Para entender o desenvolvimentismo

jk

Um bom ponto de partida seria a comparação com os chamados monetaristas. Para estes, a meta principal, número 1, a mais importante, é o controle da inflação. Se esta estiver baixa e estável, e respeitando-se contratos e instituições, o desenvolvimento virá por gravidade. Para os desenvolvimentistas, inflação sob controle é apenas um de diversos requisitos para o crescimento e desenvolvimento econômico. A preocupação maior destes é o próprio desenvolvimento econômico, e não os meios para tal como o controle da inflação. Dito de outra maneira, existem n casos de países estagnados com inflação controlada. Não basta domar o dragão da inflação para se tornar um país rico. Mas então o que produz, para estes economistas, o tal desenvolvimento?

Em algumas palavras: a capacidade local de utilização, geração e produção de tecnologias. Um alto nível de produção per capita (produtividade) só pode ser atingido a partir da sofisticação do tecido produtivo de uma economia. E isso, para um economista desenvolvimentista, não ocorre naturalmente devido à enorme competição existente no mercado mundial. Os first movers de países ricos tem vantagens gigantescas sobre seus concorrentes em países pobres e em desenvolvimento no que diz respeito a domínio de mercados, propriedades de tecnologias, escala de produção, etc, etc… Aliás por isso mesmo são ricos enquanto os outros são pobres! Me faz lembrar de um discurso do Bush quando da aprovação da zona de livre comercio dos EUA com a América Central, o chamado CAFTA (nos moldes no NAFTA). Dizia ele que agora com as tarifas reduzidas finalmente as empresas americanas teriam condições de competir de igual para igual com a indústria centro-americana (sic!). Claro, imaginem os pobres americanos competindo com a poderosa indústria centro-americana, a liga de mega-conglomerados de Nicarágua, Honduras, Republica Dominicana, Haiti, capitaneados pela power-house cubana do nosso saudoso Che! Que covardia né Bush?

O caso é hilário mas ilustra bem a situação do mundo hoje. Países riquíssimos tentando penetrar ainda em alguns poucos mercados de governos que teimam em construir uma indústria doméstica. Bom, para o desenvolvimentista não existe objetivo maior do que criar uma indústria local, competente, capaz de produzir para o mercado mundial com grande excelência tecnológica. Como esses campeões nacionais não surgem naturalmente do dia para o noite, o governo deve ajudar com subsídios, financiamentos, etc… até que essa empresa atinja escala e força suficiente para competir no mercado doméstico e mundial. A velha idéia da indústria infante. É claro que não há aqui nenhuma garantia de sucesso, e muitos exemplos ridículos (e de corrupção) estão por aí tanto na história brasileira quanto mundial. Muitos dos gigantes asiáticos de hoje surgiram de estratégias desse tipo. De políticas industriais e direcionamento estatal somados a uma competentíssima iniciativa privada, aguerrida e eficiente.

No Brasil temos casos interessantes também de empresas que começaram públicas e depois foram desenvolvidas e ampliadas como ninguém pela iniciativa privada. O exemplo óbvio aqui é a Embraer, fruto da excelência do setor público e privado brasileiro. Ou alguém tem dúvida de que uma Embraer teria sido possível sem o ITA, CTA, militares, etc, etc? Somos hoje capazes de fazer aviões, mas não conseguimos produzir carros!! No novo governo que se inciou em 2011 estas idéias estão em alta. Adensamento de cadeias produtivas domésticas, conteúdo nacional obrigatório, parcerias publico-privado, estado indutor, são os termos do momento. E quais empresas nacionais irão se beneficiar desse ímpeto desenvolvimentista do estado brasileiro a partir do ano que vem? Sem dúvida que a indústria como um todo será muito mais bem tratada do que na era liberal (anos 90). Mas dada nossa configuração macro de hoje, com câmbio sobrevalorizado e déficits em conta corrente, diria que duas cadeias estarão na crista da onda: construção civil e óleo e gás.

No caso desta última é claríssimo o interesse do atual governo e do próximo em desenvolver capacidades locais de produção. Existe o temor de que o país sofra de doença holandesa por conta da descoberta do pré-sal. Ou seja, a sobrevalorização cambial induzida pela exportação do novo petróleo poderia matar a indústria doméstica. E como o novo governo pretende se beneficiar do pré-sal , evitando a tal doença? Criando um fundo soberano para evitar a excessiva apreciação da moeda brasileira e investindo pesadamente na indústria de óleo e gás que representa uma oportunidade única de criação e desenvolvimento de tecnologias locais de produção num setor nobre da economia mundial.

ver Monetaristas x desenvolvimentistas e Construindo complexidade

3 thoughts on “Para entender o desenvolvimentismo”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *