Política monetária para um mundo anormal: moeda causa inflação?

A globalização provocou uma revolução na estrutura econômica mundial. A articulação entre os fatores que impulsionaram a expansão da economia globalizada envolve: o crescimento continuado dos fluxos de capitais para o mercado americano e a migração da produção manufatureira para os países de baixo custo da mão de obra, especialmente na Ásia do Leste; o acirramento da concorrência entre as grandes empresas multinacionais, que impulsiona a nova distribuição espacial da produção globalizada; a formação de bolhas sucessivas de valorização dos ativos reais e financeiros apoiadas pela alavancagem financeira; a evolução anêmica dos rendimentos dos trabalhadores, cada vez mais precarizados e menos assalariados, com consequente ampliação das desigualdades e endividamento excessivo das famílias nos Estados Unidos e na periferia europeia; e a persistência de déficits fiscais e a expansão das dívidas dos governos.

No formato “fordista”, o circuito de geração de renda era ativado pela demanda de crédito para financiar o gasto dos empresários confiantes nos efeitos da expansão da renda no conjunto de atividades que se desenvolviam nos espaços nacionais, a partir da generalização dos métodos de produção industriais, seja nos serviços ou na agricultura; especialmente dentro do território americano e europeu. No mundo de hoje, globalizado, a redistribuição espacial da manufatura e a hiperindustrialização levaram à precarização. A queda dos rendimentos dos trabalhadores nesses continentes, assim, desestimulam a demanda. Os ganhos de produtividade e de salários geram demanda e desenvolvimento econômico na Ásia do Leste. Países saltam da pobreza para a renda média. No mundo “rico”, as famílias submetidas à lenta evolução dos rendimentos sustentaram a expansão do consumo com vertiginosa expansão do crédito. A partir da crise de 2008, esse circuito de formação de produção e renda na economia mundial como um todo começou a falhar, dando origem ao período da Grande Recessão.

Parte da oferta da economia dos EUA (e também da Europa) está hoje na Ásia. Surge, então, uma situação curiosa de “demanda mundial fraturada”: as famílias americanas demandam, via crédito, bens produzidos no Leste da Ásia que por lá geram ganhos de escala, de produtividade e salariais. O regime fordista de produção foi transferido para o leste asiático, só que os consumidores estão nos EUA tomando dívidas. O sonho americano da bela casa no subúrbio com belo emprego e belo salário virou o pesadelo da rolagem de dívidas hipotecárias, de cartões de crédito e estudantis, para não mencionar os custos de saúde para as famílias americanas. O pleno emprego voltou nos EUA, mas a estrutura produtiva mundial é outra. Apesar de desemprego na mínima, os dados de mercado de trabalho nos EUA mostram ainda muita gente fora da força de trabalho. Os empregos criados nos últimos anos foram de baixa complexidade, com destaque para varejo e serviços não-sofisticados. E agora os salários americanos parecem subir sem aumentos de produtividade equivalente. As famílias americanas e europeias estão atoladas em dívidas. As empresas estão com montanhas de dinheiro em caixa e não investem como antes. Nesse cenário se movem, com medo e incerteza, os bancos centrais dos países ricos. Após emitir mais de US$ 10 triliões, continuam sem saber o que fazer.

A seguir, listo algumas cifras desse novo universo: no início de 2019 havia no mundo mais de US$ 7 trilhões em títulos públicos de países ricos pagando juros nominais abaixo de zero; a dívida mundial total de governos e famílias está hoje em mais de US$ 270 trilhões. O estoque de moeda que o banco central japonês já imprimiu chega a 100% do PIB (o normal é algo entre 10 e 15%) – na Suíça, idem. No Japão, a dívida pública supera os 200% do PIB, os juros nominais estão em zero e a inflação não vem. Nos EUA, a dívida pública caminha para 100% do PIB e os juros longos teimam em não passar dos 3% nominas há quase 10 anos. Até no Brasil os juros atingiram mínimas históricas e não parecem ter vontade de subir. E agora? O Fed levará sua taxa de juros básica a 3% nesse novo mundo? Será possível normalizar a política monetária em um mundo “anormal”?

2 thoughts on “Política monetária para um mundo anormal: moeda causa inflação?”

  1. Análise precisa e sucinta da economia mundial. Embora eu acredite que a moeda é endógena, parece-me que a discussão se a moeda é exógena ou endógena perdeu relevância diante dos deslocamento da produção em grande escala de bens de consumo duráveis e semi-duráveis para a China e os problemas estruturais causados por isso.

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