Euro: empurrando com a barriga

Qual o receituário que fundamenta o que está sendo feito na Grécia, Portugal, Espanha e Itália? Basicamente um ajustamento do tipo padrão ouro. O ajuste recessivo deflacionário. O corte de gastos públicos vai mergulhando a economia na recessão e aumentando o desemprego. A estagnação econômica começa a provocar queda lenta e gradual dos preços e salários. Depois de muitos anos em crise esses países podem talvez retomar sua competitividade internacional fazendo com que o PIB volte a crescer. As taxas de juros internas sobem muito agravando a recessão.

Uma questão delicada nesse tipo de ajustamento é a dinâmica das contas do governo. Como o PIB cai, a arrecadação despenca. De modo que as contas públicas vão piorando. Os cortes de gasto devem acompanhar essa queda de receitas para tentar manter o orçamento equilibrado. Vimos muito isso aqui no Brasil nos anos 90. Se a economia afundar demais, a queda da arrecadação mais do que compensa o corte de gastos e a divida e o déficit do governo aumentam. Exemplo disso é a Grécia de hoje com queda do PIB projetado em 6% para 2012. Durante todo o processo de ajustamento a Europa terá então que continuar a ajudar Portugal, Grécia e Espanha para que não haja calote desses governos. O processo pode durar muitos anos mesmo.

Uma alternativa à desvalorização do câmbio real como a que se pratica nos PIGS hoje tem sido usada pelos EUA e Inglaterra. Desvalorização nominal da moeda seguida de aumento do gasto público e redução da taxa de juros para tentar manter a atividade econômica. Nesse caso há uma tripla injeção de demanda na economia: exportação via câmbio mais competitivo, gasto público direto e algum consumo e investimento devido ao juro zero. Justamente o tipo de injeção de demanda que falta em Portugal, Grécia e Espanha. De onde virá a demanda nesses países? Então não é difícil perceber que mais para frente voltaremos a ter problemas com a dívida portuguesa, grega, espanhola e italiana. Daqui um ou dois anos mais recursos serão necessários para rolar as dívidas. Só que cada vez a bola de neve fica maior pois os juros dos devedores vão se acumulando. E la nave va.

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