Fôlego externo: até quando?

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A grande questão para a economia brasileira hoje é a nossa real capacidade de endividamento externo. Até quando poderemos financiar um déficit em conta corrente entre U$75 e U$80 bilhões? Nenhum governo fará o ajustamento necessário: a desvalorização do câmbio real. Esse ajuste é muito custoso em termos de inflação e os governos tendem a cair na tentação de usar o câmbio para segurar os preços. Na literatura econômica que trata de regimes cambiais esse tipo de comportamento é conhecido como “fear of floating” (medo da flutuação). Em geral os grandes ajustes no câmbio são feitos pelo mercado e não por ação deliberada do governo. No Brasil tivemos exemplo disso em Janeiro de 1999 e Outubro de 2002. Essa discussão é da maior relevância para nós no momento pois se o câmbio parar onde está, a inflação se estabiliza e os juros voltam a cair no futuro graças a baixa capacidade de crescimento do país na conjuntura atual.

O mês de Julho trouxe um resultado um pouco melhor de contas externas com o déficit em conta corrente caindo como proporção do PIB e sendo praticamente financiado por investimento direto externo. A taxa de câmbio continua relativamente estável por aqui pois: i)os fluxos de capitais continuam relevantes para Brasil e demais países emergentes, ii)os indicadores de solvência externa da economia brasileira são ainda melhores do que de seus pares, iii)o programa de Swaps do BC brasileiro continua irrigando o mercado futuro. Nenhuma dessas condições dura para sempre como sabemos. A manutenção de fluxos para cá causará uma deterioração dos indicadores de solvência – não podemos nos endividar para sempre. Os swaps também não são eternos; em algum momento o mercado passará a demandar dólares de verdade. Ao manter o câmbio abaixo dos R$2,30 o BC controla a inflação, mas impede um ajuste que seria saudável para nossas contas externas.

Os dois indicadores macro mais importantes para a solvência da economia brasileira continuam então em situação problemática: transações correntes e resultado primário do governo. Com queda continuada de termos de troca e apreciação cambial, nosso saldo em transações correntes continuará preocupante.  Além do enorme déficit na conta de serviços graças a remessas de lucros e juros e pagamentos por leasing de aeronaves, uso de satélites e plataformas de petróleo, temos um déficit crescente na balança comercial de manufaturados; mais de 100 bilhões de dólares em 2013. Enquanto o preço das commodities estava em alta, era possível financiar esse buraco vendendo matérias primas no mercado mundial. Agora não é mais. A balança comercial que já apresentou superávits de mais de 40 bilhões por ano está zerada. E o déficit de serviços tem que ser todo financiado por dívida de curto prazo ou longo prazo (IED). (ver Cambio e conta corrente e Tempestade perfeita no mundo emergente)

Apesar do alto déficit em conta corrente, o Brasil está atraindo fluxos de capital devido aos altos rendimentos dos títulos e retornos sobre investimentos na economia real. Os mercados de ações também estão se beneficiando com este movimento, mas não tão fortemente como os investimentos de renda fixa. É um perigoso “jogo” para o país no sentido de que mais dívida é contraída para financiar a lacuna de exportação/importação. Em algum momento no futuro a moeda terá que se desvalorizar para fechar esse GAP ou a produção de recursos naturais no país (petróleo do pré-sal?) terá que aumentar para compensar o aumento das importações e da dívida em dólar. Não conseguiremos financiar indefinidamente um déficit anual da ordem de U$ 80 bilhões.

 

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