Manufaturas nos EUA e Brasil: 100 anos de diferença que explicam o atraso

O caso da economia americana é particularmente interessante, uma economia riquíssima em recursos naturais mas que se tornou a grande potência industrial do mundo durante muitos anos junto com Alemanha e Japão. A industrialização americana remonta ao final do século XVIII, antes ainda da guerra civil. A indústria de navios e prestação de serviços da Nova Inglaterra, com destaque para NY, Filadélfia, Boston e Baltimore, que prosperou durante o bloqueio continental de Napoleão, e depois a própria indústria de tecelagens que surgiram em Nova Iorque e Filadélfia no início dos 1800, estão na base do avanço manufatureiro americano como bem aponta Douglass North em seu clássico trabalho sobre a história econômica dos EUA.

Nessa época o sul ainda era a região mais dinâmica do país puxada por exportações de algodão para a revolução industrial inglesa, mas a demanda por navios da Nova Inglaterra e outros bens manufaturados do norte cresciam criando uma nova dinâmica econômica. O Oeste se integrava como grande fornecedor de matérias primas e agricultura. Assim ia se formando a base da estrutura produtiva da economia americana. Douglass North analisa em detalhes como esse tecido econômico evoluiu até 1860, às véspera da grande guerra de secessão. Lá já estariam presentes os elementos que fariam do Norte os vencedores da batalha e a grande potência econômica americana em termos regionais: a base produtiva manufatureira. Estrutura esta que serviria de matéria prima para os pensamentos de A. Hamilton e F. List sobre a importância das manufaturas para o desenvolvimento econômico.

No inicio dos 1800 a indústria da Nova Inglaterra começou a florescer: fabricação de casas com artesãos locais fornecendo para as suas comunidades; fábricas de fiação de algodão, descaroçadores de algodão, a indústria de armas com peças intercambiáveis, indústria de ferro, fornos e laminadores foram rapidamente suplantando pequenas forjas locais. Em 1804 foi desenvolvido na Filadélfia um motor a vapor de alta pressão que era adaptável a uma grande variedade de fins industriais. Dentro de alguns anos passou a equipar navios, serrarias, moinhos de farinha, máquinas de impressão, bem como fábricas têxteis. A construção ferroviária também desempenhou um papel importante no transporte de pessoas e de carga para o oeste, aumentando o tamanho do mercado Americano. Com a nova infra-estrutura até mesmo partes remotas do país ganharam a habilidade de se comunicar e estabelecer relações comerciais com os centros de comércio da Nova Inglaterra.

Os retornos crescentes reinaram e as industrias da Nova Inglaterra passaram então a ser o principal fornecedor do Sul agrário e do Oeste agrícola durante todo o período pós-guerra civil até o século XX. Numa dinâmica aliás muito parecida com o que se observou no sudeste brasileiro. Fazendo o café às vezes do algodão para a dinâmica brasileira e o estado de São Paulo se constituído como nossa “Nova Inglaterra”. Claro que com um século de atraso, já com o bonde da história perdido. Mas ainda assim a comparação é válida. Assim como a Nova Inglaterra se tornou o polo econômico e financeiro dos EUA a partir de sua primazia nas manufaturas, São Paulo também se tornou nosso polo dinâmico e nossa Wall Street. Os Robber Barrons, barões ladroes, americanos reinaram nesse ambiente de pujança manufatureira e industrial do nordeste americano. Ferrovias, aço, navios a vapor, eletricidade floresceram nessa época e catapultaram os EUA para a posição de economia mais importante do mundo já no incio do século XX.

2 thoughts on “Manufaturas nos EUA e Brasil: 100 anos de diferença que explicam o atraso”

  1. é triste saber o quanto estamos atrasados em relação aos países desenvolvidos , os chamados países centrais.
    será que temos change de um dia nos tornarmos um pais desenvolvidos, parte da matéria prima já temos, mais a principal não temos, um visionário capaz de reunir as condições necessária para isso.

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