Economia política da crise na Europa

                  

Passada a euforia de renda per capita dobrada nos PIGS, explosão imobiliária e de infra-estrutura ficaram as contas para pagar. Os setores privado e público dos PIGS estão  ultra-endividados e a economia estagnada. Onde não há produção e renda não dá para pagar as contas. O desemprego aumenta, a produção pára e a renda fica estagnada. Segundo os keynesianos, o governo deveria entrar em cena para tentar reativar a economia, fazendo especialmente investimento público. Só que os governos dos PIGS não podem mais fazer política econômica. Não podem fazer gasto público e abriram mão da política cambial (não tem mais moeda), estão endividados até o último fio de cabelo e a política monetária é do banco central europeu.

Numa união monetária sem integração fiscal não há socorro do governo central. Se uma “unidade da federação” quebra, os outros membros não querem socorrer. A economia política da situação fica extremamente complexa. Pode ocorrer uma quebradeira por fadiga. Se os alemães, franceses e holandeses se cansarem vão mesmo é expulsar os gregos, portugueses e irlandeses da zona do EURO. O problema aí será o efeito dominó chegar nas super-endividadas Espanha e Itália. Existem vários nós políticos. Dentro de cada país europeu corre uma briga sobre que rumos tomar para sair da crise, mais a direita ou mais a esquerda. Mais keynesiana mantendo juros e gasto publico ou mais liberal fazendo já o ajuste fiscal e no limite subindo os juros. Só que alem desse conflito sobre o que fazer dentro de cada país há um enorme conflito em relação ao que fazer com os PIGS. São conflitos sobrepostos.

Para dar um exemplo: em Portugal tem a turma do fora FMI que rechaça qualquer acordo com o fundo que envolva mega cortes fiscais. Tem a turma do ajuste também. Na Alemanha o mesmo. Só que os eleitores alemães têm que votar também sobre o que deve ser feito em Portugal. Pois seus impostos vão para lá. São contrários a financiar o gasto perdulário na terrinha. O governo de plantão fica numa tremenda corda bamba. O de Portugal devido aos cortes e pedidos de ajuda e o alemão sob fogo cerrado de seus eleitores que exigem austeridade nos PIGS. O mesmo se aplica para França, Grécia e Irlanda. É um imbróglio político sem tamanho. Com quedas de governos a todo momento. Tanto nos europeus ricos quanto pobres. E isso gera uma tremenda instabilidade.

Agora para complicar ainda mais. Quem são os principais detentores da dívida grega? Os banco alemães. Quem são os principais financiadores da zona do euro? Os alemães! Olha que curioso: o governo alemão empresta dinheiro para os gregos não quebrarem e pagarem os bancos alemães! Então na verdade o dinheiro dos superávits da Alemanha são reciclados pela Europa e volta para lá. Os banqueiros alemães estão bem bravos com essa idéia de reestruturação da dívida. Só que o povo alemão também já não agüenta mais financiar os portugueses, irlandeses e gregos!

A integração do EURO deu certo de 1990 até 2008. Tem dado errado a partir de então. Como fica o futuro diante dessas brigas? Nos últimos anos o norte rico da Europa tem socorrido os primos pobres do sul. O BCE tem comprado dívida dos PIGS para que o calote não seja assumido de fato. Não fosse o BCE, Grécia, Irlanda e Portugal teriam já deixado de pagar as contas. Só que o mandato do BCE para comprar títulos podres não é infinito. Numa economia em crise é praticamente impossível equacionar a situação fiscal. O futuro para a Europa não é nada bom. As eleições desse domingo foram só uma pequena amostra do que se repetirá por anos ainda. Estagnação econômica e queda frequente de governos.

4 thoughts on “Economia política da crise na Europa”

  1. Parabens pelo texto Paulo!

    Estive recentemente na Alemanha e é fato o descontentamento da população em continuar a sustentar os gregos. Mas como foi descrito no seu texto, tudo não passa de um circulo de dependência.
    Tecnicamente como seria um eventual processo de exclusão dos gregos da zona do euro??

    Obrigado e parabens.

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