FED com a palavra

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A última ata do banco central americano aponta para o encaminhamento do processo de redução de estímulos monetários. A ata mostra que a maioria dos membros do FOMC apoia o cronograma de Bernanke. Os diretores acham que o PIB do segundo semestre nos EUA vai melhorar e que os resultados do mercado de trabalho de Junho mostraram ganhos importantes. Alguns membros pediram paciência para a retirada dos estímulos, outros querem a retirada mais rápida. A primeira leitura dos mercados financeiros parece ter sido “pro-tapering”; o corte de estímulos virá. No atual ritmo de compras de 85 bilhões de dólares por mês o balanço de FED deve se aproximar de 4 trilhões de dólares no final do ano. Saindo de aproximadamente U$800 bilhões antes da crise, temos já um montante de dinheiro impresso que praticamente quintuplicou a base monetária americana. Por enquanto nenhum sinal de inflação; no preço de bens e serviços. Já nos ativos a história é outra. Bolsas nas máximas históricas por lá e preços das casas subindo ao ritmo pré-crise. O número de 4 trilhões é bastante simbólico e deverá provavelmente representar o teto de compra de ativos por parte do FED, especialmente no contexto de possível criação de bolhas em vários mercados de ativos.

A revisão do PIB nos EUA para o segundo trimestre marcou 2.5%, surpreendendo analistas. Houve uma alta de 0.8% pontos em relação à primeira prévia de 1.7%. Apesar da melhora do número a analise detalhada do resultado mostra que consumo e investimento foram revisados para baixo, sendo que toda surpresa positiva ficou com o aumento de exportações e redução de importações. As notícias para o terceiro trimestre não são tão boas, a não ser que esse crescimento “export-led” continue. As últimas notícias do mercado de residências mostram uma desaceleração na margem de vendas, provavelmente já respondendo a alta dos juros longos depois da mudança do discurso do FED. O quadro geral mostra uma economia americana se recuperando, mas sem muita consistência, especialmente no que diz respeito a investimento e consumo.

Mesmo assim o número é positivo e deve levar o Banco Central americano a reduzir os estímulos monetários já em Setembro e até mesmo interrompe-los completamente em 2014. Ainda mais se Larry Summers assumir a presidência nos próximos meses. Os juros longos americanos devem continuar sob pressão, mesmo com as tensões sobre um possível ataque a Síria. Em seu novo recorde recente de 2,9%, o juro do título de 10 anos dos EUA bateu o maior valor desde meados de 2011. A chegada do mês de Setembro tem desestabilizado o mercado de treasuries por lá e de juros e câmbio por aqui. Além de dizer se vão mesmo retirar os estímulos, em Setembro os diretores do FED terão que começar a divulgar suas projeções de juros para 2016, algo que começa a entrar no radar dos investidores. Até quando o juro de curto prazo ficará próximo de zero nos EUA?

No Brasil, apesar do excelente PIB do segundo trimestre, a confiança na economia passou por forte queda no terceiro trimestre de 2013. O índice de confiança da indústria (ICI) para Agosto divulgado pela FGV mostrou uma queda de 0,6% em comparação a Julho. O indicador já está no menor patamar desde 2009. Mais um dado ruim da safra de indicadores de Julho e Agosto no Brasil. Junto com a geração de empregos abaixo de 50 mil no mês de julho (CAGED) aponta para maior probabilidade de estagnação do produto no terceiro trimestre de 2013. Com SELIC a 9% o PIB brasileiro já está praticamente parando, o que significa dizer que não há grande necessidade de mais juros para controlar a inflação quando se olha para a atividade. Nosso IPCA vinha no topo da meta graças a três fatores: i) inércia da inflação de serviços dos últimos anos devido a incorporação de mais de 10 milhões de trabalhadores formais no mercado de trabalho; ii)choque em preços de alimentos no Brasil e nos EUA e iii)desvalorização da moeda brasileira. Daqui por diante a falta de demanda ficará mais clara e o nível de atividade deverá sofrer bastante colocando pressão baixista sobre os juros. A bolsa também deve sofrer graças à lucratividade menor das empresas. Resta ver onde o câmbio irá se acomodar com o plano anunciado pelo BC brasileiro.

Logo depois da quebra da Lehman Brothers em Setembro de 2008, nossa taxa de câmbio atingiu o patamar dos R$2,50 por dólar, numa impressionante escalada que partiu de 1,55 para, em poucos dias, superar os R$2,40. Foi a pior crise para o mundo desde 1929. Hoje, as vésperas da retirada dos estímulos do FED, e provável subida de juros de longo prazo por lá, a taxa de câmbio voltou a se aproximar dos R$2,50. Até onde vai nosso câmbio? Atingimos o topo já? Para tentar responder a essa pergunta vale a pena comparar alguns de nossos fundamentos de hoje com os de 2008. Estamos claramente piores em termos de déficit em conta corrente que deve chegar aos 80 bilhões de dólares; dívida bruta com aportes no BNDES que passaram dos R$200 bilhões e dívida externa que aumentou em mais de U$ 200 bilhões nos últimos anos. Estamos claramente melhores hoje em termos de nível de reservas, relação dívida/PIB líquida, desemprego menor e juros mais baixos. Nosso crescimento desacelerou de 5% para 2% e junto com as desonerações trouxe o superávit primário para 2% do PIB. De todos esses dados, o que preocupa mesmo hoje são nossas contas externas. A taxa de câmbio deve continuar pressionada.

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