Dolce far niente

Ainda sobre o desenho do Euro (ou do neuro, como diriam alguns hoje) vale a pena dar uma olhada no que tem dito a turma do Gavekal. Numa analise de 2002 ainda, se não me engano, eles argumentavam que a moeda única na Europa causaria uma distorção enorme no continente com excesso de indústrias na Alemanha, excesso de casas na Espanha e excesso de funcionários públicos na França, Itália e Grécia. Parece que acertaram! Depois da entrada no Euro os países do PIG desaceleraram seu ritmo de produção e deixaram essa tarefa para os alemães que gostam mais de trabalhar. O primeiro gráfico abaixo mostra a impressionante divergência de produção industrial na Alemanha e Itália depois da entrada no Euro. Fenômeno parecido aconteceu com Portugal, Grécia e até mesmo França. Que se endividaram mais, consumiram mais e produziram menos.

Da para salvar o neuro ainda? Acho que dá. Falta usar o último tiro de bazooka. Um programa de quantitative easing a la FED com ampla emissão monetária capaz de zerar as taxas de juros de curto prazo, inclusive dos PIGS. Se é verdade que os EUA praticamente esgotaram seu cartucho monetário a Europa tem muito caminho ainda a percorrer nesse front. Isso é uma boa notícia, se eles entenderem, claro, e souberem aproveitar. Se cair a ficha dos alemães que uma Europa falida significa também uma Alemanha com problemas. Hoje a Alemanha depende do resto da Europa em termos de fluxos e estoques. Boa parte de seus ativos (1 trilhão de euros mais ou menos) são passivos de PIGS e França e sua produção industrial depende também das compras do continente. O segundo gráfico mostra que as coisas não andam nada bem na Alemanha hoje. E o terceiro gráfico mostra que hoje 10% do PIB alemão já vai diretamente para esses países. A solução da questão européia passa necessariamente pela resolução da dúvida alemã. To be or not to be.

 

 

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