O trauma de 2015 e 2016 no Brasil

O Brasil passou por grande trauma entre 2015 e 2016 com queda do PIB acumulada em mais de 8%, talvez a nossa pior crise dos últimos 50 anos. Muitas são as explicações para tamanho tombo; a melhor delas para mim tem o seguinte enredo. O país passou por forte expansão de crédito e alavancagem entre 2003 e 2013. O consumo, salários e preços se expandiram muito. A economia chegou no pleno emprego, o déficit em conta corrente bateu 4% do PIB com a moeda brasileira valendo bem mais do que deveria valer. As políticas fiscal e monetária seguiam expansionistas desde 2009. Na tentativa de prolongar um ciclo de expansão de crédito e consumo já insustentável o governo Dilma desonerou bens de consumo e represou preços públicos para tentar manter na inflação na meta, não funcionou. O país não voltou a crescer e a inflação ficou no teto da meta. Após a reeleição a equipe econômica aplicou um cavalo de pau no país, soltando preços públicos de maneira abrupta, contraindo gastos públicos e levando a selic de 7,25%, ainda antes da eleição, a 14,25%. O golpe monetário numa economia que vinha de um ciclo de aumento de endividamento de mais de 10 anos foi fatal para empresas e consumidores. A explosão dos preços administrados, aliada a uma explosão de incerteza e grande desvalorização cambia levaram o IPCA a 10%. O derretimento do preço internacional das commodities em 2015 agravou esse movimento. A implosão da arrecadação tributária somada à rigidez de gastos trouxe enorme déficit público primário, que aliás já começava a dar sinais de vida ainda em 2014 com a política de desoneração tributária. O caos político de 2015 e 2016 só agravou uma situação que já estava para lá de dramática. O Brasil perdeu o grau de investimento, os ativos derreteram e o resto é história.

Essa breve explicação do trauma nos acometeu é importante para entender o que ocorre hoje é o que virá nos próximos anos. Ainda em 2016 o trauma começou a ser revertido, ainda que de maneira lenta. Os quatros indicadores chave desse momento dramático foram inflação a 10%, câmbio a R$4, déficit primário acima de 150bi e PIB caindo 4%. O que tem ocorrido desde então? A exata reversão desse movimento traumático. A inflação cedeu por conta de enorme recessão e desemprego, auxiliada pela apreciação cambial que surgiu com a sobre de dólares e lenta recuperação do país. Só em importações passamos a “economizar” u$100bi por ano graças a atividade deprimida. A atividade econômica começou a se recuperar no início de 2017 com a retomada da confiança de consumidores e empresários . A arrecadação começou a dar sinais de melhora junto com a atividade e a política fiscal contracionista do governo temer contribuiu para uma melhor perspectiva de contas públicas mesmo sem reforma da previdência. O banco central derrubou a selic, ainda que de maneira lenta, de 14,25% a 7%; a inflação despencou por conta da recessão, apreciação cambial e queda de preços de alimentos. Em 2018 temos chance de crescer 3%, com inflação abaixo 4% e câmbio comportado na casa dos 3,20. A contas públicas seguirão melhorando graças principalmente ao aumento da atividade.

Nosso CDS acompanhou toda essa trajetória saindo de 150 em 2013 para bater 500 em 2015 e agora voltar abaixo dos 150. A bolsa caiu a 39.000 quando o câmbio foi a R$4,25 e os juros longos bateram 17%. As NTNB longas foram a juros reais de 8%. Desde o pico do stress com a perda do grau de investimento em 2015 o rally tem sido intenso. Bolsa voltou às máximas, juros nominais e reias se aproximando das mínimas. O câmbio chegou a flertar com R$3,00. O Brasil volta aos poucos ao normal, o trauma passou. Quando todo o processo tiver finalmente se desenrolado nossos preços de ativos estarão ainda maiores e recuperaremos o grau de investimento. A reforma da previdência necessária pode adiantar ou atrasar esse processo, mas vira em alguma forma de qualquer maneira. Essa recuperação cíclica é o que é. Não resolve nossos problemas de pobreza produtiva estrutural e desindustrialização. Para nos desenvolvermos de fato precisamos de muito mais do que controlar as contas públicas. A boa notícia é pelo menos estamos já próximos de uma normalidade, ainda que medíocre.

6 thoughts on “O trauma de 2015 e 2016 no Brasil”

  1. Paulo Gala com todo respeito essa análise gostaria de fazer algumas considerações:

    Primeiramente é impossível explicar a queda na economia sem falar em Lava Jato e os efeitos da operação na economia. Você pode ser contra ou a favor a operação, mas não tem como negar seus efeitos para a construção civil e a indústria petroquímica, que eram setores vitais para a taxa de investimento.

    A Dilma teve seus erros na condução da política econômica, principalmente com o cavalo de pau que tentou dar na economia no início de 2015, com aumento dos preços administrados e forte ajuste. Também errou nas desonerações sem contrapartida nos anos anteriores, o que acabou não gerando investimento como nas desonerações feitas em 2009. Porém, mesmo com a queda nos preços das commodities, o alto endividamento das empresas, não é possível explicar uma queda dessa proporção do PIB. É bom também salientar que o principal causador do déficit foi a queda de arrecadação e não um aumento descontrolado de gastos.

    Por fim, não sei onde você vê esse cenário otimista. Não há a menor possibilidade de termos uma recuperação econômica só com retomada da confiança empresarial, no máximo um crescimento baixo baseado em fatores externos como foi 2017.

    Nossa capacidade ociosa permanece alta, os bancos públicos estão sendo sucateados e não fornecerão financiamento para o setor privado, muito menos os bancos privados que nunca forneceram crédito para investimento vão fornecer agora. Além disso, o mercado doméstico deve se manter retraído e a renda com sorte se manterá estável se não cair com a retirada dos direitos, o que vai desestimular o empresário. Fora isso, temos um cenário externo que indica o aumento dos juros nos EUA, o que vai afetar nosso cambio e política monetária.

    Essa política liberal do governo Temer e dos chamados candidatos de centro é insustentável para um próximo mandato. Caso se mantenha essa diretrizes na economia, nos manteremos estagnados ou em queda dependendo do que ocorrer na economia global.

    Também é bom lembrar que esse modelo de desenvolvimento só cria riqueza e renda para os mais ricos, é extremamente concentrador de renda, a grande maioria da população só sente perda de direitos e de seus ganhos

    1. A ex -Presidenta Dilma não precisou dar nenhum cavalo de pau na economia . Já em 2012 os empresários paulista foram em comitiva a Brasília pedir a redução do preço da energia elétrica e a ex- Presidenta concedeu a redução do preço da energia elétrica para tanto para a industria como para o consumidor doméstico e a Globo não poupou críticas a decisão do governo. Mas o problema dos empresários era o gás de xisto. Eu cheguei a pensar que o gás de xisto era obtido a partir da rocha de xisto consolidada e é obtido a partir da rocha de xisto mal consolidada que sob pressão da água libera o gás de xisto. O xisto nem commodity é e o resultado é uma energia elétrica barata produzida a partir de termoelétricas. E em 2015 ocorreu a crise hídrica no Sudeste e acompanhada do fim do ciclo de crescimento dos preços das commodities. Fala-se que o Brasil perdeu 12 bilhões de dólares com a redução dos preços das commodities. E isso se somou aos prejuízos na agricultura e na industria porque a seca teve efeito danoso sobre a produção agrícola e sob o fornecimento de energia elétrica que tornou cara e boa parte produzida por termoelétricas movidas a óleo combustível. Foi um momento duro que deixou uma lição: o país não pode ficar só dependente de commodities. Os nossos empresários tem que lutar para competir para não serem alijados do nosso mercado interno e isso significa produzir manufaturados de boa qualidade e a bom preço. E precisamos diversificar nossas fontes de energia, buscando energias mais baratas e não poluentes. Investimentos em infraestrutura é outra prioridade. O século XXI chegou para valer.

  2. O texto elaborado pelo Prof. Paulo Gala mostra que a crise de 2015 a 2016 foi gerada em um ambiente para uma tempestade perfeita: bolha de crédito, salários valorizados pelo pleno emprego, queda no preço das commodities, déficit em conta-corrente etc.

    Com relação à política de desonerações para as indústrias, acredito que elas devem sempre ser atreladas a metas de eficiência e de desenvolvimento tecnológico. Foi assim que a Coreia do Sul deixou de ser um país de renda média.

    Quando é discutida a reforma da previdência fala-se apenas no montante que deveria ser bancado pelo Estado para a seguridade social. Todavia, deixa-se de discutir o impacto que o aumento de produtividade dos trabalhadores poderia ter sobre o déficit da previdência em relação ao percentual do PIB. Se o país produzisse maior riqueza por trabalhador, o déficit da previdência relativo ao PIB seria menor. Por isso, acredito que o déficit da previdência com relação ao PIB (percentagem do PIB) deveria ser mais usado que o montante para uma análise temporal da série histórica do déficit da previdência.

  3. Paralelamente ao real valorizado a indústria foi encolhendo levando junto atividades colaterais. Nunca tivemos tantas placas de aluga ou vende em pontos comerciais. O futuro é preocupante, pois se fortalece a tarefa de produzir Commodities, as habilidades técnicas vão se perdendo, surgem empregos de pouca qualificação, com isso a economia não deslancha e proliferam negociatas de todo tipo. Qual a causa efetiva desse desmanche?

    1. Não se reduz o custo Brasil com essa reforma trabalhista que está em vigor , com reforma da previdência que está sendo proposta e muito menos com redução de gastos públicos por 20 anos. É preciso investir em energias não poluentes e baratas como a energia eólica ( dos ventos) e voltaica ( do sol). É preciso investir em infraestrutura como construção de ferrovias, navegação de cabotagem e hidrovias e assim por diante. Como disse o ex -Presidente Lula: “todo mundo quer exportar”. Com o uso de tecnologia e de uma mão de obra produtiva, nossos empresários tem que ser competentes na disputa pelo mercado interno. E o nosso mercado interno é valioso e desperta ambições lá fora.

  4. Paulo Gala, aprecio seus textos e análises. Gostaria de acrescentar um ingrediente nessa receita: a ação das grandes potências no controle dos países subdesenvolvidos. A história evidencia que até recentemente essa turma do hemisfério norte colonizavam povos a bala. O que nos faria acreditar que esse “espírito” de captar(ou capturar) as riquezas ao redor do mundo cessou? Por exemplo o ciúmes do secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson um dia desses: “ei China, saia daí! essa colônia é minha!”
    Outro exemplo: Se não fosse o lobby de companhias americanas para aumentar as vendas de automóveis nos anos 50 e 60 “em vez de priorizar o asfalto, tivéssemos investido em trilhos, provavelmente teríamos mais cidades de médio porte e menos metrópoles, minimizando ou eliminando o flagelo das periferias das grandes cidades, que, hoje, concentram os piores indicadores sociais do país” https://super.abril.com.br/comportamento/o-trem-fosse-o-principal-transporte-no-brasil/
    Hoje a reserva estimada de petróleo do Brasil é semelhante a do Iraque(lá fizeram uma guerrinha) supera os 100 Bilhões de barris, mais que 6 Trilhões de dólares, R$ 20.000.000.000.000,00!!!!! Aqui saiu mais barato alugar uns políticos, a evidência disso? Hercule Poirot explica: quem foi beneficiado pelo crime? Veja o valor que venderam blocos gigantescos do pré-sal, a recente mudança das alíquotas de extração, quem comprou as reservas e saberás…
    Só esse petróleo seria suficiente para alavancar o Brasil por 3 décadas, mais universidades, mais engenheiros no mercado, quem sabe nossa manufatura aumentasse naturalmente a “complexidade”, como seus excelentes textos explicam nossos garçons ganhariam mais! Só que não, ao que parece, essa riqueza será processada por gringos lá fora. (os gringos sabem o potencial e cortaram na raiz).
    O futuro do Nióbio e do Grafeno também poderiam mudar totalmente a nossa direção, os próximos capítulos das mesmas derrotas assistiremos na TV.

Deixe uma resposta