade e disponibilidade de dados para os últimos 50 anos. Pode se observar por exemplo o que ocorreu no Holanda. O que tem ocorrido no Brasil dos últimos 10 anos e os casos clássicos de doença holandesa analisados na literatura sobre o tema. Gelb (1988), por exemplo, discute o caso de países que teriam sofrido desse mal nos anos 80 devido às altas reservas de petróleo. Analisa os resultados do choque do petróleo para seis economias com abundância desse recurso: Indonésia, Algéria, Equador, Nigéria, Trinidad e Tobago e Venezuela. O autor constrói um índice capaz de medir os efeitos da “Dutch Disease” em cada uma dessas economias a partir da evolução de seus setores de bens comercializáveis não vinculados ao petróleo após os choques e conclui que Nigéria e Trinidad Tobago apresentam os piores resultados com uma elevada apreciação cambial no período 1974-1978 até 1984. Algéria, Venezuela, Indonésia e Equador têm resultados melhores. Os três primeiros países teriam conseguido manter o setor de bens comercializáveis não ligado a petróleo razoavelmente intacto no período, apesar de que na Algéria e Venezuela a representatividade deste tenha sido sempre muito pequena. O destaque da amostra fica com a Indonésia que conseguiu, via desvalorizações cambiais, manter o dinamismo de seu setor de comercializáveis não petrolífero. Pela ótica dos índices de complexidade fica bem mais fácil observar e medir casos de doença holandesa ao redor do mundo. Segundo esse índice o Brasil sofre mesmo do problema.

bom texto do Rodrik a respeitobom vídeo sobre o tema com Hausmannmeu paper sobre o tema

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Referências

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