O Euro e a dinâmica de complexidade econômica no sul da Europa

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O caso europeu recente também ilustra a utilidade da perspectiva da complexidade para entender avanços e retrocessos econômicos. Há muito tempo atrás havia na Europa uma periferia pobre, composta basicamente de Portugal, Espanha, sul da Itália e Grécia (países menos complexos) e um centro rico, Alemanha, Bélgica, França, Holanda e norte da Itália (regiões mais complexas). Os países mais ricos do norte resolveram ajudar os mais pobres do sul, também visando o auto-interesse, com a criação da moeda única, o Euro. A idéia era a seguinte: integrar os pobres do sul criando uma fronteira de investimentos importante para os capitais do norte. O mercado consumidor desses países poderia representar e representou uma grande fonte de lucros e expansão para os capitais do norte. A moeda estável com credibilidade e juros baixos criou uma onda de credito e endividamento nos países do sul.

A adesão ao EURO significou uma brutal queda na taxa de juros desses países. Surgiram bolhas de consumo e bolhas imobiliárias. Numa dinâmica do tipo observado no sul da Europa desde a introdução do Euro os preços de imóveis, ativos financeiros e de bens não transacionáveis aumentam e o déficit em conta corrente cresce. A taxa de cambio real começa a se apreciar e no limite fica sobrevalorizada. Os bens não-transacionáveis (terra e trabalho) passam a ficar muito caros e os bens transacionáveis manufaturados do exterior (carros, eletrônicos, geladeira, fogão) ficam muito baratos em relação aos da indústria doméstica. As importações aumentam muito e as exportações diminuem, há perda de complexidade. Se a economia for exportadora de commodities, como foi o caso brasileiro, esse movimento pode ser ainda amplificado por ciclos de preços de commodities favoráveis. Nesse caso o preço dos bens transacionáveis não manufaturados domésticos também aumenta, dando sobrevida ao ciclo (caso brasileiro dos últimos 10 anos) e cria-se um perfil do tipo doença holandesa.

O motor maior da expansão no sul da Europa foi o endividamento dos consumidores e famílias, não houve sofisticação produtiva relevante. Os consumidores portugueses, gregos e espanhóis se endividaram muito e o setor imobiliário apresentou forte expansão em todos esses países. Enquanto os espanhóis mantiveram suas contas públicas sob relativo controle, os portugueses e gregos apresentaram aumento relevante de divida publica. Na Grécia as Olimpíadas, em Portugal a Eurocopa. Tudo isso gerou muito dinamismo para a Europa como um todo, que voltou a crescer no período 2000-2007 a taxas relevantes; com destaque para os países do sul. Houve uma convergência de rendas per capitas num primeiro momento com juros caindo, credito subindo e renda per capita aumentando.

A Irlanda, o tigre celta, seguiu um caminho parecido. Aproveitou a proximidade com a Inglaterra e virou um gateway barato para o mundo anglo-saxão. Juros baixos, mão de obra barata e crédito farto também estavam presentes no crescimento irlandês. Assim como os espanhóis, mantiveram o gasto público sob controle. O endividamento que explodiu foi o privado. Depois da crise a situação mudou. Os governos espanhol e irlandês começaram a fazer gasto público para tentar segurar a demanda agregada e o PIB. A arrecadação minguou e o déficit publico aumentou muito. Em 2010 a Irlanda fechou suas contas com um déficit público de mais de 30% do PIB. E na Espanha a dívida pública e privada soma hoje 270% do PIB. Para não dizer das taxas de câmbio reais que estão todas desalinhadas.

Passada a euforia de renda per capita dobrada, explosão imobiliária e de infra-estrutura ficaram as dívidas para pagar. Os setores privado e público desses países estão ultra-endividados e as economias estagnadas com desemprego muito elevado. Sem expansão de produção e renda aumenta a dificuldade para se reequilibrar os balanços financeiros. Os governos endividados não conseguem fazer gastos contra-cíclicos e abriram mão de sua política cambial (não tem mais moeda); uma situação curiosa onde há integração monetária mas não há integração fiscal. Se uma “unidade da federação” quebra, os outros membros não podem socorrer. Como analisou recentemente Paul Krugman, seria uma situação de quebra hipotética de um estado americano (Califórnia, Texas?) em que o governo central se recusa a socorrer. Imagine a situação do Texas sendo expulso da federação americana por que se endividou demais (setor publico e privado) e agora não tem como pagar. Na Europa pode acontecer isso, em tese.

O experimento do Euro acabou por provocar forte expansão dos países do sul com base em dívidas e “booms” de consumo e imobiliário, não houve aumento de sofisticação produtiva. Os mapas de complexidade econômica abaixo mostram que houve uma importante regressão tecnológica na estrutura produtiva de Portugal, Espanha, Itália, Grécia e França desde a introdução do Euro. Todos esses países caíram de forma importante no ranking que mede a sofisticação relativa de seus tecidos produtivos entre 2000 e 2012. Não houve progresso de fato com upgrading industrial e aumento de capacidades locais de produção. As rendas per capita subiram, depois caíram e agora estão estagnadas. A crise no sul continua e continuará.

No caso do sul da Europa já havia sofisticação e diversidade do tecido produtivo. O aumento dos custos de produção (principalmente do trabalho) no sul, as economias de escala do Norte e a redução dos custos de transporte causaram polarizações e aglomerações na Alemanha e arredores. As redes produtivas do Sul perderam densidade, o que está provocando involução tecnológica mesmo na presença de excelentes universidades e tecido produtivo diversificado. E pior, como o sistema apresenta histerese não será possível voltar à situação anterior. As manufaturas se aglomeraram ainda mais na Alemanha em busca das economias de escala, provocando uma configuração espacial de polarização a la Krugman (1999). Conforme vimos acima, nesse tipo de dinâmica, retornos crescentes de escala e “non-tradability” de insumos geram economias de aglomeração exatamente como na modelam apresentada por C. Hidalgo e R. Hausmann no Atlas da Complexidade.

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