Guerra de moedas no mundo

Nesse mundo de estagnação secular, todos países tentam desvalorizar sua moeda para gerar algum crescimento. Para entender a situação de guerra de moedas no mundo vale a pena voar rapidamente pela história do sistema financeiro internacional no século XX. Entramos 1900 com o padrão libra-ouro, onde basicamente os países aderentes só podiam imprimir base monetária contra lastro em ouro. País tem X de ouro, usa um câmbio fixo e emite o equivalente em moeda local. Se entram capitais, o governo emite mais e a base se expande. Se há fuga de capitais, ocorre o inverso. A vantagem de um sistema como esses (que a Argentina tentou usar nos anos 90) é que há uma âncora para a emissão monetária. Um governo sob o padrão ouro não pode emitir o quanto quiser. Bom assim foi o mundo até a primeira guerra mundial.
Com a necessidade de financiamento para a corrida armamentista, os governos apelaram para a emissão monetária e o padrão ouro caiu por terra. Cada um emitia agora o quanto quisesse e começou uma guerra cambial (1920 até 1930). A Inglaterra tenta restabelecer o padrão libra-ouro no final da primeira guerra achando que, com isso, recuperaria sua reputação no mundo. Já estava arrasada pela guerra e Churchill cometeu uma de suas maiores barbeiragens ao tentar fixar a paridade da libra com ouro no valor pré-guerra. Provocou uma sobrevalorização monumental da libra, que estagnou a Inglaterra por anos. The economic consequences of mister Churchill. Os EUA desvalorizaram sua moeda em 1934 e assim se mantiveram durante muito tempo (China hoje). Depois da segunda guerra o mundo resolveu tentar organizar a casa e se reuniu na estação de esqui de Bretton Woods.

Criaram o Banco Mundial e o FMI. Nascia o chamado padrão Bretton Woods, que duraria até 1971. Nesse novo esquema, padrão dólar-ouro, todas as moedas estavam atreladas ao dólar, que por sua vez tinha uma cotação fixa com o ouro. Os regimes cambiais eram primordialmente fixos, em contraposição ao que se observou no período entre-guerras. As desvalorizações só eram permitidas em casos de “desequilíbrios fundamentais” nos termos do FMI. Ninguém sabia bem como calcular isso, e fato é que raramente desvalorizações eram permitidas. E o sistema funcionou muito bem até 1971, quando De Gualle pediu seu equivalente em ouro das reservas em dólar. Os americanos olharam o porão do forte Knox e viram que tinha muito pouco ouro lá. Bem menos do que eles tinham emitido de dólares nos últimos anos. O padrão dólar-ouro não estava sendo seguido e os crescentes déficits em conta corrente dos EUA minavam a credibilidade do sistema e do dólar. Em 1971 desandou tudo.

Desde então o mundo migrou para o chamado padrão dólar flexível, que dura até hoje. Basicamente cada um por si e Deus por todos. Cada país imprime o quanto quiser de moeda e se vira com efeitos inflacionários, juros, câmbio, etc… Não há uma coordenação formal. O mundo emergente ainda resistiu um pouco até o final dos anos 80 e início dos 90, mas, com a abertura financeira, migraram todos (exceto China) para um regime de câmbio flutuante sujo e liberdade de fluxo de capitais. Então dá para dividir o século XX em quatro blocos: i)padrão ouro-libra até 1914; ii)desvalorizações competitivas até 1944; iii)Bretton Woods até 1971; iv)salve-se quem puder, até hoje.

E a briga dos EUA com China? Repete o que ocorreu nos anos 80 com o Japão. Naquela época os produtos japoneses estavam muito baratos devido ao yen subvalorizado. Em 1985 os EUA forçaram o Japão a valorizar sua moeda no que ficou conhecido posteriormente como “acordos” do Plaza. E o Japão se deu mal pois reduziu juros para estimular a demanda interna – para compensar a queda de exportações. Fizeram uma bolha imobiliária, que estourou. Os chineses não querem repetir a dose e não mexem no câmbio. E a tensão se agrava. Com a crise americana, o FED não para de imprimir dólares. A dinheirama vaza para o resto do mundo e aprecia a moeda dos incautos. Assim funciona o sistema que é um não-sistema.

* Para ler mais sobre o assunto: “Globalizing capital: a history of the international monetary system”, de Barry J. Eichengreen

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