Origens do Desequilíbrio Regional no Brasil

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Neste capítulo* estudaremos alguns aspectos da origem de nossa desigualdade regional. Concentraremos nossa análise no período entre 1850 e 1930. Veremos que nessa época ocorreram os principais fatos ou dinâmicas responsáveis por nossa configuração territorial. Em outros termos, discutiremos mais detalhadamente os determinantes históricos de nosso desenho geográfico atual. Sabemos que o país apresenta grandes desigualdades regionais. Praticamente 22% de nossa população concentra-se no Estado de São Paulo. A região da grande São Paulo especificamente abriga hoje em torno de 8% da população do território nacional. A Tabela 10.1 nos mostra a distribuição espacial de pessoas no Brasil.

tabela 10.1 – distribuição da população brasileira em 2000
Regiões População
Norte 7.828.407
Nordeste 46.400.796
Sudeste 70.067.880
Sul 24.514.219
Centro-Oeste 11.273.592
Total 160.336.471
Fonte: IBGE – Censo 2000.

Em termos econômicos, a situação é a mesma. Mais da metade da produção industrial está na região Sudeste. Se somarmos as indústrias do Sul e Sudeste encontraremos porcentagem ainda maior de concentração. Em termos de serviços encontrados principalmente nos pólos urbanos e na agricultura, a situação não é diferente. A Tabela 10.2 dá uma idéia de nossa desigualdade econômica atual nas várias regiões.

Tabela 10.2 – A produção brasileira dividida por regiões em 1996

Região PIB (%)
Norte 4,7
Nordeste 12,4
Sudeste 60,2
Sul 15,9
Centro-Oeste 6,9
Fonte: MACIEL, Vladimir F. Desigualdade Regional, Abertura Comercial e o Mercado de Trabalho no Brasil. Local, 2000. Dissertação de Mestrado – FGV.

Veremos nas próximas páginas os principais movimentos históricos que condicionaram nosso território. Pelo que está posto nos dados acima, nossa principal tarefa será entender o papel peculiar e destacado que tiveram a cidade e o Estado de São Paulo em nosso país. Veremos que nessa região estão as sementes de nossa formação territorial. Podemos começar analisando alguns dados urbanos brasileiros a partir da metade do século XIX. A Tabela 10.3, que contém a população da época nas principais cidades do país, apresenta uma situação curiosa e, de fato, bastante distinta dos dados que observamos acima.

tabela 10.3 – População de algumas cidades brasileiras no período 1790-1930

Anos Salvador Recife Rio de Janeiro São Paulo
1790 40.000 25.000 43.000 15.000
1872 129.000 117.000 275.000 32.000
1890 174.000 112.000 523.000 65.000
1900 206.000 113.000 811.000 240.000
1920 280.000 240.000 1.158.000 579.000
FONTES: Censos populacionais e RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Em 1872, São Paulo apresenta-se como uma pequena cidade brasileira, com uma população bastante menor do que a de outros centros. Devemos, portanto, tentar explicar como uma pequena vila, de posição coadjuvante em 1872, é capaz de se tornar centro financeiro, industrial e populacional do país em pouco mais de um século. Nosso trabalho vai, entretanto, somente até 1930, pois entendemos que a partir daí já estariam lançadas as bases que colocariam a cidade e o estado de São Paulo em sua posição atual.

Na verdade, não só as cidades se apresentavam com pouca concentração — como nos mostra a Tabela 10.3 — no final do século XIX, mas também todo o território nacional mostrava-se razoavelmente desconcentrado regionalmente. Desde o Extremo Sul até o Extremo Norte — excluindo-se alguns territórios do Centro-Oeste — podemos encontrar vilas e pólos econômicos espalhados por todo o nosso território. Os gaúchos com a pecuária, o açúcar no Nordeste, a borracha na Amazônia, enfim, atividades que atraíam a população e davam vida econômica a uma região. Se São Paulo atingiu tamanho progresso, por que o mesmo não ocorreu nessas áreas? Sem muito nos aprofundar, já é possível identificar que algo de especial e peculiar aconteceu nesse Estado, capaz de levá-lo a tamanho avanço. De fato, os estudos históricos nos mostram que a revolução econômica pela qual São Paulo passou entre 1850 e 1930 foi, em última análise, a causa principal de seu progresso econômico.

Para facilitar nosso estudo iremos dividir o Brasil da época em 6 regiões. Poderíamos considerar que todas essas regiões possuíam, hipoteticamente, o potencial de sofrer a transformação observada em São Paulo. São elas: Amazônia, Nordeste, Extremo Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Conforme nossos objetivos, essa divisão será bastante útil. Tendo como referencial a transformação paulista, analisaremos cada região para identificar suas causas de estagnação ou de crescimento lento. O que pretendemos entender é o porquê da não-decolagem destes pequenos pólos econômicos.

Falamos em revolução econômica e transformação de São Paulo como responsáveis por sua trajetória positiva. Mas o que significa exatamente isso? Que revolução foi essa? Aqui encontramos o âmago de nosso problema. Veremos que a região paulista foi a primeira a atingir a chamada revolução capitalista industrial, ou seja, transitar de formas arcaicas de produção, principalmente baseadas na relação de trabalho escravo e servil para as chamadas relações capitalistas de produção. O progresso paulista vai nos mostrar, na prática, a construção das instituições clássicas do capitalismo industrial. Observaremos, assim, o surgimento de bancos, a organização do trabalho assalariado, a constituição de um mercado interno, a introdução de máquinas no processo produtivo, o grande aumento da produtividade do trabalho e da terra e, portanto, seu excedente econômico, enfim, a conhecida transição de uma economia para a etapa do capitalismo industrial[2].

De certo modo, o estudo das diversas regiões vai nos mostrar uma seqüência de malogros em atingir ou estabelecer as instituições necessárias para o funcionamento do capitalismo moderno. As relações de trabalho na Amazônia, a estagnação técnica no Nordeste e outros problemas impedirão que essas regiões atinjam o progresso paulista. Analisemos, portanto, as peculiaridades de cada área, pois só assim poderemos entender as origens de nossa configuração territorial moderna.

10.1 A Amazônia e o Ciclo da Borracha

Nossa primeira região de destaque será a amazônica. Sabemos que no período que ora analisamos, essa área torna-se grande fornecedora de látex para o mercado internacional, característica que lhe rendeu o título de economia da borracha à época. Tratada por alguns como um surto, essa atividade econômica atingiu volume bastante considerável, exportando no período 1870-1920 quase a metade do volume do café paulista. A Tabela abaixo ilustra um pouco melhor essa questão.

Tabela 10.4 – Exportações de Café e Borracha (em 1.000 contos).

Anos Borracha (AM) Café (SP) AM/SP
1871 – 1880 107,9 221,8 48,6%
1881 – 1890 185,5 490,7 37,8%
1891 – 1900 1.163,3 2.860,0 40,7%
1901 – 1910 2.268,8 2.899,2 78,3%
1911 – 1920 1.406,8 4.942,0 28,5%
 FONTE : Anuário Estatístico Brasil, IBGE,1939-40 e outros censos – dados organizados por Cano (1998a).

Vemos que, no início dos anos de 1900, o volume de borracha exportado na Amazônia se aproxima muito do montante do café que já era, nessa época, a atividade mais dinâmica do país. De fato, nessa década, atinge-se um terço do total das exportações brasileiras. A renda gerada pela extração da borracha foi bastante significativa, tendo em vista o grande contingente de mão-de-obra do Nordeste[3]. Como aponta Darcy Ribeiro,

As cidades crescem, enriquecem e se transformam. Belém, no delta, e Manaus, no curso médio do rio Amazonas, tornam-se grandes centros metropolitanos, em cujos portos escalam centenas de navios que carregam borracha e descarregam toda sorte de artigos industriais. Uma ferrovia é constituída em plena mata, à custa de enormes sacrifícios humanos, a madeira —- Mamoré, que ligaria concentrações de seringueiras de Porto Velho até o rio Mamoré, na fronteira da Bolívia, região longínqua desgarrada da Bolívia e incorporada ao Brasil[4].

Vejamos por que então a economia extrativista amazônica não deslancha, caminhando para um processo sustentado de industrialização como foi o caso paulista. Podemos citar três principais motivos que explicam tal fenômeno. Inicialmente, deve-se destacar o problema das relações de trabalho na economia amazônica. Apesar de se utilizar de trabalho livre, funcionava o chamado esquema do aviamento . Não havia salários e as remunerações eram feitas em bens de produção e subsistência, com parcas parcelas em dinheiro.

Sua cadeia produtiva tinha três principais agentes: as casas exportadoras, os intermediários e os aviados, que faziam a extração na floresta. Os primeiros, mais fortes obviamente, comandavam o processo, fornecendo crédito e impondo preços a seus parceiros praticamente em nível de subsistência. Os intermediários, por sua vez, davam seqüência à cadeia, repassando a exploração aos aviados, que eram os praticantes diretos da atividade extrativa propriamente dita. Em segundo lugar, deve-se notar que o sistema de transporte necessário para a viabilidade da economia da borracha já encontrava-se implantado: consistia-se dos rios e canais fluviais abundantes naquela região. Veremos então que um importante componente de estímulo industrial que foram as ferrovias em São Paulo, não estará presente nesta área.

Por último, observamos que pela própria natureza da atividade extrativista e da geografia local, uma agricultura mercantil de alimentos não se desenvolve, fator relevante no processo de industrialização paulista. Não surge assim um comércio de alimentos, já que o modo de vida dos aviados baseava-se primordialmente na extração do látex e em atividades de subsistência. Não é difícil perceber, portanto, que tal sistema não contribuía para um processo de industrialização. O não-assalariamento dificultava a constituição de um mercado regional interno. A própria natureza do trabalho, atomizado e individual, não levava ao surgimento de empresas. O processo de urbanização apresentava-se de forma limitada e por fim, a maioria dos lucros era transferido para o exterior, como contrapartida do capital estrangeiro, ou gastos em bens de luxo. Enfim, reinava a lógica do capital mercantil: lucro no processo de circulação e não a do capital industrial, lucro no processo produtivo.

A forma de internação do homem na floresta, para extração do látex, o fato de não se fazer aberturas de terras, e a grande necessidade de mão-de-obra por parte da atividade principal impediram que ali se desenvolvesse uma agricultura comercial produtora de alimentos. A despeito de ocupar mão-de-obra livre, não criou o assalariamento, transformando sua mão-de-obra, através da economia do aviamento, em produtores diretos. Sua estrutura de comercialização e o domínio exercido pelo capital mercantil (nacional e estrangeiro) atomizaram o uso de parte do excedente, internamente, permitindo grande evasão para o exterior, com importações de bens e serviços e remessas de lucros e juros.[5]

Ou seja, os elementos essenciais ao processo de desenvolvimento paulista — como veremos mais adiante —, não se encontravam nas raízes da dinâmica da economia da borracha. Apesar do surgimento de algumas pequenas indústrias de madeira, alimentação, bebidas e fumo, neste período, a economia amazônica não é capaz de construir as bases de um desenvolvimento industrial sustentado. Sua produção industrial, que em 1907 correspondia a 4,3% to total nacional, em 1919 representa apenas 1,3%.

10.2 O Nordeste: Açúcar, Algodão e Agropecuária de Subsistência

Vejamos agora o caso nordestino. Como a região precursora de nossa colonização, sabemos que, no período colonial, uma vigorosa acumulação local era praticamente impossível, por causa da própria natureza do sistema da época. Cabia à metrópole defender o seu exclusivo, maximizando a extração do excedente colonial. No século XIX, e mais especificamente com o final do trabalho escravista, poderíamos esperar que esta região florescesse visto que já se encontrava livre das amarras metropolitanas e pronta para transitar para o trabalho assalariado. Observemos por que tal fenômeno não ocorreu.

Para melhor entendermos o caso nordestino, dividiremos suas principais atividades econômicas em dois grandes grupos: as de subsistência — pecuária e agricultura alimentar — e as de exportação — cana de açúcar e algodão.

Começando pelo açúcar, percebemos que a região vem de uma situação bastante negativa. A queda de seus preços apresenta-se de forma violenta, como podemos observar na Tabela abaixo.

tabela 10.5 – Preços do Açúcar em Libras por tonelada

Período Preço
Início do século XVII 120
Início do século XVIII 72
Início do século XIX 30
Metade do século XIX 16
Início do século XX 9
FONTE: Principal : Anuário Estatístico do Brasil 1939/1940.

Como se não bastasse essa queda, o açúcar de cana passa a enfrentar enorme concorrência do açúcar de beterraba, que em 1882 atinge 50% do mercado mundial e 75% nos anos 1900. Além disso, o Nordeste passaria ainda a concorrer com a produção açucareira do sul do país. Destarte, por não representar estímulo suficiente, esse produto não é capaz de dinamizar a economia nordestina, a ponto de pôr em curso um processo do tipo surgido em São Paulo.

A cultura do algodão, que passa por um surto exportador no Maranhão em meados do século XVIII, parece aproximar-se mais do caso cafeeiro paulista, guardadas as devidas proporções. Apesar do grande aumento da produção americana do século XIX e da decorrente queda de preços, o algodão nordestino apresentará uma dinâmica razoavelmente sustentada, principalmente pela demanda, ainda que incipiente, da indústria têxtil brasileira no início dos anos 1900.

Operando também com trabalho livre e induzindo uma importante atividade industrial de beneficiamento, parece ter sido o algodão, guardadas as proporções relativas, uma atividade mais dinâmica, em termos de urbanização, comércio e industrialização, do que o açúcar. Acrescente-se a isso, o fato de que a baixa de preços do algodão, seu alto custo de transporte, e o tipo de embalagem requerida (tela de enfardamento), teriam estimulado a instalação local das primeiras fábricas têxteis de algodão, que produziam sacos e tecidos grossos, já a partir de meados da década de 1850.[6]

O que parecia uma atividade promissora industrialmente sofre, entretanto, grande revés a partir da crise de 1929. O avanço da cotonicultura paulista com técnicas mais eficientes e portanto com maior produtividade, faz com que essa importante atividade nordestina passe a um segundo plano, diminuindo sua força estimuladora para a área nordestina.

Se os produtos mais dinâmicos do Nordeste não puderam colocar a região numa trajetória industrializante como a paulista, que dirá de suas atividades produtivas mais arcaicas, a agricultura e a pecuária de subsistência. Evidentemente, ambos estão ainda mais longe de ocupar posição dinamizadora. Vejamos, entretanto, algumas de suas características a título de reforçar os fatores impeditivos de uma transição industrial.

Baseadas principalmente em trabalho individual e voltadas para o próprio sustento, essas duas atividades tiveram papel essencial para a formação do que Furtado chamou de imenso reservatório de mão-de-obra. Sem dinamismo e com produtividade muito baixa, essas atividades contribuíam para uma multiplicação lenta do excedente econômico, sendo muito mais importantes por questões de ocupação territorial do que por virtudes econômicas propriamente ditas. Como mostra Furtado,

[O setor de subsistência baseava-se] na pecuária e numa agricultura de técnica rudimentar, era mínima sua densidade econômica. [ ] Havendo abundância de terras o sistema de subsistência tende naturalmente a crescer e esse crescimento implica, o mais das vezes, redução da importância relativa da faixa monetária. O capital de que dispõe o roceiro é mínimo, e o método que utiliza para ocupar novas terras o mais primitivo.[7]

Apesar de não dinâmicas, permitiam a multiplicação da mão-de-obra e em geral apresentavam-se como opção para o recém introduzido trabalho livre. Não era à toa que a região nordestina contava com 40% da população nacional em 1900. Como aponta Darcy Ribeiro no trecho abaixo,

Com o gado e com os bodes crescia a vaqueirada, multiplicando-se à toa pelas fazendas, incapaz de absorver lucrativamente a tanta gente nas lides pastoris, pouco exigente de mão-de-obra. Assim é que os currais se fizeram criatórios de gado, de bode e de gente: os bois para vender, os bodes para consumir, os homens para emigrar.[8]

Vejamos o problema do não desenvolvimento industrial no Nordeste por outro prisma. Ou seja, a partir de seu processo de urbanização, sistema de transportes e do tipo de suas relações de trabalho. As ferrovias implantadas no Nordeste, principalmente pelo capital inglês, não apresentaram a lucratividade observada em São Paulo. Prova disto está na constatação de que, no início do século XX, a maior parte delas já havia sido tomada pelo governo federal. Apesar de reduzirem os custos de transporte de algodão e açúcar, não representaram, portanto, nova e importante opção de investimento como foram as ferrovias paulistas. A falta de dinamismo da economia açucareira e algodoeira dificultava a rentabilidade dos projetos ferroviários, os quais, por sua vez, representavam pouco estímulo industrial como ocorrera em São Paulo.

Em termos de urbanização, a situação não era diferente. As principais cidades nordestinas apresentavam crescimento muito lento e a própria natureza de suas atividades econômicas — açúcar, agricultura de subsistência e pecuária — não contribuíam em nada para um vigoroso processo urbanizador. De fato, a presença de atividades de subsistência fazia com que a transição do trabalho escravo para o livre fosse quase que uma mudança de nome. Ao absorver o trabalho livre, o interior nordestino replicava as rudimentares técnicas de produção escravistas, mantendo baixa produtividade na cultura de alimentos e gado.

Por tudo isso, o Nordeste não conseguia sair de seu ciclo vicioso. Não se formava um mercado interno com vigor, o assalariamento não se expandia, as técnicas de produção continuavam obsoletas e os níveis de produtividade de toda a economia eram baixos, fazendo do lucro e excedente econômicos algo raro e fortuito. Observamos, assim, uma notável queda da produção industrial relativa dessa região no início do século XX. Sua participação que era de 17% do total nacional em 1907 cai para cerca de 10% em 1939.

10.3 O Extremo Sul: a Pecuária e a pequena Indústria Agrícola

A economia do extremo sul já contava, em meados do século XIX, com longa tradição de abastecimento do mercado interno. Tendo sua ocupação original com a pecuária, jogou papel fundamental no abastecimento da região mineira, na época do ouro, com alimentos e mulas. Especializou-se historicamente na produção de gado, cavalos, mulas e agricultura alimentar, todos voltados principalmente para o consumo do mercado interno brasileiro que se encontrava rarefeito.

A partir de 1850, veremos que estas atividades serão intensificadas tendo em vista o abastecimento de São Paulo e principalmente do Rio de Janeiro. Em geral, a atividade produtiva de seus três estados estava dividida na agricultura camponesa de pouca concentração e na pecuária extensiva mais concentrada. Vejamos um pouco mais detalhadamente os principais produtos de cada estado, para em seguida discutirmos a dinâmica industrial dessa região do país.

O Rio Grande do Sul destacou-se desde cedo pelo seu fornecimento de charque para alimentação de escravos e população do sudeste em geral e gado muar e equino para transportes. No início do século XIX passa a desenvolver também uma significativa produção de trigo e, entre outros produtos, contava na segunda metade deste século com uma produção também significativa de banha.

Quanto aos empreendimentos, parece que não faltou ao Rio Grande do Sul o surgimento de produtos capazes de estimular sua economia local. A produção desses produtos para as demais regiões do Brasil movimentava a economia sulina, dando algum dinamismo a essa região. A principal causa de seu fracasso estará portanto em outro fator. Não foi a falta de produtos competitivos gerados que trouxe problemas, mas a forte concorrência encontrada no mercado interno.

No final do século XIX e início do XX, o charque gaúcho passa a enfrentar forte concorrência de similares da Argentina, Uruguai e Estados Unidos entre outros e, mais tarde, do próprio charque paulista. A banha, por sua vez, encontrará forte concorrência na produção de Minas Gerais e Santa Catarina, fato também observado com a lã.

Ocorrência similar encontramos na economia de Santa Catarina. Apesar de desenvolver algum dinamismo em suas indústrias, decorrentes de especialização agrícola — erva-mate, banha, manteiga, farinha e madeira — não é capaz de competir fortemente com seus concorrentes. Pela natureza artesanal e dispersa de suas indústrias, não consegue, no início dos 1900, superar a força da nascente indústria paulista, fortemente calcada na eficiência e concentração de capitais.

O Paraná sofre influência ainda mais forte de São Paulo. Tendo sua região norte colonizada pela marcha do café no Oeste paulista no final de 1910 até Ourinhos, esse Estado teria sua produção sempre ligada ao mercado paulista. Em termos industriais observamos à época meros desdobramentos de suas atividades agrícolas, notadamente erva-mate e madeira. Nota-se aí, portanto, também um retardamento econômico decorrente, em parte, da proximidade paulista.

Vemos destarte que toda essa região também não foi capaz de dar o chamado salto industrial. Seja pela dispersão e desconcentração de suas unidades produtivas, seja pelo problema da distância dos centros consumidores. Note-se que a ligação ferroviária Rio Grande do Sul a São Paulo só é concluída em 1910. Por causa da forte concorrência de suas regiões vizinhas, o Extremo Sul não foi capaz de entrar numa dinâmica industrial auto-sustentada. Não é de estranhar que a participação industrial dessa região no país que era de 19,9% de acordo com o censo de 1907 fique com apenas 13,8% no ano de 1939.

10.4 Rio de Janeiro, o Café do Vale do Paraíba e a Indústria da Guanabara

O Vale do Paraíba estende-se de São Paulo até o Rio de Janeiro. Para nossos propósitos, entretanto, ele será considerado mais fluminense do que paulista. Estamos nos aproximando da região do país que foi capaz de dar o grande salto capitalista. No entanto, veremos nessa seção, que não bastava contar com um produto de forte estímulo regional, como foi o café, para o deslanche capitalista. Se assim fosse, a notável expansão cafeeira ocorrida no Vale do Paraíba, principalmente em sua porção fluminense, ou seja, Resende, Vassouras, Barra Mansa, entre outras, deveria ter levado o Rio de Janeiro a posição de supremacia industrial e não São Paulo.

tabela 10.6 – produção cafeeira no estado do rio de janeiro (em sacas)
Ano Quantidade
1835 1 milhão
1840 1,5 milhão
1870 1,8 milhão
1882 2,6 milhão
FONTE: Dados organizados por CANO, op. cit., p. 36.

Vejamos portanto quais foram as principais diferenças entre a produção cafeeira do Vale do Paraíba e do Oeste Paulista, pois aí encontraremos as bases do sucesso industrial de São Paulo e parte da explicação da estagnação fluminense, notadamente do comportamento da indústria da Guanabara. Para facilitar nossa discussão, dividiremos os fatores de análise em quatro grupos:

  • técnicas de produção;
  • disponibilidade de terras;
  • sistema de transportes; e
  • mão-de-obra.

As plantações de café no Rio de Janeiro datam do início do século XIX[9]. Como era de esperar, baseavam-se fundamentalmente na mão-de-obra escrava e portanto apresentavam precário avanço técnico e baixa produtividade. O café produzido por essa região ainda era beneficiado em 1881 no engenho de pilão e despolpadores, diferentemente do Oeste Paulista, que já, nesta época, desenvolvia máquinas de beneficiamento[10]. A geografia regional, diferentemente do interior paulista, dificultava a introdução de máquinas de plantio mais eficientes. Na década de 1870 podíamos encontrar em São Paulo a utilização da máquina carpideira que era capaz de substituir vários escravos no cultivo cafeeiro.

Além de problemas técnicos propriamente ditos, que decorriam do pioneirismo da atividade e da intensa utilização de mão-de-obra escrava, havia também uma limitação de terras propícias ao plantio do café. Por causa da questão da altitude, nem todas as terras do Vale se apresentavam como ideais para o desenvolvimento dessa cultura, diferentemente do Oeste Paulista. Por tudo isso e ainda levando em consideração a avançada idade dos cafezais fluminenses em 1880, não é difícil perceber que os mesmos passariam a se apresentar com reduzida produtividade quando comparados a seus concorrentes no interior paulista.

Não bastassem estas dificuldades, observa-se no período um grande aumento no preços das terras para o cultivo do café, decorrente de escassez, e também de um brutal acréscimo no preço dos escravos. Com a proximidade da abolição e a pressão inglesa, tornava-se cada vez mais difícil adquirir mão-de-obra para o trato dos cafezais. A Tabela 10.7 nos mostra a evolução dos preços médios de escravos nesse período.

tabela 10.7 – preço dos escravos no século xix (em réis)
Período Preço
1821 250,000 a 440,000
1843 700,000
1856 700,000 a 1,000,000
1875 3,000,000
fonte: Dados reunidos por Cano (1998), p. 39.

Por fim, observamos ainda nesse período um considerável aumento no preço dos alimentos, também necessários à manutenção das fazendas. Os preços do arroz e feijão dobram e o açúcar, a farinha de mandioca e o toucinho aumentam 50%. A escassez de terras, entre outros motivos, também não permitiu a formação de uma agricultura alimentar mercantil como observado em São Paulo. Veremos, portanto, que a cultura cafeeira do Vale do Paraíba apresentar-se-á com dinâmica bastante inferior quando comparada ao Oeste Paulista. A acumulação de capital nessa atividade ocorrerá, porém com um ritmo muito mais lento.

Podemos observar também o problema da evolução cafeeira fluminense e da porção paulista do Vale do Paraíba por meio da análise dos resultados das companhias ferroviárias aí instaladas à época. Diferentemente do interior de São Paulo, encontraremos empresas com problemas financeiros, baixa lucratividade e altos gastos com juros decorrentes de endividamento. Muitas delas foram precocemente encampadas pelo governo imperial, com destaque para a Estrada de Ferro D. Pedro II já em 1865 — futura Central do Brasil — entre outras de menor relevância.

Apesar de reduzirem os custos de transporte do café dessa região, estiveram, portanto, estas ferrovias longe de desempenhar o papel que tiveram no Oeste Paulista. Talvez pelo fato de terem sido implantadas já numa fase menos dinâmica do café fluminense, esses empreendimentos deram uma contribuição muito aquém de seu potencial como veremos na análise das ferrovias paulistas mais adiante.

Em relação ao estímulo de desenvolvimento regional, notadamente na questão do surgimento de cidades, a situação não será diferente. Como nos mostra Lessa,

Sendo a lavoura cafeeira escravagista, gerou um insignificante varejo nas cidades do interior. O abastecimento das fazendas era concentrado nos atacadistas da praça do Rio de Janeiro. As cidades locais fluminenses não constituíram núcleos comerciais varejistas diversificados, somente possíveis com trabalho assalariado. No interior fluminense não surgiram vilas equivalentes a Ribeirão Preto ou Campinas. O café fluminense escravista gerou lugarejos sem dinamismo, cidades locais débeis que se esvaziaram com o declínio da cafeicultura: as famosas cidades mortas dos Urupês de Monteiro Lobato. Neste cemitério estão Parati, do ciclo do ouro, Campos, do açúcar colonial, e a legião de pequenas cidades do café. [11]

Tributária do café do Vale do Paraíba (RJ) e de parte de Minas Gerias, o distrito da Guanabara, capital do Império, teve grande parte de sua vida econômica no período atrelada aos lucros dos cafezais. De fato, exceto as atividades urbanas, portuárias e governamentais, grande parte de seu impulso econômico vinha, nessa época, do Vale.

Tendo sido transformada em capital em 1762 e com a vinda da família real em 1808, sofre grandes impulsos econômicos. Seja na intermediação do comércio negreiro, entre Angola e a região do Prata, ao longo de praticamente toda sua história colonial[12], seja na intermediação do negócio do ouro, do qual era o principal porto. Essa região foi, entre todas as outras do Brasil, provavelmente, a que mais se beneficiou de impulsos externos: sede de governo, transferência da corte portuguesa etc.

Por todos esses motivos, era no início dos anos 1900 o principal pólo econômico e financeiro do país. Não foi à toa que se encontrava em posição hegemônica no censo de 1907, concentrando 30,2% da produção industrial do Brasil. Mas como explicar sua perda de espaço relativo em tão pouco tempo para São Paulo?

Parte da resposta encontra-se na análise dos cafezais do Rio de Janeiro feita acima. Com a perda de dinamismo dessa agricultura, caem os altos excedentes antes transferidos para a Guanabara, retardando seu processo de acumulação capitalista que passava cada vez mais a depender das atividades urbanas da cidade do Rio de Janeiro, notadamente do setor de serviços. Diferentemente de São Paulo, com cafezais dinâmicos e lucrativos, esta região ainda não solucionara o problema causado pela utilização da mão-de-obra assalariada e com os gastos para importação de meios de subsistência.

Sua indústria, já razoavelmente sólida no início dos anos 1900 será portanto a principal responsável pelo progresso econômico da região. Entretanto, encontraremos aí novo problema: a crescente concorrência oferecida pela moderna e nascente indústria paulista, que dificultaria enormemente o avanço da acumulação nesse Estado. A indústria paulista começava por recapturar seu mercado interno, antes abastecido, em parte, pela Guanabara, para depois buscar outros mercados, outrora cativos da capital. Some-se a isto a precária agricultura alimentar do Rio de Janeiro que deveria abastecer a Guanabara aliada a mais uma agravante: o alto preço dos alimentos na região fluminense aumentava os salários de suas indústrias, fazendo com que elas perdessem competitividade para o resto do país.

10.5 As Minas Gerais e o isolamento geográfico

O grande desenvolvimento mineiro dá-se na fase do ouro, ainda no século XVIII. Nesse período assiste-se a um enorme adensamento da atividade econômica regional. Seja na extração dos metais, propriamente dita, seja a partir da infra-estrutura gerada por tal atividade. Observa-se na época grande vigor econômico, comercial e de urbanização.

Com a decadência de tal atividade, entretanto, assiste-se a uma involução econômica nesse Estado que só será revertida a partir das culturas de café já no século XIX. Porém, veremos novamente — como no Rio de Janeiro — uma cafeicultura baseada na escravidão e, portanto, sem grande dinamismo. Além disso, a região cafeicultora de Minas também sofreria grande pressão dos capitais da Guanabara, tendo praticamente todo o seu excedente transferido para essa região.

Com a criação de Belo Horizonte, no final do século XIX, e a decorrente expansão imobiliária regional, observa-se novamente algum estímulo econômico nesse estado: urbanização e surgimento de alguns bancos. Some-se a isso a pequena agroindústria mineira — com destaque para laticínios — e a pecuária exportadora e veremos um pequeno complexo econômico constituído. Este não será, entretanto, capaz de adquirir a densidade do complexo paulista, principalmente por causa de seu isolamento geográfico e altos custos de transporte. Porém, essa pequena indústria, será ao menos capaz de fazer com que Minas seja a única região do país, além de São Paulo,- a apresentar aumento relativo da concentração industrial no início do século XX.

A partir da década de 1920, observa-se novo avanço da economia mineira, principalmente em decorrência da prosperidade de seus novos cafezais. Assistiríamos mais uma vez à apropriação de parte desse excedente pelos capitais da Guanabara, fato que contribuía para a redução de seu dinamismo regional. A partir daquela década, já estaria traçada a trajetória de Minas. Sem alcançar o desenvolvimento paulista, caberia a sua agroindústria abastecer o dinâmico complexo de São Paulo, o que lhe traria estímulos regionais apenas secundários.

10.6 São Paulo, Oeste Paulista e a Decolagem

Discutimos anteriormente o ciclo cafeeiro fluminense e brevemente o mineiro. Detemo-nos principalmente em sua dinâmica e principais impactos sobre a desenvolvimento do Rio de Janeiro, notadamente da indústria da Guanabara. Sabemos que o estímulo ocorrido nesse Estado teve força importante, a ponto de colocá-lo à frente de outras regiões do país. Entretanto, sabemos que não foi capaz de levá-lo ao mesmo êxito paulista. Vimos também, a partir da análise de outras regiões que nenhum pólo econômico foi capaz de entrar num processo dinâmico e auto-sustentado de industrialização como o observado no Estado de São Paulo. A Tabela 10.8 resume essa discussão, dando-nos uma visão bastante clara da evolução da concentração industrial brasileira no início deste século.

tabela 10.8 – concentração da produção industrial brasileira no início do século
Regiões 1907 (%) 1919 (%) 1939 (%)
São Paulo 15,9 31,5 45,4
Guanabara 30,2 20,8 17,0
Rio de Janeiro 7,6 7,4 5,0
Minas Gerais 4,4 5,6 6,5
Rio Grande do Sul 13,5 11,1 9,8
Demais 28,4 23,6 16,3
Brasil 100,0 100,0 100,0
FONTE: Censos industriais ajustados por CANO, op. cit.

Vejamos então o que ocorreu em São Paulo no período 1850-1930, notadamente no que diz respeito ao surgimento da atividade cafeeira, sua transição para os moldes capitalistas e por fim seu papel na industrialização. De certo modo, podemos dizer que o atraso da introdução das culturas de café neste estado — principalmente a expansão para o Oeste Paulista — representou uma vantagem e não uma desvantagem em relação aos cafezais fluminenses. Senão vejamos.

tabela 10.9 – expansão da produção de café em São paulo
Ano Participação no total nacional Cafeeiros em produção Estado de SP
1870 16%
1875 25%
1880 106
1885 40%
1888 211
1900 60%
1901 526
1911 697
1921 844
FONTE: Dados principais de SIMONSEN e PRADO JR. apud CANO, op. cit.

A Tabela 10.9 nos mostra que somente a partir da década de 1880 o café paulista passa a ocupar o posto hegemônico no cenário nacional. Para entender essa rápida evolução e suas principais conseqüências para todo seu entorno econômico, analisaremos novamente quatro dos principais aspectos da cultura cafeeira: técnicas de produção, disponibilidade de terras, sistema de transportes e a utilização de mão-de-obra.

Já vimos acima que as técnicas de produção do café do Vale do Paraíba eram bastante inferiores às do Oeste Paulista. Desde o plantio e a colheita, até o beneficiamento — com a utilização de despolpadores, ventiladores, separadores, classificadores entre outras máquinas — a cafeicultura paulista apresentava um produto mais barato e de qualidade igual ou superior ao fluminense[13]. Contava, portanto, para a sua produção, com lucros maiores.

Evidentemente, a expansão para o Oeste Paulista pôde contar, desde seu início, com o aprendizado e a experiência das culturas fluminenses. Mais do que isto, no interior de São Paulo, encontraremos, diferentemente do Rio de Janeiro, uma vasta fronteira agrícola por explorar. Assim, o problema de falta de terras do Rio não estará presente em São Paulo e representará grandes oportunidades de expansão das culturas e do capital dos fazendeiros. A maior fertilidade das terras paulistas, suas técnicas mais eficientes de produção e a menor idade média de seus cafezais proporcionavam ao café do oeste paulista uma produtividade maior do que a verificada na antiga região do Vale.

Ainda sobre a questão da fronteira agrícola, veremos outra vantagem para os fazendeiros paulistas. Com a expansão dos cafezais, torna-se cada vez mais importante a questão do transporte das safras. A utilização de mulas se mostrava demasiado cara e precária para as grandes distâncias. Veremos aí o surgimento vigoroso das ferrovias paulistas. Ao contrário de suas congêneres fluminenses, as estradas de ferro paulistas serão introduzidas num momento de franca expansão de cafezais. Ou seja, reduzirão custos de transporte por um lado, aumentando a lucratividade das culturas, mas por outro, receberão parte desses ganhos por meio das volumosas receitas decorrentes do transporte cafeeiro.

A expansão das redes ferroviárias paulistas será muito mais intensa do que em todo o país. Ao integrar as regiões produtoras da nova fronteira com a cidade de São Paulo e o porto de Santos, jogarão, portanto, papel fundamental na constituição do complexo cafeeiro paulista. A interligação das principais cidades paulistas dá-se ainda no século XIX: Campinas (1872), Itu (1873), Mogi Mirim e Amparo (1875), Rio Claro (1876), Casa Branca (1878) e Ribeirão Preto (1883).

tabela 10.10 – expansão da rede ferroviária paulista em 1910
Ano Via Férrea (Km)
1876-1880 431
1881-1885 611
1886-1890 1034
1891-1895 1624
1896-1900 1726
1901-1905 2078
1906-1910 2327

FONTE: Anuário Estatístico de São Paulo.

Observamos, portanto, resultado bastante distinto das redes férreas do Nordeste e do Rio de Janeiro. Em São Paulo, encontraremos grande número de companhias privadas e lucrativas, por exemplo, a Mogiana e a Paulista. De um total de vinte em 1910, 16 eram privadas e nacionais, uma estrangeira e as demais públicas. Já vimos que no Rio e Nordeste grande parte das ferrovias haviam sido encampadas pelo governo federal por problemas financeiros.

Por último, de forma não menos importante, sabemos também que o sistema de estradas de ferro gerou uma considerável infra-estrutura de apoio, que representava estímulos para a atividade industrial da região: oficinas de reparo, construção e montagem. Ou seja, as ferrovias paulistas, além de trazer ganhos diretos às culturas do café, davam uma contribuição indireta ao complexo econômico paulista, pois representavam novas opções de investimento lucrativo, ampliando o processo de acumulação regional.

Vejamos agora a questão da mão-de-obra. Sabemos que a abolição elevou fortemente o preço de escravos no Brasil. Já observamos as dificuldades dos cafeicultores fluminenses em face dessa questão. Em São Paulo, vemos que a transição será mais eficiente, pois se tratava mais de iniciar fazendas com o novo tipo de mão-de-obra do que trocar os estoques de escravos já presentes nas culturas. Essa transição será muito mais simples e rápida no Oeste Paulista do que no Vale do Paraíba. O primeiro grande salto do café em São Paulo entre 1876 e 1883 já contará, mesmo que parcialmente, com relações capitalistas de produção.

Com a expansão dos cafezais paulistas e o desbravamento da fronteira agrícola, a questão da escassez de mão-de-obra representava, portanto, o principal obstáculo para o avanço da acumulação regional. Conforme J. M. Cardoso de Melo,

A estrada de ferro e a maquinização do beneficiamento não somente reforçaram a economia mercantil-escravista cafeeira nacional. Ao mesmo tempo, se opõem a ela, criando condições para a emergência do trabalho assalariado. [ ] Não é preciso que o escravismo se desintegre, porque não ofereça nenhuma rentabilidade às empresas existentes; para ser colocado em xeque, basta que se obste a acumulação.[14] [grifos nossos]

Assim, desde logo, os fazendeiros paulistas se mobilizam para resolver tal situação, notadamente por meio do estímulo maciço à imigração. Após uma frustrada tentativa de importar trabalhadores da China, os chamados coolies , voltam-se as atenções para os imigrantes europeus. Entre 1887 e 1930 chegam a São Paulo cerca de 2,5 milhões de imigrantes.

tabela 10.11 – escravos e imigrantes em São paulo – 1937
Ano População de escravos Imigrantes
1854 117.731 4.209
1873 174.662 11.054
1885 128.000 43.981
1887 107.829 85.629
1890 243.899
1897 862.530
1900 963.486
FONTE: TAUNAY, op. cit.,  e CANO. (Org.). Boletim D. de Terras, Colonização e Imigração.

Furtado nos mostra que a não utilização de mão-de-obra nacional na expansão cafeeira ocorreu por causa de problemas de organização social e política das regiões populosas, porque se ia de encontro aos interesses de grandes proprietários de terras. Outro motivo da preferência pelo trabalhador estrangeiro deve-se ao fato de a mão-de-obra do nosso caipira ou caboclo ser inferior e de difícil adaptação nas fazendas[15]. A esse respeito, e também com referência à imigração, vale citar Darcy Ribeiro,

Confinado nas terras mais sáfaras, enterrado em sua pobreza, o caipira vê, impassível, chegarem e se instalarem, como colonos das fazendas, multidões de italianos, de espanhóis, alemães ou poloneses para substituírem o negro no eito, aceitando uma condição que ele rejeita. Essa nova massa vinha, porém, de velhas sociedades, rigidamente estratificadas, que a disciplinara para o trabalho assalariado, e via na condição de colono um caminho de ascensão que faria dela talvez, um dia, pequenos proprietários. O caipira, despreparado para o trabalho dirigido, culturalmente predisposto contra ele, desenganado, desde há muito, de tornar-se proprietário, resiste no seu reduto de parceiro, que é para ele a condição mais próxima do ideal inatingível de granjeiro em terra própria. [16]

O trabalho assalariado e imigrante apresentava-se, portanto, como solução. Uma saca de café que custava 15$000 produzida em regime escravista, chegava a um custo de 7$200 a 9$800 quando feita com trabalho livre. Por isso, observaremos um grande aumento do uso deste tipo de mão-de-obra a partir do final do século XIX em São Paulo. Formas de trabalho como a parceria, o colonato e o salário fixo seriam, portanto, comuns nas fazendas paulistas dessa época[17].

A introdução da mão-de-obra livre, mais especificamente a assalariada, trará enormes ganhos à formação do complexo capitalista industrial de São Paulo. Estudos mostram que grande parte dos empresários paulistas tinha ascendência imigrante[18]. Além de permitir o avanço do capital cafeeiro, terá papel essencial na constituição de um mercado interno, no estímulo à urbanização e ao surgimento de bancos e na monetização da economia regional.

Antes de concluirmos a discussão do complexo cafeeiro paulista, precisamos ainda discutir, ainda que sucintamente, alguns detalhes da formação da agricultura mercantil nesse Estado. O regime de colonato logo permitiu que o colono cultivasse outros produtos em paralelo ao café. Por particularidades da cultura cafeeira e pela relação de trabalho entre o fazendeiro e o colono, abria-se espaço para o cultivo de alimentos de subsistência que, em caso de sobra, poderiam ser vendidos para o mercado consumidor, notadamente para as zonas urbanas em expansão. Já no início dos anos 1900, observamos um crescimento considerável na agricultura mercantil paulista. Produtos como arroz, feijão, milho, açúcar e algodão apresentam expressivo aumento.

tabela 10.12 – evolução de alguns produtos da agricultura paulista (em 1.000 T)
Anos Açúcar Algodão Pluma Arroz com casca Feijão Milho
1901 a 1903 13,8 1,8 28,8 41,6 422,6
1904 a 1906 15,9 2,8 60,2 83,1 478,2
1907 a 1909 4,3
1910 a 1912 24,8 5,8 107,1 97,5 619,6
1913 a 1915 27,8 6,2 72,3 112,8 595,8
1916 a 1918 29,4 10,8 152,1 177,1 733,4
1919 a 1921 31,8 30,7 275,0 212,5 1.009,3
1922 a 1924 33,8 17,4 173,3 78,9 788,0
1925 a 1927 30,6 17,3 267,3 194,7 981,8
FONTE: CANO. (Org.). Anuários estatísticos do Brasil e de São Paulo.

Contrariamente ao caso da Guanabara, observamos, portanto, em São Paulo, um crescimento da oferta alimentar necessário à expansão populacional e urbana. Enfim, o estímulo de desenvolvimento regional dado pelos elevados preços do café no período, somaram-se à postura ativa dos cafeicultores paulistas no que diz respeito a construção de infra-estrutura. A implantação de novas técnicas de produção, introdução de mão-de-obra imigrante e principalmente por meio da consagrada política de defesa do café[19] — com destaque para o Convênio de Taubaté em 1906 e da criação do Instituto de Defesa Permanente do Café, entre outros — lançou as bases para o desenvolvimento da indústria no Estado. Vejamos agora um pouco mais sobre a questão do crescimento industrial propriamente dito.

Já observamos que a decadência dos cafezais do Vale do Paraíba teve grande influência negativa na dinâmica da indústria da Guanabara. No caso paulista, o vigor dos cafezais do Oeste será essencial para o salto industrial. O primeiro ponto a ser destacado, portanto, é o da complementaridade entre o capital cafeeiro e industrial. Isso significa dizer que a atividade cafeeira, apesar de liderar o processo de acumulação, contribui fortemente para a ampliação industrial. Nos momentos de bonança as indústrias se beneficiavam da renda gerada pelo café — aumento de demanda por alimentos, por máquinas de beneficiamento, sacarias, transporte etc. — nos momentos de crise, a atividade industrial surgia como um refúgio para a aplicação do capital, principalmente nos setores urbanos.

Junto com a atividade nuclear do café surgiam inúmeros negócios paralelos, tipicamente urbanos, por exemplo, bancos, escritórios, armazéns, comércio atacadista, oficinas de estradas de ferro, comércio varejista, comércio de importação e exportação, transportes urbanos, comunicações, energia elétrica, construção civil etc. Ou seja, o café liderava a formação de um importante complexo econômico que serviria de base para a arrancada industrial. O capital cafeeiro, à medida que aumentava, transforma-se, portanto, também em capital industrial, buscando novas oportunidades de lucro fora das lavouras.

No caso da economia cafeeira — principalmente de SP, a partir de 1886 —, esse capital, embora dominantemente mercantil, que é o capital cafeeiro, adquire conotações dinâmicas diferenciadas dada a excepcional oportunidade histórica que tem de se transformar: é o capital que, ao mesmo tempo, é lucro do fazendeiro, recursos em poder do banqueiro, renda do estado, capital físico de um novo industrial, ou estoque do comerciante. Muitas vezes o proprietário desse capital é, ao mesmo tempo, fazendeiro, banqueiro, industrial e comerciante.[20]

A indústria paulista propriamente dita origina-se em três principais setores: máquinas e implementos para a atividade cafeeira, sacarias de juta para embalagem do café e bens para consumo corrente. Os primeiros, como vimos acima, estão intimamente ligados à atividade nuclear — as máquinas contribuindo para o aumento de produtividade e as sacarias como produtos essenciais ao transporte do café. A evolução dos preços e a expansão da produção cafeeira iriam obviamente estimular o desenvolvimento dessas indústrias. Destaca-se aqui a indústria de sacarias de juta de Álvares Penteado, instalada em 1889, com capital do café[21].

Quanto à produção de bens de consumo corrente, voltava-se primordialmente para o mercado interno que estava surgindo, principalmente com o crescimento urbano. Destacam-se as indústrias de chapéus, calçados, alimentos, bebidas, móveis, serrarias e têxtil. Havia ainda pequenas oficinas metalúrgicas e algumas produtoras de velas, sabão e medicamentos. Em geral, essas indústrias competiam com similares importados e, portanto, quanto maior fosse o grau de protecionismo, melhores eram seus desempenhos. Nos momentos de valorização cambial poderiam até sucumbir e nos períodos de desvalorização tinham bastante espaço para prosperar.

O primeiro grande salto da indústria paulista dá-se a partir de 1907. Até 1919 observamos um aumento de sua participação de 15,9% do total nacional para 31,5%. Com um pequeno parque industrial já constituído, São Paulo é capaz de abastecer parte das outras regiões nacionais durante a primeira guerra mundial. A Tabela 10.13 mostra a evolução de suas exportações para o resto do país e para o exterior.

Tabela 10.13 – exportações totais de são paulo  (por destino)
Período Para o exterior Para o resto do Brasil
1900/1910 85% 15%
1910/1920 75% 25%
1920/1930 50% 50%
FONTE: CANO. Op. cit., p. 66.

De fato, nesta década, já estariam lançadas as bases para a configuração industrial brasileira pós 1929. A partir de 1920, observamos também em São Paulo a introdução de indústrias de bens de produção, que representariam novo salto no sentido da concentração industrial brasileira. Fábricas de cimento, aço e química se instalavam no estado como decorrência do crescimento industrial, tornando remota as chances de construção de plantas similares em outras área do país.

Antes de 1929, São Paulo já contava com um parque industrial razoavelmente complexo que podia suprir a demanda do resto do país. Antes mesmo da mudança do perfil da economia brasileira — de agroexportadora para industrial — já existiam na região paulista, principalmente como decorrência do dinamismo do café, as sementes de nossa configuração industrial.

A partir de 1930, com a crise mundial e o desmoronamento da economia cafeeira, observaremos a transição definitiva do processo de acumulação de capital no Brasil para o setor industrial. Veremos, nas palavras de Furtado, o deslocamento do centro dinâmico da economia brasileira do café para a indústria. Mais do que isso, pelo que discutimos até então, observamos a partir de 1930 o deslocamento do centro dinâmico brasileiro para a indústria paulista. Às outras regiões — com suas lentas dinâmicas econômicas — caberia o abastecimento de matérias-primas e alguns outros produtos agrícolas para São Paulo, o que, de qualquer forma, representava pouco estímulo regional a ponto de motivar o surgimento de grandes indústrias. Observava-se, portanto, uma mudança apenas superficial nessas economias: as exportações para o exterior passavam a dirigir-se ao mercado paulista.

Concluímos assim a apresentação das origens de nossa desigualdade regional. Vimos que, em última análise, foi a dinâmica cafeeira paulista que determinou nossa configuração regional originária. Após uma breve discussão acerca de diversos aspectos de nossas economias regionais, concluímos pela inevitabilidade da concentração industrial em São Paulo. O trecho abaixo resume a idéia desse capítulo,

Café, agricultura, transportes, indústria, comércio e finanças cresciam, assim, dinâmica e integradamente, ampliando consideravelmente o potencial de acumulação do complexo paulista. Dessa forma, a economia paulista contou com amplas condições para o seu desenvolvimento, ao contrário do que ocorria no restante do país: a Amazônia, em face de sua típica economia do aviamento ; o Nordeste, por suas precárias relações capitalistas de produção, bem como por sua concentrada estrutura de propriedade e de renda; o Extremo Sul, pela forma de produção da economia camponesa, que atomizava o excedente e gerava uma indústria constituída, também, pela pequena e média empresa; a região do Rio de Janeiro, pela decadência cafeeira e pela precariedade de sua agricultura; Minas Gerais, por sua indústria dispersa e desconcentrada que, embora protegida por custos de transportes, sofria, por isso mesmo, a limitação de seu próprio mercado.[22]

Questões de revisão

  1. Sobre a região amazônica, explique as peculiaridades da forma de trabalho da economia do aviamento e sua relação com um possível processo de industrialização.
  2. Qual foi o principal obstáculo à industrialização da economia nordestina ?
  3. Qual o tipo de indústria desenvolvida no Extremo Sul e por que esta não foi capaz de lançar as bases de um desenvolvimento regional vigoroso ?
  4. Cite duas características da economia mineira no período em que retardaram seu progresso econômico.
  5. Explique as principais diferenças observadas entre a cafeicultura fluminense e a paulista a partir do ponto de vista destacado no texto.
  6. Compare as dinâmicas da indústria de São Paulo e da Guanabara, destacando os motivos que levaram ao progresso da primeira e à decadência da segunda.
  7. Comente as causas do êxito dos empreendimentos ferroviários em São Paulo

Bibliografia

CANO, Wilson. Raízes da Concentração Industrial em São Paulo.Campinas: Unicamp, 1998a.

———. Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil. Campinas: Unicamp, 1998b.

LESSA, Carlos. O Rio de todos os Brasis. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1991.

MACIEL, Vladimir F. Desigualdade regional, abertura comercial e o mercado de trabalho no Brasil. São Paulo, 2000, Dissertação (Mestrado em ???) – FGV.MELLO, João M. C. de. Ocapitalismo tardio. Campinas: Unicamp, 1998.

PEREIRA, L. C. Bresser. Origens étnicas e sociais do empresário paulista. RAE, São Paulo: FGV-SP, n.4, 1964.

SIMONSEN, R. C. Evolução industrial do Brasil e outros estudos. São Paulo: Nacional/EDUSP, 1973.

PRADO JÚNIOR, C. Prado. História econômica do Brasil. 12. ed. São Paulo: Brasiliense, 1970.

TAUNAY, A. E. História do café no Brasil. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1943, v. 15.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

*[1] Esse capítulo baseia-se em trabalhos de alguns autores brasileiros. Celso Furtado, Wilson Cano, João M. C. de Melo, Carlos Lessa, entre outros. Sua espinha dorsal segue, entretanto, especialmente os estudos de Cano.

[2] Cf. MELLO, J. C. Op. cit. p. ?

[3] Cf. FURTADO, op. cit., p. 131 e RIBEIRO, op. cit., p. 324.

[4] RIBEIRO. Op. cit., p. 323.

[5] CANO. Op. cit. p. 50.

[6] CANO. Op. cit., p. 106.

[7] FURTADO. Op. cit., p. 120.

[8] RIBEIRO. Op. cit., p. 345.

[9] Cf. LESSA, op. cit. p. 102,105-106, para uma discussão mais detalhada a respeito da introdução do café no Rio de Janeiro.

[10] Cf. LESSA, op. cit., p. 120.

[11] LESSA. Op. cit., p. 118.

[12] Ibid. p. 35-37.

[13] TAUNAY, op. cit. p. ?? calcula reduções no custo de produção da ordem de 10%.

[14] MELO, C. de. Op. cit., p. 86-87.

[15] Cf. FURTADO. Op. cit., p. 121-122.

[16] RIBEIRO. Op. cit., p. 389.

[17] Cf. FURTADO, Op. cit., p. 127, para uma breve descrição do colonato e das formas de imigração .

[18] Cf. PEREIRA, L. C. Bresser. Origens étnicas e sociais do empresário paulista. p. 93.

[19] Cf. FURTADO, op. cit., Cap. XXX, para uma descrição da política cafeeira.

[20] CANO. Op. cit., p. 49.

[21] PRADO JR. Op. cit., p. ?

[22] CANO. Op. cit., p. 274.

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