O estado chinês é uma maquina de criar complexidade: os carros chineses vão invadir o mundo

*escrito com Pietro Parronchi UFABC

O setor automotivo mundial passa atualmente por um processo de consolidação com o argumento de que necessita de um novo patamar de ganhos de escala para sustentar os elevados custos de desenvolvimento em Pesquisa que ditarão o futuro próximo: condução autônoma e eficiência energética. O diferencial dessa nova onda de consolidação reside em um novo player global, com muito apetite e dinheiro: China. No passado Pequim estimulou suas fabricantes de automóveis a expandirem suas operações globalmente através de plantas industriais e oferta direta de seus produtos em mercados maduros, porem hoje é sabido que a aceitação e sucesso de mercado de seus produtos não foram alcançados. Porém um empresa específica optou por um caminho alternativo, a Geely Motors, que adquiriu em 2010 a renomada fabricante sueca Volvo, absorveu know how e o prestígio da marca, concedeu liberdade total para a engenharia e o departamento de design, e hoje é referência de um case de sucesso de investida chinesa no setor automotivo.

Mercados estão chacoalhado com a declaração do CEO da Great Wall Motors que confirmou os rumores de que um player chinês sondou possível oferta para aquisição da FCA, uma das “big three” dos EUA, detentora de ícones norte-americanos (JEEP, Chrysler, Dodge). Pequim declarou que dará suporte financeiro para uma onda de aquisição capitaneada por suas fabricas automotivas, e a aquisição de players ocidentais com rede de distribuição consolidada na Europa e EUA, com marcas de boas reputações, e centros de P&D com importantes patentes em motores energeticamente eficientes e tecnologia embarcada, porem carentes de recursos financeiros, parecem ser alvos perfeitos para as empresas chinesas: ricas e com sede de crescer.

A atração feita pela China de empresas estrangeiras no setor automotivo teve sempre o objetivo de fomentar as capacidades internas e locais de produção. Para isso a China sempre usou uma série de políticas para assegurar que a transferência de tecnologia teria lugar e que uma indústria local forte e competitiva fosse criada. O governo chinês usou um sistema de estímulos e controles para tentar promover eficiência e competitividade. Os investidores estrangeiros foram obrigados a entrar em joint ventures com empresas nacionais (em telefones celulares e em computadores, por exemplo) para ter acesso aos mercados nacionais. Houve fraca aplicação das leis de proteção intelectual habilitando produtores domésticos a praticar engenharia reversa e imitar tecnologias estrangeiras sem punições relevantes. Os governos regionais tiveram autonomia e investiram na criação de clusters industriais em áreas específicas do país.

Claro que muitas empresas locais fracassaram e nem tudo deu certo, mas no geral essas estratégias parecem ter sido acertadas na medida em que varias empresas chinesas amadureceram e foram capazes de competir no mercado mundial e internamente com concorrentes estrangeiros. O resultado dessas estratégias pode ser visto, por exemplo, na indústria chinesa de eletrônicos que conta hoje com uma estrutura diferente do que se vê no México, por exemplo. As empresas nacionais desempenham hoje um papel significativo na China, além do numero elevado de joint ventures entre empresas estrangeiras e nacionais.  A interação das empresas internacionais com empresas nacionais criou uma genuína história de sucesso global na China segundo a analise de D. Rodrik, por exemplo. Embora o foco de seu trabalho tenha sido o setor da electrónica de consumo, o mesmo poderia ser dito de outros casos de sucesso.

A indústria de autopeças e carros, por exemplo, foi fortemente promovida através de requisitos de conteúdo local. O governo chinês exigia que as montadoras estrangeiras investissem no mercado domestico para alcançar um nível relativamente elevado de conteúdo nacional dentro de um curto período de tempo (normalmente 70% no prazo de três anos). Isto obrigou as empresas multinacionais a cooperar estreitamente com os fornecedores locais no desenvolvimento e utilização de novas tecnologias. Na cadeia de abastecimento de automóveis na China os próprios fabricantes estrangeiros continuaram a comprar dos fornecedores locais depois que a obrigatoriedade de conteúdo local foi abolida em conformidade com as regras da OMC; numa prova de que o sistema foi capaz de criar produtores domésticos eficientes. As fontes locais de abastecimento se mostraram superiores em termos de combinação de custo e qualidade quando comparadas as alternativas importadas.

A China representa um belo exemplo da estratégia de construção de complexidade  perseguida pelos asiáticos. Com politicas pro crescimento e de estimulo a indústria local os chineses conseguiram atingir notável evolução industrial e manufatureira nos últimos 30 anos. O modelo chinês de crescimento replicou a estratégia de sucesso do Japão do pós-guerra, da Coréia do Sul e Taiwan dos anos 70 e 80 e de Malásia, Indonésia e Tailândia nos 90. Câmbio competitivo e exportações de manufaturas para a economia mundial. Transferência de trabalhadores do campo para o setor industrial com ampla ajuda e interferência do governo. Uma industrialização “forçada”, por assim dizer, com manipulação de preços, proibições e distorções que direcionavam a indústria para produzir para o mercado mundial.

What’s So Special about China’s Exports? (Rodrik 2006)a evolução da complexidade chinesa (Felipe J. 2010)

5 thoughts on “O estado chinês é uma maquina de criar complexidade: os carros chineses vão invadir o mundo”

  1. Mas tudo que envolve o Brasil é uma dimensão a parte, até por que para entrar neste feudo aqui, há a cobranças de todo tipo de taxas, até as inimagináveis. Isso acaba tirando todo o compromisso de qualidade do produto, o objetivo é vender barato e pagar as taxas a quem por direito.

  2. Professor Paulo Gala, é muito simples fazer uma análise generalizada do desempenho da China com a indústria automotiva. A verdade é que este país praticou sistematicamente a cópia descarada de produtos dos concorrentes sem nunca se lixar com a questão das patentes e direitos de autoria (design, tecnologia). Sua acumulação de capital não tem se dado só com isso, é obvio, e o governo tem dado incentivos escabrosos para que empresas sejam compradas “all over the world” (com dinheiro que se encontra em um caixa único, centralizado – e não gerado setorialmente ou por uma determinada empresa – fato que se observa nas economias abertas e capitalistas mais tradicionais). O que temos, contudo, é um país pouco acostumado com competitividade, que não se furta a ofertar produtos de qualidade duvidosa onde o preço é o fator principal na atratividade do consumidor. Há uma longa curva de aprendizagem. Se a China realmente estiver percorrendo isto, incluindo aí a questão da complexidade, o mundo poderá ganhar players sérios vindos do país asiático. Sem adquirir empresas já consolidadas, contudo, nós teremos empresas destinadas a fornecer produtos aos países de Terceiro Mundo nos quais a China detém poder de persuasão por conta de seu programa de estabelecer um novo “caminho da seda” no mundo (tem feito acordos de longo prazo com países da América Latina e da África, compromentendo, em algum sentido, até a capacidade de decisão desses países). Obrigado, Josso.

  3. Desculpe-me, mas não foi o caso da Coreia do Sul. Lá houve efetivo desenvolvimento tecnológico, embora inspirados pelo Japão. A população coreana, também, recebeu uma carga de educação a partir do fim dos anos 1980 que elevaria em muito a sua capacidade produtiva e a produtividade daquele país. Imitação pura e simples e governo centralizado comprando empresas no mundo não me parece ser o caso do Japão também, por exemplo, onde cada empresa individualmente saiu em busca de expansão, sobretudo na América do Norte e na Europa (casos de Toyota, Honda, do Japão, e mesmo Hyunday, da Coreia do Sul, que compraram ativos e realizaram expansão “overseas” com pouco ou nenhum suporte estatal). Logo, a China, além de muito agressiva, tem agido por parâmetros diferentes para conquistar espaço, incluindo o apelo à ilegalidade (despespeito a patentes e cópias). Sua elevação de complexidade pode ocorrer, mas o país e suas empresas terão que provar que são adeptos da competitividade sadia e do respeito aos partners, sobretudo em uma indústria como a automobilística. Não tem essa de que todo asiático seguiu essa rota….(sem falar que países pequeniníssimos, como Cingapura, é algo até risível quando se fala em participação no comércio mundial). Talvez eu seja apenas um bobo pensando assim… Obrigado, Josso Ares.

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