O milagre chinês visto da ótica da complexidade

A China representa atualmente um bom exemplo da estratégia de construção de complexidade econômica perseguida pelos asiáticos. Com politicas pro crescimento e de estimulo a indústria local os chineses conseguiram atingir notável evolução industrial e manufatureira nos últimos 30 anos. O modelo chinês de crescimento replicou a estrategia de sucesso do Japão do pós-guerra, da Coréia do Sul e Taiwan dos anos 70 e 80 e de Malásia, Indonésia e Tailândia nos 90. Câmbio competitivo e exportações de manufaturas para a economia mundial. Transferência de trabalhadores do campo para o setor industrial com ampla ajuda e interferência do governo.
Uma industrialização “forçada”, por assim dizer, com manipulação de preços, proibições e distorções que direcionavam a indústria para produzir para o mercado mundial. A estratégia chinesa, que segue os passos da Coréia do Sul e do Japão, de manter um câmbio permanentemente desvalorizado, juros baixo, controles de capital e superavits fiscais, alem de pesada politica industrial, tem levado a um crescimento sustentado do estoque de capital e produto do país. O câmbio relativamente desvalorizado estimula exportações, promove o investimento e, portanto, favorece a acumulação de um estoque de bens de capital de alto padrão voltado para a produção de bens comercializáveis complexos (para uma análise do caso japonês, ver Eichengreen e Hatase 2005).

O livre funcionamento do mercado cambial, associado a liberdade de fluxos de capital, provocaria um ajustamento dos excessivos superávits na conta comercial e na conta corrente da China através de uma apreciação cambial. Um câmbio mais apreciado ao longo do processo de crescimento das ultimas décadas estimularia o consumo de bens importados, revertendo o saldo da balança comercial e desestimularia o investimento na produção de bens comercializáveis complexos a partir de uma mudança de preços relativos. O ponto interessante nesse argumento é que a intervenção do governo do mercado cambial através da aquisição maciça de reservas criou uma distorção favorável ao crescimento (ver Eichengreen 2004).

No arranjo da economia global dos últimos 15 anos, M. Dooley et al (2003) identificam três regiões distintas em termos de estratégia de política econômica e inserção produtiva em termos de comercio global, com destaque para China. O centro do sistema: formado pela economia americana que não tem grandes preocupações com o comportamento de sua taxa de câmbio já que são emissores da moeda reserva do sistema internacional. Os déficits em conta corrente americanos decorrentes do excesso de absorção sobre a produção das empresas, famílias e governo são financiados com poupança externa dos países que se encontram na chamada “current account region”, composta basicamente por países do sudeste asiático, especialmente a China. Estes países têm como estratégia exportar poupança para a economia americana através de uma produção maior do que suas necessidades de absorção, crescem, portanto, com despoupança externa, exportando enorme volume de bens industriais complexos. As “capital account regions”, compostas principalmente pela Europa e América Latina, optaram por se integrar financeira e não comercialmente ao sistema global, com a exceção da economia alemã e leste da Europa. Nessa estratégia, a manutenção de um superávit na balança comercial e nas contas correntes não é prioritária.

Como o superávit comercial e em contas correntes é uma meta da “current account region”, sua estratégia básica é praticar um câmbio relativamente desvalorizado com fortes intervenções no mercado cambial para promover a produção manufatureira e industrial. Em caso de necessidade podem também utilizar controles de capital, como na China, que auxiliem nessa tarefa. A maior dificuldade dessa estratégia é evitar pressões especulativas no sentido de apreciação da moeda. O acesso a fundos é dificultado a agentes privados e o governo controla o mercado de câmbio através da autoridade monetária que compra reservas e as aplica em títulos americanos. No caso dos países das “capital account regions”, os eventuais superávits em conta corrente se transformam em apreciação cambial que reduz ou anula o estímulo exportador; foi a rota seguida pelos países da America Latina. Nesse modelo, privilegia-se o retorno das aplicações dos agentes privados no sistema internacional. Esses países operam sem controles de capital e com câmbio flutuante.

Em termos históricos, esse arranjo reproduz o esquema da economia mundial no pós-guerra. No arcabouço original de Bretton Woods, o centro do sistema eram os Estados Unidos e a periferia a Europa Ocidental e Japão. A estratégia de reconstrução dessas economias seguia o padrão observado hoje. Através de um crescimento liderado pelo setor exportador, os países destruídos na guerra reconstruíram seu estoque de capital e seu parque produtivo manufatureiro e industrial. Praticavam taxas de câmbio fixas e controles de capital que contribuíam nessa direção, sendo importante notar que à época os controles de capital eram obrigatórios e não opcionais. Com o desenvolvimento econômico surgiu naturalmente um lobby contrário aos controles de capital que seriam abolidos no início dos anos 70. O desenvolvimento industrial levou a um desenvolvimento financeiro que no final do processo desmontou o arranjo de Bretton Woods.

Desde o início dos anos 2000 a periferia do antigo sistema de Bretton Woods (antes Europa Ocidental e Japão) foi recarregada e assistimos a um processo parecido com que se observou entre os anos 50 e 70, agora capitaneado pela enorme economia chinesa. Uma das questões que ainda não está clara dentro desse contexto é a sustentabilidade dos déficits americanos. A visão padrão contida nas idéias do consenso de Washington teme um ajustamento abrupto desse arranjo que traria conseqüências negativas para a economia americana e para o resto do sistema mundial. Na visão do sistema de Bretton Woods revivido, esse ajustamento seria gradual e ainda poderia levar muito tempo. Como destacam, o arranjo é funcional para o desenvolvimento da região asiática que vem crescendo de forma sustentada e incorporando mão de obra ociosa ao seu mercado de trabalho nos últimos anos (Dooley et al 2004a).

Somente a China contaria ainda com 200 milhões de trabalhadores que poderiam entrar no mercado de trabalho. Essa a estratégia de desenvolvimento da “current account region” que é plenamente compatível com os objetivos americanos atuais de crescimento com endividamento. Dentro dessa lógica, a apreciação do dólar frente às moedas asiáticas significa acréscimo do componente consumo do gasto americano e redução de suas exportações como espelho do balanço de pagamentos asiático. O câmbio subvalorizado chinês para estimular as manufaturas complexas foi, portanto, parte de uma estratégia que vem dando certo já desde os anos 80. Ao promover a competitividade de seus produtos, o governo chinês foi capaz de implementar, junto com outras políticas, um enorme upgrade na indústria chinesa.

Esse modelo de crescimento puxado por exportações tem funcionado muito bem, como aliás funcionou no Japão, Coréia do Sul, Taiwan e até mesmo na Malásia, Indonésia e Tailândia. No caso chinês, as reservas já passam de 3 trilhões de dólares e o volume de exportações já se aproxima da casa do 1 trilhão (em 1980 Brasil e China exportavam num ano 20 bilhões de dólares). Para segurar a taxa de câmbio, a China tem um grande aparato de controles de capital e faz pesadas intervenções no mercado. Transações financeiras com o resto do mundo são fortemente controladas, muitas delas proibidas até. O governo chinês é um comprador voraz dos dólares gerados a partir dos mega superávits na conta corrente e comercial. Não deixa o câmbio se apreciar, como deveria ser num sistema mais pró-mercado. O ‘abandono’ do câmbio fixo desde 2010 se deve a enorme pressão sobre o regime. Apesar de ter anunciado em 2010 que não mais adotaria um regime de câmbio fixo, o governo chinês continua a fazer pesada administração de sua taxa de cambio.

Foi um modelo de estrondoso sucesso no sentido de criar complexidade tecnológica (gráfico acima), capacidades locais de produção, aumentos de produtividade e crescimento sustentado de renda per capita. A China passou para o grupo de encomias mais sofisticadas do mundo em termos tecnológicos e se tornou a segunda maior economia do planeta. Esse modelo de crescimento começou, entretanto, a se esgotar em 2008 com a grande crise americana. A partir daí Beijing seguiu uma nova estratégia. Estímulos monetários e creditícios. Desde então o crédito por lá explodiu e um sistema paralelo (shadow) financeiro surgiu. Muitos excessos foram cometidos e os desequilíbrios atuais são fartos. A bolha atual ual do mercado acionário chinês é resultado de mais uma das tentativas do governo central de promover crescimento ainda na esteira da crise financeira americana de 2008. Depois da onda de expansão de crédito público, gastos em infra estrutura e construção civil estimuladas por Pequim nos últimos anos, a expansão do mercado acionário passou a ser vista como possível solução para reciclagem das enormes dívidas criadas nos anos recentes e mais um canal para receber as poupanças das famílias que deixaram de ir para os imóveis.

Esse parecia ser o plano ideal, entretanto o crescimento vertiginoso do mercado acionário chinês se assemelha hoje muito mais a uma mania especulativa insustentável do que a uma reciclagem saudável de dívidas e poupanças. O desfecho mais provável desse processo será uma intensa correção do mercado acionário que agravará ainda mais a já penalizada economia chinesa em termos de capacidade de gerar taxas de crescimento elevadas por conta da alavancagem excessiva promovida nos últimos anos. Todos sabem que o milagre japonês morreu no crash de 1990 e os milagres de Coréia, Malásia, Indonésia e Tailândia acabaram na crise de 1997. Como será a aterrisagem chinesa? Os últimos dados de crescimento mostram que ainda é o investimento agregado que puxa a demanda chinesa. As exportações tem contribuição já bem mais fraca na margem e o consumo cresce a taxas menores.

Esse modelo de crescimento é insustentável pois não será possível utilizar tanta capacidade instalada por muito mais tempo; a deflação nos preços de atacado que dura já 40 meses é um sinal bem claro disso. O excesso de investimento (próximo de 50% do PIB) também é um problema. Quando esse surto de investimento passar a China finalmente se tornará um país “normal” com taxas de crescimento mais civilizadas na casa dos 4%ou 5% talvez. As antigas taxas de crescimento da economia chinesa não são replicáveis, o motivo é simples. Nenhum país consegue crescer de forma sustentável investindo 50% do PIB. Podemos discutir se a velocidade de transição para uma economia normal será rápida (soft landing) ou lenta (hard landing).

O que é uma economia normal? É uma economia que consome entre 60% e 70% do PIB e investe 30% ou menos. O caso chinês é uma “aberração” produzida por crédito direcionado e fortíssima intervenção estatal no sentido de criar infraestrutura (portos, rodovias, ferrovias e aeroportos), capacidade de produção industrial e construções residenciais e comerciais. Representando menos de 40% do PIB, o consumidor chinês ainda não é capaz de manter a economia crescendo a 7,5% ao ano. Talvez seja no futuro, mas não agora. Se o setor de construção civil parar e o governo interromper os investimentos em infraestrutura, o crescimento chinês cairá rapidamente abaixo dos 7% (se é que já não esta lá); o altíssimo nível de poupança das famílias chinesas só agrava o problema de tentar sustentar o crescimento com base no consumo.

A queda nos preços das principais commodities do mundo já é sinal disso; o minério de ferro abaixo dos U$60 também. Claro que o governo chinês poderá continuar com sua estratégia de ondas de estímulos, apesar de se apresentar como um governo reformista. Mas o modelo de crescimento chinês já está exaurido pelo simples motivo de não haver mais demanda para 6 trilhões de dólares por ano de nova capacidade instalada. Investir 50% do PIB também é um problema e revela uma economia com enormes problemas. A debacle atual dos mercados acionários chineses é mais uma evidencia desses inúmeros processos de desequilíbrio ora em curso na economia.

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Referencias

DOOLEY, M., P., LANDAU, D., F., e GARBER, P., (2005) “Interest rates, exchange rates and international adjustments”, NBER Working Paper 11771, November.

_________________________________________, (2004a) “Revived Bretton Woods End Game: direct investment, rising real wages and the absorption of excess labor in the periphey”, Festschrift in honor of Guillermo A. Calvo, IMF, April.

_________________________________________, (2004b) “The revived Bretton Woods System: the effects of periphery intervention and reserve management on interest rates and exchange rates in center countries”, NBER Working Paper 10332, March.

________________________________________, (2003) “An Essay on the revived Bretton Woods System”, NBER Working Paper 9971, September.

EICHENGREEN, B. (2007), The real exchange rate and economic growth. UC Berkeley, 2007. Mimeografado.

________________, (2004) “Chinese Currency Controversies”, presented to the Asian Economic Panel, 12-13 April, a revised and edited version is forthcoming in Asian Economic Papers.

________________ e HATASE, M., (2005) “Can a rapidly-growing export-oriented economy smoothly exit an exchange rate peg? Lessons for China from Japan’s high-growth era”, NBER Working Paper n.11625, September, Cambridge, MA.

1 thought on “O milagre chinês visto da ótica da complexidade”

  1. Isso talvez seja impossível no Brasil, pois aqui as Commodities sustentam o país. E nenhum governo iria conseguir fazer isso por muito tempo. O superavit e as colheitadeiras iriam fazê-lo mudar e permitir um dólar 5×1 real.

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