O Atlas da Complexidade Econômica: um novo breakthrough empírico para os economistas estruturalistas

Para os clássicos do desenvolvimento econômico, Nurkse, Myrdal, Rosestein-Rodan, Hirschman, Myrdal, Prebisch e Furtado, as atividades produtivas são diferentes em termos de suas habilidades para gerar crescimento e desenvolvimento. Atividades com altos retornos crescentes, alta incidência de inovações tecnológicas e altas sinergias decorrentes de divisão do trabalho são fortemente indutoras de desenvolvimento econômico. São atividades onde em geral predominam competição imperfeita e todas as características desse tipo de estrutura de mercado (importantes curvas de aprendizagem, rápido progresso técnico, alto conteúdo de R&D, grandes possibilidades de economias de escala e escopo, alta concentração industrial, grandes barreiras à entrada, diferenciação por marcas, etc…). Esse grupo de atividades de alto valor agregado se contrapõe às atividades de baixo valor agregado, em geral praticadas em países pobres ou de renda média com típica estrutura de competição perfeita (baixo conteúdo de R&D, baixa inovação tecnológica, informação perfeita, ausência de curvas de aprendizado, etc.).

Para os clássicos do desenvolvimento, o aumento de produtividade viria justamente da subida da escada tecnológica, migrando de atividades de baixa qualidade para as atividades de alta qualidade, rumo à sofisticação tecnológica da economia (ver Bresser-pereira 2014, pg.103). Para isso a construção de um sistema industrial complexo e diversificado é fundamental, sujeito a retornos crescentes de escala, altas sinergias e linkages entre atividades. A especialização em agricultura e extrativismos não permitiria esse tipo de evolução tecnológica na perspectiva desses economistas. Como poderíamos “medir” empiricamente essas proposições dos economistas clássicos do desenvolvimento? Idealmente se poderia estudar as estruturas de mercado dos principais produtos do mundo revelados no comércio mundial. A partir da classificação dessas estruturas, se poderia correlacionar os produtos e estruturas de mercados encontrados com níveis de renda per capita. Se a proposição dos clássicos do desenvolvimento estiver correta, deveríamos encontrar países de renda per capita elevada se especializando em atividades de concorrência imperfeita e países pobres se especializando em atividades de concorrência perfeita; algo, aliás, fácil de se constatar numa rápida análise superficial dos padrões de comércio atuais, mas difícil de se comprovar de maneira mais robusta.

O debate sobre a validade dessas ideias estruturalistas e cepalinas dura, obviamente, ja mais de 50 anos e resultados conclusivos nao foram ainda atingidos sobre o tema. Basta acompanhar a enorme literatura a respeito dessas questoes produzida por economistas brasileiros e estrangeiros.  Para citar alguns nomes aqui da literatura internacional: Lance Taylor, Jose Antonio Ocampo, Roberto Frenkel, Ha-Joon Chang, Jan Kregel, Erik Reinert e Gabriel Palma. De uma perspectiva mais ortodoxa merecem destaque Dani Rodrik e Ricardo Hausmann, que acabam tratando desses mesmos temas estruturalistas de uma matriz teorica mais neoclassica. A mais recente contribuicao de Ricardo Hausmman sobre o tema pode ser entendida tambem dessa pespectiva: o Atlas da Complexidade Econômica (Hausmann, Hildalgo et al 2014). Trata-se, na veradade, de uma grande inovação empírica, capaz de dar enorme suporte as proposições dos economistas estruturalistas que viam na sofisticação produtiva o caminho para o desenvolvimento econômico; apesar de Hausman fazer pouquíssimas referencias a esses economistas e tentar “re”-construir sua própria teoria do desenvolvimento econômico.

Como medir a sofisticação produtiva ou “complexidade econômica” de um país? Hausmann, Hildalgo et al criaram um método de extraordinária simplicidade e comparabilidade entre países numa parceria entre o Media Lab do MIT e a Kennedy School de Harvard (http://atlas.media.mit.edu/). A partir da análise da pauta exportadora de um determinado país são capazes de medir de forma indireta a sofisticação tecnológica de seu tecido produtivo ou sua “complexidade econômica”. A metodologia criada para a construção dos índices de complexidade econômica culminou num atlas que reúne extenso material sobre uma infinidade de produtos e países para 50 anos desde 1963. (772 produtos e 144 países em 2012).

Os dois conceitos básicos para se medir se um país é complexo economicamente são a ubiquidade e diversidade de produtos encontrados na sua pauta exportadora. Se uma determinada economia é capaz de produzir bens não ubíquos, raros e complexos, há indicação de que tem um sofisticado tecido produtivo. Claro que há um problema aqui de escassez relativa, especialmente de produtos naturais como diamantes e urânio, por exemplo. Os bens não ubíquos devem ser divididos entre aqueles que têm alto conteúdo tecnológico e, portanto, são de difícil produção (aviões) e aqueles que são altamente escassos na natureza, por exemplo, o nióbio, e, portanto, tem uma não ubiquidade natural. Para controlar esse problema de recursos naturais escassos na medição de complexidade os autores usam uma técnica engenhosa: comparam a ubiquidade do produto feito num determinado país com a diversidade de produtos que esse país é capaz de exportar. Por exemplo: Botsuana e Serra Leoa produzem e exportam algo raro e, portanto, não ubíquo, diamantes brutos. Por outro lado têm uma pauta exportadora extremamente limitada e não diversificada. Temos aqui então casos de não ubiquidade sem complexidade.

Nessa linha de raciocínio os autores seguem classificando diversos países e chegam a correlações impressionantes entre níveis de renda per capita e complexidade econômica; esse indicador pode ser tomado como uma proxy do desenvolvimento econômico relativo entre países. Não à toa Japão e Alemanha estão sempre entres os 10 primeiros países no ranking dos últimos 10 anos. Não é difícil perceber que o desenvolvimento econômico pode ser tratado como o domínio de técnicas de produção mais sofisticadas que em geral levam a produção de maior valor adicionado por trabalhador, como defendiam os clássicos do desenvolvimento. É isso que o indicador de complexidade econômica acaba capturando de forma bastante engenhosa a partir de medidas de ubiquidade e diversidade da pauta exportadora dos diversos países. Os resultados do atlas também apontam na direção sugerida pelos clássicos do desenvolvimento econômico para padrões de especialização no comércio mundial: países ricos se especializam em mercados de competição imperfeita e países pobres em mercados de competição perfeita.

Uma das medidas importantes do atlas da complexidade é a de proximidade. Dois produtos são “próximos” se vários países exportam esse par. Por exemplo, vinhos e uvas. Muitos países exportam só uvas, muitos outros exportam só vinhos, mas uma quantidade razoável de países do banco de dados exportam ambos, donde se conclui que vinhos e uvas são próximos. Claro que nesse exemplo a conexão é intuitiva, mas em casos mais complicados a metodologia ajuda muito a entender quais produtos estão próximos. Por exemplo, medicamentos e aparelhos de raio x, que estão “próximos”, apesar de não parecer intuitivamente. A importância da “proximidade” está na medida indireta que esta carrega sobre as capacidades locais de produção envolvidas em diversos bens. Com essas proximidades os autores são capazes de construir redes de conexões entre produtos. Os produtos muito próximos uns dos outros formam clusters ou “comunidades” nós termos do atlas. Essas comunidades são depois rankeadas em termos de complexidade de seus produtos. Em geral os produtos de alta conexão são complexos e os produtos de baixa conexão não são complexos, segundo as medidas do próprio atlas. O exemplo aqui também é bom: petróleo tem pouquíssimas conexões e nenhuma complexidade; no outro extremo, máquinas têm muitas conexões e são bastante complexas. As comunidades complexas abrigam produtos que têm características típicas de estruturas de mercado de concorrência imperfeita; o inverso se aplica para os produtos não complexos.

Os mapas abaixo retirados do atlas da complexidade econômica mostram as principais categorias do comercio mundial segundo suas “complexidades” e “proximidades” e o espaço produtivo de 120 países no comércio internacional em relação a 750 produtos em 2012. As cores representam categorias de produtos, sendo os mais sofisticados as máquinas e equipamentos na cor azul no centro do segundo mapa.  No cinturão externo estão as commodities agrícolas, minerais e energéticas. Os produtos altamente complexos estão no centro da rede e os de baixa complexidade estão na periferia. Os países ricos produzem e exportam os produtos do centro da rede, os países pobres produzem e exportam os produtos da periferia da rede – como diria a CEPAL

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