Hubs de conhecimento produtivo no mundo: ou porque o "campo de jogo" do comércio é desigual numa topocracia

O  mapa abaixo retirado do Atlas da Complexidade Econômica mostra o espaço produtivo de 120 países no comércio internacional de 750 produtos em 2012, cada bolinha representa um produto negociado no mercado mundial em 2012. As cores representam categorias de produtos, sendo os mais sofisticados as máquinas e equipamentos na cor azul no centro.  No cinturão externo estão as commodities agrícolas, minerais e energéticas. Os produtos altamente complexos (HUBS de inovação e conhecimento como no mapa acima) estão no centro da rede e os de baixa complexidade estão na periferia. Os países ricos produzem e exportam os produtos do centro da rede, os países pobres produzem e exportam os produtos da periferia da rede; como diria a CEPAL. O core da produtividade de um pais está nessas atividades “complexas”. O restante são commodites e serviços não sofisticados. Os serviços sofisticados dependem das atividades complexas. Produtos de baixa sofisticação e complexidade não demandam novos conhecimentos e inovação.

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Numa rede randômica os nós têm uma quantidade aleatória de links. Numa rede complexa “scale free” e com hubs, alguns nós têm a maioria dos links e a grande maioria dos outros nós tem pouquíssimos ou nenhum link. Uma distribuição gaussiana caracteriza o primeiro tipo de rede enquanto que uma distribuição do tipo “power law” caracteriza o segundo tipo de rede. Em redes não randômicas existe uma hierarquia onde os hubs mandam pois tem muito mais acesso aos outros links do que os nos “comuns”, reina uma topocracia . Existe uma competição desigual no sentido de que ao longo do tempo um determinado nó coletou muitos links e virou um HUB, com mais acesso a conhecimento (entrada e saída de informações). Um nó “comum” tem muita dificuldade de competir com um HUB pois parte de uma situação inicial pobre em termos de estoque de conhecimento e informações.

O caso da malha aérea americana abaixo, retirado do livro Linked de A. Barabasi, demonstra o conceito de rede complexa com hubs de forma bastante intuitiva. A primeira rede é do sistema rodoviário americano com muitos nós de conexão (cada cidade é um nó) e sem hubs relevantes. A malha aérea é o exemplo oposto: uma rede complexa com hubs (ou nós grandes com muitas conexões) e portanto não randômica. Existem alguns poucos hubs que concentram a maioria das conexões (Chicago, Nova Iorque, Houston, LA, etc). Nesse tipo de rede complexa e não randômica alguns poucos hubs tem a maioria dos links ou conexões e os outros tantos nós tem pouquíssimas ou nenhuma conexão. Uma nova cidade que tente competir em termos de “receber” e “enviar” voos terá grande dificuldade ao tentar competir com os hubs. Sua posição de “no comum” na rede dificulta demais a entrada nesse mercado.

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Nesse sentido o Atlas da Complexidade econômica também traz uma contribuição inestimável para o debate; ao calcular a probabilidade de produtos serem co-exportados por diversos países, o Atlas cria uma medida muito interessante sobre conhecimento produtivo contido nos produtos e capacidades locais necessárias para produzi-los, capaz inclusive de identificar os principais produtos do tipo HUB de CONHECIMENTO. Quanto maior a probabilidade de dois produtos serem “co-exportados”, maior a indicação de que contem características similares e de que portanto demandam capacidades produtivas similares para serem produzidos, são produtos irmãos ou primos. O indicador de “co-exportação” acaba funcionando como uma espécie de medida de “encadeamento produtivo de conhecimento” de cada produto, ou seja, ele indica as conexões produtivas existentes entre vários bens graças aos pré-requisitos comuns necessários para produzi-los. Os produtos mais centrais da rede são HUBS e tem características produtivas que apresentam maior potencial de conhecimento e inovação (carregam muito conhecimento e capacidades locais produtivas).

Os bens que tem muita conectividade (HUBS de CONHECIMENTO) estão portanto carregados de potencial de conhecimento e tecnológico enquanto que os bens que tem baixa conectividade requerem capacidades produtivas simples e que tem baixo potencial multiplicativo de conhecimento. Por exemplo: países que produzem motores de combustão avançados provavelmente tem engenheiros e conhecimentos que permitem produzir uma série de coisas similares e sofisticadas. Países que produzem só bananas ou frutas tem conhecimentos limitados e provavelmente serão incapazes de fazer bens mais complexos.

É importante frisar aqui que toda dificuldade para se observar isso decorre da incapacidade de se medir e capturar diretamente essas competências produtivas locais. O que se observa no comércio internacional são os produtos e não as habilidades que os países têm em produzi-los. Os exemplos abaixo retirados do Atlas da Complexidade ilustram bem o ponto: maquinário de escavação e carros (HUBS) são altamente “encadeantes” e complexos em termos de conhecimentos, minério de ferro e soja tem baixíssimo poder de encadeamento e são não complexos. Novamente os produtos manufaturados aparecem como destaque em termos de complexidade e “conectividade” em relação a outros tipos de bens. Commodities em geral não apresentam esse tipo de característica. Do ponto de vista empírico fica claro no Atlas que manufaturas se caracterizam em geral como bens mais complexos e commodities aparecem como bens não complexos. O mapa abaixo apresenta as 32 principais comunidades de produtos do Atlas divididos em relação as suas características de complexidade e “conectividade”.

É possível observar no mapa que maquinário, produtos químicos, aviões, navios e eletrônicos se destacam como bens mais complexos e conectados entre si, são portanto HUBS no jargão das redes complexas. Por outro lado, pedras preciosas, petróleo, minerais, peixes e crustáceos, frutas, flores e agricultura tropical apresentam baixíssima complexidade e conectividade, representam nós comuns. Cereais, têxteis, equipamentos para construção e alimentos processados situam-se numa posição intermediaria entre os bens mais complexos e menos complexos. Do ponto de vista conceitual o Altas também traz um ganho interessante para o argumento estruturalista da industrialização na medida em que cria uma nova dimensão para comparação entres bens. Com o avanço tecnológico das ultimas décadas fica cada vez mais difícil distinguir se um produto é manufaturado, semi-manufaturado ou bruto, ou ainda, se um produto é industrial ou quase industrial. Dos 4.500 produtos analisados na base mais ampla do Atlas fica muito difícil dizer no detalhe quem é industrializado e quem não é.

Por outro lado, é possível construir um ranking em termos de complexidade desses 4.500 produtos e das 32 comunidades que abrigam esses produtos. Nos resultados do Atlas fica bastante claro que os países hoje considerados ricos se especializam na produção das comunidades complexas concentradas em manufaturas e os países pobres se especializaram na produção das comunidades não complexas concentradas em recursos naturais. Essa segmentação entre produtos sofisticados integrados em rede produtivas versus produtos de baixa sofisticação e isolados aparece claramente nos resultados empíricos do atlas da complexidade econômica e nas antigas discussões de economistas clássicos do desenvolvimento. Commodities e extrativismos em geral não estão inseridos em redes produtivas e tendem a ser produzidos em países pobres da África e América Latina. Produtos industriais sofisticados, complexos e integrados em rede são feitos no leste asiático, Europa e EUA. Tecidos produtivos complexos tendem a ser construídos em torno de bens industriais ou processamento de commodities, são produtos com características de HUBS de CONHECIMENTO. A história das nações mostra que quem dominou o core dessas atividades produtivas ficou rico, isso é especialmente verdadeiro para EUA, Japão e Inglaterra. Muitos tentaram, alguns conseguiram. O leste da Ásia conseguiu. O leste da Europa também esta conseguindo. África e América Latina tentaram mas não conseguiram.

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