O paradoxo do café no Brasil

Vejamos o caso do café no Brasil que é bem interessante. O Brasil é café; sem café não teríamos nos industrializado e São Paulo não seria São Paulo. Talvez outra commodity tivesse desencadeado nossa industrialização como foi o caso do algodão do sul americano para a indústria que surgiu na nova Inglaterra a partir dos serviços de transporte (NY, Filadelfia, Baltimore e Boston) para as tecelagens inglesas (ver aqui). Mas fato é que devemos nossa configuração espacial e econômica principalmente a essa planta: o café. E hoje, como esta esse mercado? Dos 60 milhões de sacas produzidas por ano no país, 20 milhões são consumidos por aqui e o resto exportado. O Brasil segue sendo o maior exportar do mundo (gráfico acima) logo a frente de Suíça e Alemanha. Suíça e Alemanha? Sim, apesar de não plantarem um único pé de café, dominam parte relevante do mercado de café no mundo. Em termos de cápsulas e extratos, aparecem em 2014 como exportadores relevantes também. O mercado de cápsulas ilustra bem a pobreza do Brasil em termos de capacidade de adicionar valor aos seus produtos básicos e subir na escada tecnológica rumo ao desenvolvimento econômico.

A mais recente fábrica da Nespresso construída na cidade alemã de Schwerin representa um dos maiores investimentos feitos no setor nos últimos anos. A escala de produção e a localização da cidade de Schwerin no centro da rede consumidora europeia tornam a competição para empresas brasileiras muito difícil. Na fábrica, os 350 empregos gerados pagarão salários interessantes e adicionarão ainda mais riqueza a região. O saco de café de 60kg que sai no Brasil a R$400 ou seja, R$6,6 o quilo, se transforma numa cápsula que é vendida no varejo por R$400 o quilo. O preço remunera a construção da fábrica e gera um fluxo de salários (e “produtividade”) lá bem maior do que aqui. Depois a cápsula é reexportada para o Brasil e vendida por um preço 70 vezes maior do que o preço de saída. Aqui um lojista no Brasil ganha um salário baixo de serviço não sofisticado para vender a cápsula. O “barista” consegue ainda adicionar algum valor para tentar vender o produto um pouco mais caro. O ciclo de pobreza e riqueza do café se fecha então. Quem ganhou dinheiro mesmo foram os alemães e suíços que “processaram” o café.

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mesmo raciocínio para cacau e chocolatecacau choco

5 thoughts on “O paradoxo do café no Brasil”

  1. Excelente reportagem. Atualmente já são produzidas capsulas de café no Brasil por vários fabricantes, porém a maior parte delas com tecnologia importada. Portanto acredito que as empresas nacionais deveriam investir pesado em desenvolver uma tecnologia própria que garanta o sabor do café brasileiro e que não gere resíduos no descarte das capsulas.

  2. Interessante. Em relação à primeira parte, o café criou as condições para a industrialização de São Paulo. Porém, o mesmo não ocorreu com a cana-de-açúcar em Pernambuco, nem com o cacau na Bahia e muito menos com a atividade seringueira no Pará e no Amazonas. Por que? Porque somente em São Paulo a elite cafeeira criou relações genuinamente capitalistas de produção. Instituiu pioneiramente no Brasil um mercado de trabalho em massa (imigraçao) acompanhado de um intenso processo de urbanizaçao. Instituiu sistemas integrados de transportes e logística (estradas de ferro/armazéns/porto) com pontos de recepção e armazenagem do produto espalhados por todo o território do estado, estimulando ainda mais a criação de novos centros urbanos. Assim, fez surgir um setor terciário significativo e uma classe média urbana numerosa e pronta para consumir produtos industrializados. A atração de capitais estrangeiros para financiar a geração e distribuição de energia elétrica e a expansão das estradas de ferro integrando ainda mais o território paulista veio quase como uma consequência natural. As demais regiões produtoras de primários no Brasil adotaram um sistema baseado em relações pré-capitalistas de produção, com concentração de propriedade e exploração servil da força de trabalho. Não criaram um mercado de trabalho e tampouco foram capazes de criar estruturas dinamizadoras da atividade econômica. Permaneceram no atraso. Interessante ler “Raízes da Concentração Industrial em São Paulo” de Wilson Cano.

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