O colapso da confiança no Brasil em 2015

Os indicadores de confiança da economia brasileira medidos pela FGV, CNI e Datafolha começaram a desacelerar já em 2014 e despencaram em 2015; mostram recentemente alguma estabilidade. A confiança no comercio, na indústria, nos serviços em geral, na construção civil e entre os consumidores esta praticamente em mínimas históricas, desde que as series começaram a ser calculadas. Para os trabalhadores o temor principal e’ perder o emprego ou pelo menos vislumbrar perspectivas de aumentos de salários. Para os empresários as vendas apresentam forte retração resultando em quedas nos lucros; as perspectivas de aumentos de vendas e receitas no futuro próximo são remotas. A confiança do chamado lado real da economia sumiu, o pais parou.
Do lado financeiro as expectativas seguem igualmente ruins, com preços de ativos em mínimas históricas também. Ibovespa em dólares no menor patamar desde 2005, taxas de juros longas próximas das máximas desde 2008 e taxa de cambio próxima da máxima de R$ 4,00 de 2002. Cabe aqui uma rápida recapitulação dos eventos e questões estruturais que nos trouxeram para a atual situação de estagnação, quiça quase de uma depressão econômica. 1) o final do ciclo de credito e de consumo de bens duráveis depois da grande expansão dos últimos 10 anos; o consumo de duráveis sempre foi cíclico e o Brasil entrou num processo de alavancagem sem precedentes na historia recente. 2)o final do ciclo de commodities ocorrido graças à desaceleração da China e importante desaceleração do comercio internacional. 3)cortes de gastos públicos a partir de 2015 necessários por conta das desonerações tributarias, queda de arrecadação decorrente do final dos ciclos de consumo e de commodities e desaceleração da economia que culminaram numa trajetória fiscal problemática, 4)choque de juros necessário por conta do efeito inflacionário do ajuste da defasagem entre preços livres e administrados e da forte desvalorização cambial observada desde o inicio de 2015, 5)queda no investimento privado por conta da expansão excessiva de oferta no setor imobiliário (shoppings, varejo, prédios comerciais e residenciais, etc…) e publico devido aos escândalos de corrupção e desdobramentos da operação lava jato. Tudo isso num quadro de mais longo prazo de desindustrialização da economia brasileira que se inseriu de maneira pouco inteligente no comércio mundial: vendendo commodities e importando bens manufaturados complexos.

Sobre os fatores que impactam a confiança cabe fazer uma divisão entre a dinâmica da economia real e a dinâmica de preços dos ativos financeiros. O preço dos ativos sofre muito com a instabilidade politica e muitas duvidas quanto à dinâmica da divida. Do lado politico ha uma polarização que há muito tempo não se via na sociedade brasileira, uma fratura politica que acaba dificultando muito qualquer avanço no congresso, especialmente no que diz respeito a reformas que devem prosseguir para ajudar na estabilidade fiscal tanto de curto quanto de longo prazo; por exemplo CPMF e reforma da previdência. Quanto ao nível de confiança na economia real, as expectativas correntes em relação ao nível de renda, salários, lucros e empregos acaba tendo impacto enorme na psicologia dos trabalhadores e empresários. O gasto de um consumidor é receita e lucro do empresário. O investimento desse empresário gera a receita e lucros de outros empresários e salários de outros trabalhadores. Os gastos dos trabalhadores e investimentos dos empresários geram as receitas tributárias dos governos. E aqui está a circularidade e retroalimentação da recessão. Ninguém gasta porque ninguém gasta. No jargão econômico: alguma força exógena terá que aparecer para estancar essa espiral negativa.

O ajuste fiscal ora em curso deve levar em conta os dois lados dessa questão. Um corte excessivo de gastos e investimentos públicos, que seriam contra-cíclicos e portanto exógenos, pode agravar ainda mais a recessão na medida em que retira mais demanda e renda da economia num momento em que o setor privado não quer gastar, o clássico problema levantado por Keynes. Esse caminho ficou conhecido na Europa como austerícidio, ou seja, a ideia de que ao agravar a recessão o corte de gastos poderia piorar a dinâmica fiscal ao provocar mais queda de renda e arrecadação dependendo do comportamento dos multiplicadores fiscais. Por outro lado a ausência de ajuste fiscal desancora as expectativas em relação à dinâmica da divida publica e pode agravar ainda mais o custo de financiamento do tesouro graças ao aumento das taxas de juros longas. Se o descompromisso fiscal for muito grande pode haver também fuga de capitais e decorrente desvalorização cambial. Nesse caso as pressões inflacionárias vindas do aumento de preços dos bens transacionáveis se somariam a indexação tornando o controle da inflação ainda mais difícil. Esse meio termo entre ajuste fiscal forte demais ou frouxo demais me parece ser o caminho escolhido pelo atual governo.

Uma volta da confiança ajudaria muito a resolver os problemas atuais. Mas a questão chave, muito presente nas discussões dos anos 30 depois da grande crise de 1929 e’ qual caminho a seguir para se atingir a recuperação psicológica tanto dos agentes da economia real, trabalhadores e empresários, que traria aumento de demanda, gasto e renda, quanto dos investidores financeiros que controlam os destinos da poupanças da economia; o que traria a recuperação de preços de ativos financeiros (cambio, juros longos e bolsa de valores). Para complicar a situação e introduzir mais uma circularidade no raciocínio, a dinâmica da economia real depende dos preços de ativos financeiros e estes, por sua vez, também dependem da dinâmica da economia real. Como poderemos sair dessa armadilha?

3 thoughts on “O colapso da confiança no Brasil em 2015”

  1. Caro Prof. Paulo Gala, falando de ajuste fiscal, você concordaria que a seguinte afirmação resume, ainda que de forma superficial, a essência da controvérsia entre neoclássicos e keynesianos sobre o assunto? “Enquanto os neoclássicos esperam que uma redução no déficit, através do corte de gastos, vá elevar tanto e tão rapidamente o consumo e investimento privados a ponto de mais que compensar, tempestivamente, a queda de demanda agregada decorrente do corte de gastos públicos, os keynesianos consideram um grande risco essa substituição de demanda pública por privada não ocorrer a tempo e o corte de gastos aprofundar a recessão. Em favor dessas expectativas dos neoclássicos estaria o tempo e a intensidade da recessão. Quanto maior, mais rápida tende a ser a reação dos agentes privados.”

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