Krugman lê Keynes: por que a crise não acaba?

Vale a pena ler o belíssimo texto Mr Keynes and the Moderns escrito por Paul Krugman para a comemoração dos 75 anos da Teoria Geral promovida pela Universidade de Cambridge em 2011 (paper aqui). Em poucas páginas Krugman nos fornece um precioso resumo das idéias keynesianas. De fácil leitura e surpreendentemente atuais. Depois de ter sido relegado ao limbo durante décadas parece que o pensamento keynesiano volta a ganhar espaço de fato entre os economistas do mainstream. Pelo menos essa é a sensação depois de uma leitura rápida de alguns trabalhos apresentados nessa conferência por nomes proeminentes da atualidade. A leitura que Krugman tem feito de Keynes nos últimos anos mostra que a fase de hipocrisia parece mesmo ter ficado para trás. Impressiona ainda o jeito que Krugman desmascara seus pares em relação a leitura equivocada de Keynes. Para Robert Barro (2009) a chave do pensamento keynesiano era dizer que preços e salários são rígidos.
Sobre o ajustamento de preços e salários numa economia parece que muitos economistas não entenderam ainda que se há uma queda abrupta de demanda por algum motivo os preços da economia não caem automaticamente de modo a restabelecer o nível anterior de demanda agregada. Será que é tão difícil entender isso? Krugman mostra a partir da boa e velha cruz keynesiana que estímulos de demanda resultam em PIB maior numa economia recessiva e demanda agregada menor resulta em recessão numa economia aquecida. Não há efeitos de crowding out. Para quem tem dúvidas ainda basta olhar o que acontece hoje na economia americana. Sete anos depois da quebra do Lehman Brothers o sistema de preços americano não funcionou de modo a corrigir os desequilíbrios causados pela crise. Não houve queda de preços que “pudesse recolocar a economia americana no pleno emprego”. Quando sobra trabalho, os salários não caem de modo a reequilibrar o mercado. E ainda bem que é assim pois uma recessão com deflação seria ainda pior. Excesso de endividamento associado à queda de preços e salários é uma situação fatal para devedores e economias em geral. Tudo isso Keynes já tinha escrito em 1936.

Ou ainda os equívocos quanto ao mecanismo de formação da taxa de juros brilhantemente destacados por Krugman. Para Keynes a taxa de juros é um fenômeno monetário e resulta da oferta e demanda de moeda e não de fundos emprestáveis. Ou seja, não é uma questão de disponibilidade de poupança das pessoas para uma dada demanda de investimentos. Trata-se sim de uma questão de dinheiro líquido, impresso e disponível para uma determinada demanda de liquidez de curto prazo. Se o dinheiro é excessivo a taxa de juros despenca. Se falta dinheiro, a taxa de juros sobe. De novo o exemplo da economia americana. Depois da impressão de mais de 2 trilhões de dólares pelo FED as taxas americanas caíram para proximo de zero e lá ficaram. Não importa que o tesouro esteja se endividando. Enquanto houver demanda por dólares líquidos (e ainda há) os juros continuarão lá perto de zero. Se a demanda ceder, basta recolher os dólares colocando títulos em seu lugar. Ou seja, nessas condições o gasto público excessivo não aumenta as taxas de juros. Como temos observado também nos últimos 7 anos por lá.

Uma das lacunas da Teoria Geral diz respeito aos bancos e mecanismo de criação de crédito. Krugman chama a atenção nesse ponto com razão. Keynes tem uma belíssima discussão a esse respeito no Treatise on Money (1930) que acabou não indo parar na Teoria Geral. H. Minsky, talvez o maior keynesiano americano, desenvolveu depois essa discussão nos seus trabalhos dos anos 60 e 70. Sobre o peso da dívida e débito nos diversos agentes, Krugman faz uma bela análise, inclusive em relação à idéia de que dívida não pode ser resolvida com mais dívida. O ponto aqui é que a dívida de um pode ser a salvação do outro. Então se algum setor se endividou demais, algum outro setor deve entrar gastando com dívida para colocar a economia para andar, atenuando a situação de falta de renda dos excessivamente endividados. Hoje nos EUA claramente o governo tenta salvar a economia criando dívida pública para gerar renda e ajudar a aliviar o peso da dívida privada. E é assim que tem que ser mesmo. Essa rotatividade de dívidas ajuda a manter a economia funcionando. Ninguém pode ficar estrangulado, senão o sistema para.

O texto é muito bom por sua qualidade técnica e pela honestidade intelectual de Krugman. Aponta culpados sem medo. A timidez de Obama, as ilusões do Trichet e a ignorância de praticamente todos do partido republicando. Isso para não falar do que Krugman chama de “Dark Ages” da macroeconomia, período em que todos esses insights keynesianos foram literalmente ignorados. Período em que os monastérios do mundo moderno (os bancos centrais) achavam que bastava controlar a inflação para que tudo se resolvesse; a grande moderação que resultou na crise de 2008.

ver Ótimo vídeo com Krugman e BlanchardSobre as depressões no mundo ricoa crise de 2008 e os problemas da teoria macro, neutralidade da moedaa vingança dos estruturalistas e Keynes, trader, especulador e investidor

12 thoughts on “Krugman lê Keynes: por que a crise não acaba?”

  1. Professor Paulo Gala, bom dia!

    Gostaria que o Sr. comentasse, se possível, se o Brasil e a Grécia, guardadas as proporções, foram vítimas do “keynesianismo bastardo” ou “vulgar”, como determinam alguns economistas. Nesse caso, quem são os autores que defendem essa prática deformada do keynesianismo?

    1. Acho que não. O caso brasileiro foi mais uma questão de dependência exagerada de commodities no setor externo e expansão desenfreada do crédito internamente. A Grécia abriu mão de sua moeda e perdeu a capacidade de administrar sua crise com política monetária, cambial e fiscal!

      1. Caro Professor Paulo Gala,

        Entendo e concordo com as duas causas que citou para a atual crise brasileira, mas gostaria de saber a sua opinião sobre outra possível causa: retração dos investimentos em função de quedas na TIR e nos lucros retidos, ambos decorrentes de persistentes elevações dos rendimentos do trabalho acima da produtividade. Desde o Plano Real essas elevações acima da produtividade vêm ocorrendo, tendo sido intensificadas a partir do governo Lula. Decorreu do impacto da valorização do salário mínimo sobre as curvas salariais das empresas, tendo sido responsável por uma verdadeira revolução na estrutura social brasileira, com ganhos de bem estar somente comparáveis aos ocorridos na Era Vargas. Infelizmente não soubemos ou pudemos conter o processo no momento adequado, possivelmente em 2013 ou 2014, antes de começar a provocar pressões inflacionárias de custos e retrações nos investimentos.

  2. Estou recentemente acompanhando seu site. Citei seus trabalhos sobre “Economia Institucional” em minha dissertação de mestrado. Sempre leio os posts de Paul Krugman. Quero me inteirar mais sobre macroeconomia uma vez que fiz mestrado interdisciplinar em desenvolvimento. Parabéns pelo blog!

  3. Professor Paulo boa noite. Se levarmos em consideração a relação crédito/PIB veremos que o caso brasileiro está bastante aquém dos patamares internacionais, sobretudo, em relação aos países desenvolvidos. Inclusive alguns teóricos afirmam haver uma forte relação entre a expansão do crédito e o desenvolvimento econômico. Assim, como expansão do crédito brasileiro, que ainda é relativamente baixo e com uma taxa de juros elevada, pode ser uma das causas da crise nacional?

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