Os grandes hubs produtivos do mundo: ou porque as condições de comercio são desiguais

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Em seu maravilhoso livro sobre redes com o título Linked, o físico romeno Albert Barabasi explica de forma detalhada, clara e elegante como suas contribuições seminais para a física das redes e complexidade surgiram. Dos inúmeros exemplos e exposições claríssimas sobre o tema para leigos se destaca o exemplo das redes complexas conhecidas na física como “scale free” que em geral se formam com grandes e importantes hubs de conexão.  Os exemplos práticos principais são a propria internet, a rede de atores e filmes de hollywood, redes biológicas e a malha aérea americana, entre tantas outras.

No caso da malha aérea americana os dois mapas acima, retirados do livro de Barabasi, demonstram o conceito de rede complexa com hubs de forma bastante intuitiva. A primeira rede é do sistema rodoviário americano com muitos nós de conexão (cada cidade é um nó) e sem hubs relevantes. A malha aérea é o exemplo oposto: uma rede complexa com hubs (ou nós grandes com muitas conexões) e portanto não randômica. Existem alguns poucos hubs que concentram a maioria das conexões (Chicago, Nova Iorque, Houston, LA, etc). Nesse tipo de rede complexa e não randômic`a alguns poucos hubs tem a maioria dos links ou conexões e os outros tantos nós tem pouquíssimas ou nenhuma conexão.

Barabasi e sua equipe criaram um modelo simplificado que reproduz com incrível precisão esse tipo de dinâmica de redes encontradas na vida real. Trata-se de um modelo ultra simples com três regras 1)uma rede que cresce no tempo com novos nós sendo incorporados por links a outros nós a cada momento do tempo e 2)uma regra de conexão preferencial onde cada novo nó prefere se conectar a um nó já existente com muitas conexões (preferencial attachment), 3)fitness: alguns  nós tem competência maior do que outros para acumular links. Com essas tres regras Barabasi e sua equipe reproduzem em termos formais as características desse tipo de rede encontrada no mundo real.

Inclusive em termos de surgimento de distribuições do tipo power Law conforme vemos também no mapa acima. Numa rede randômica os nós têm uma quantidade aleatória de links. Numa rede complexa scale free e com hubs alguns nós têm a maioria dos links e a grande maioria dos outros nós tem pouquíssimos ou nenhum link. Uma distribuição gaussiana caracteriza o primeiro tipo de rede enquanto que uma distribuição do tipo “power law” caracteriza o segundo tipo de rede.

Para estudos em economia essas descobertas são da maior importância pois formalizam e trazem um ganho analítico enorme para insights e regularidades empíricas importantes já conhecidas. Vejamos alguns casos abaixo de produção no mundo em rede complexas com hubs: automóveis, aviões, computadores, circuitos integrados, etc. Por exemplo: o setor automotivo e de aviões no Brasil e no mundo, assim como dos outros produtos abaixo, depende de enormes externalidades de rede e economias de escala para operar (e por isso tem altíssima concentração). Toyota produz hj 10M de carros ano, Hyundai 7M, GM e Ford por ai vai. Ou seja, temos uma dinâmica industrial de aglomeração do tipo “Krugman” nessas industrias.

Esse tipo de análise traz muita novas conclusões, especialmente para a teoria do comércio (que aliás Krugman já tinha destacado). Com esse tipo de estrutura produtiva e dinâmica do comércio mundial, uma abertura generalizada de todos os mercados do mundo criaria alguns grandes clusters (first mover advantage) em algumas plataformas exportadoras (Coreia, Japao, China, EUA e Europa). Na verdade ja é assim hoje, no mundo e no Brasil como podemos observar nos mapas abaixo retirados do Atlas da Complexidade, seguindo os insights de redes complexas com hubs de Barabasi.

Uma dinâmica de urna de Polya, em homenagem ao estatístico e matemático búlgaro George Polya, ilustra bem as vantagens e desvantagens da abertura comercial para o desenvolvimento econômico num setting de redes complexas com hubs: imagine uma urna que contém inicialmente 10 bolinhas azuis e 10 bolinhas vermelhas; agora para cada bolinha azul retirada aleatoriamente da urna, acrescente mais uma azul e repita o procedimento para bolinhas vermelhas. Depois de algum tempo a urna estará mais carregada de bolas azuis ou vermelhas dependendo da aleatoriedade dos passos iniciais do processo.

Digamos que o acaso tenha favorecido as bolinhas azuis no começo, depois de muitas repetições desse processo a urna estará cheia de bolas azuis e com uma proporção bem pequena de bolas vermelhas. Quanto mais bolas azuis se coloca na urna, maior a probabilidade de se retirar novamente uma bola azul. Se o processo continuar as bolas vermelhas praticamente desaparecerão como proporção das azuis. Pois bem, esse tipo de dinâmica ilustra claramente um processo de retornos crescentes e “path dependent” encontrado nas redes de Barabasi. E agora vamos imaginar que as industrias transacionáveis mais complexas e sofisticadas de um país e do planeta operam sujeitas a esse tipo de dinâmica. Quanto maiores as economias de escala presentes na indústria e no processo maior a probabilidade de retornos crescentes e de concentração da produção a lá urna de Polya.

Se isso é verdade, uma abertura ampla e generalizada do comércio mundial levaria a fortes concentrações regionais das indústrias mais sofisticadas, com maiores retornos de escala e com maior “tradeability”. Por exemplo Alemanha, Japão, China e Coréia do Sul hoje. As indústrias bolinhas azuis iriam todas para esses países. Vamos fazer agora o mesmo experimento da urna de Polya imaginando que para colocar uma bolinha azul na urna da Alemanha temos que tirar uma bolinha azul da urna brasileira. E assim continuamos sorteando bolinhas na urna alemã e cada vez que sai uma azul, tiramos mais uma do Brasil e mandamos para lá. Depois de algum tempo teremos aqui só bolas vermelhas e azuis por lá. É claro que o limite para esse processo são os custos de transporte para se trazer os produtos de lá para cá e outras barreiras comerciais do tipo tarifas e taxa de câmbio.

Para aumentar o realismo do exemplo imagine que as bolinhas vermelhas da urna brasileira representem empregos no setor de serviços não sofisticados e as bolinhas azuis representam empregos industriais no Brasil que são perdidos para o resto do mundo, especialmente na Alemanha, Coreia do Sul e China. As atividades com altos retornos crescentes de escala exibem em geral fortes externalidades de redes e dinâmicas de aglomeração onde os “first movers” ganham posição de destaque no mercado. A empresa que sai na frente ganha muito espaço no mercado. São dinâmicas com “lock in” e portanto “path dependent” (dependentes da trajetória), que formam importantes redes locais produtivas (ver os trabalhos de Paul Davis e Brian Arthur a respeito do tema).

As economias de escala e retornos crescentes geram forças centrípetas (em relação aos polos já existentes) e os custos de transporte, do trabalho e de ocupação geram forças centrífugas. A localização das redes produtivas ao redor do globo dependera, portanto, da resultante dessas forcas, trazendo importantes consequências para países desenvolvidos e em desenvolvimento Temas que Krugman, Fujita e Venables discutiram amplamente do ponto de visto teórico em seus modelos do tipo centro periferia da chamada nova geografia econômica, seguindo os clássicos do desenvolvimento; algo que estava já presente nos clássicos trabalhos de Alfred Marshall sobre economias de aglomeração, redes produtivas locais e externalidades positivas presentes nas suas analises de “distritos industriais” do final do século XIX. Nesse contexto, os resultados de abertura comercial ficam bem mais incertos. Apesar de trazer ganhos estáticos de eficiência, podem destruir empresas e setores com potenciais ganhos dinâmicos de produtividade. Hoje uma abertura generalizada e sem cuidado do comércio no Brasil provocaria provavelmente uma “fuga” das poucas indústrias que restaram por aqui, especialmente aquelas em posições mais frágeis nos mercados mundiais.

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3 thoughts on “Os grandes hubs produtivos do mundo: ou porque as condições de comercio são desiguais”

  1. Texto incrível!
    Mas Paulo, quanto a abertura para o comércio internacional, não poderíamos considerar a ideia de Schumpeter, que apenas as empresas mais eficientes sobreviverão, e que consequentemente isso seria mais vantajoso para o Brasil? Principalmente se for considerado o lado dos consumidores.

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