Por que a produtividade da economia brasileira não aumentou nos últimos anos?

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A resposta é simples. A grande maioria dos empregos gerados nos últimos anos foi em setores com baixa produtividade intrínseca: construção civil, serviços não sofisticados em geral (lojas, restaurantes, cabelereiros, serviços médicos, call centers, telecom, etc…), serviços de transporte (motoristas de ônibus, caminhões, pilotos de avião), entre outros. As comparações internacionais mostram que o grande diferencial de produtividade entre países está justamente no setor de bens transacionáveis, especialmente nos empregos industriais, longe dos chamados serviços não sofisticados. É bastante intuitivo entender que a produtividade de um garçom, de um motorista, de um piloto de avião ou de um vendedor de loja é praticamente igual na Europa, EUA, Ásia e Brasil.

O serviço prestado por um garçom, por exemplo, em NY, Sao Paulo ou Zurich e’ o mesmo. Nao importa se ele esta levando ouro, diamante ou areia para a mesa atendida, a produtividade do serviço não sofisticado garçom e’ medida por quantidade de pratos levados ate as mesas; do motorista de ônibus, táxi e avião, numero de passageiros transportados; dos lojistas do shopping center, numero de produtos vendidos por vendedor de loja, no prédio, numero de vezes que o porteiro abre o portão e no cabeleireiro gramas de cabelo removidas por pessoa por cada cabeleireiro. Tudo igual em Zurich, NY e Sao Paulo.

Até mesmo na construção civil, mesmo com auxílio de máquinas mais sofisticadas, a produtividade entre trabalhadores dos diversos países não é muito distinta. A altíssima produtividade dos países ricos ocorre então em outros setores que não esses, com destaque para os serviços sofisticados e indústria. A produtividade é em grande medida setor-específica e não trabalhador-específica. São ricos os países que cultivam seus setores de bens transacionáveis e de serviços sofisticados (EUA, Japão, Alemanha, nórdicos, sudeste asiático, etc). O boom de crédito, commodities e consumo observado no Brasil nos últimos anos estimulou justamente os setores com baixos ganhos potencias de produtividade e desestimulou os setores potencialmente ricos em economias de escala e retornos crescentes: as manufaturas.

Houve desindustrialização e reprimarização da pauta exportadora com avanço das commodities. Por isso nossa produtividade estagnou, se é que não cairá no futuro. Até mesmo os serviços sofisticados (marketing, financeiro, jurídico, consultoria, etc) estão regredindo, pois são altamente dependentes das manufaturas ou da agroindústria. O agronegócio per se também precisa se sofisticar para gerar produtividade. O processamento de commodities, o maquinário e mecanização da produção agrícola contribuem obviamente para o aumento de produtividade dos trabalhadores. Mas a geração de empregos aqui tem sido e continuará sendo muito baixa. Ou seja, de maneira resumida, o Brasil trilhou nos últimos anos um caminho de regressão tecnológica e diminuição da sofisticação de seu tecido produtivo, que acabou por resultar em importante estagnação da produtividade geral da economia. O setor de serviços como um todo passou de 60% do PIB para 70% do PIB nos últimos 10 anos.

A partir dessa perspectiva a dinâmica de produtividade de uma economia depende de sua configuração setorial. Não se trata então apenas de educar mais ou até mesmo capacitar mais os trabalhadores; se trata de estimular e desenvolver os setores corretos. O padrão de especialização produtiva de uma economia é chave para entender o processo de aumento de produtividade. Ser produtivo significa dominar tecnologias avançadas de produção e criar capacidades e competências locais nos setores corretos. Produzir castanhas de caju ou chips de computador, carros ou sapatos, bananas ou computadores faz diferença. Ou seja, o processo de aumento de produtividade de uma economia não é setor-neutro (depende da composição agricultura, serviços e indústria do PIB) e depende do tipo de produto que um país é capaz de produzir.

A produtividade da economia não depende dos indivíduos, é algo sistêmico. Trabalhadores inseridos em setores tecnologicamente sofisticados serão produtivos devido às características intrínsecas do setor e não a dos trabalhadores.Como mostra o importante estudo da UnB, “Produtividade no Setor de Serviços” no Brasil, o setor concentra hoje 74% da força de trabalho no país e foi responsável por 83 em cada 100 novos postos formais de trabalho gerados nos últimos anos. Ou seja, junto com a destruição dos empregos industriais no país, surgiu uma ampla oferta de vagas nos setores de serviços, especialmente de baixa sofisticação, graças ao boom imobiliário e de consumo (varejo, shopping centers, etc…).

O resultado geral desse movimento somado ao pleno emprego no mercado de trabalho causou enorme aumento de salários, sem contrapartida de melhora na produtividade. O custo unitário de produção aumentou muito no país, pressionando a lucratividade da indústria, desestimulando produção e novos investimentos. Não bastasse tudo isso, o câmbio nominal (e real) se apreciou durante vários anos, agravando ainda mais nossa posição de competitividade externa. O resultado final desse processo já é conhecido por todos: grande déficit em conta corrente, queda de investimentos e estagnação do PIB. Sem o retorno da indústria brasileira não haverá recuperação da produtividade.

A forte subida de salários por aqui sem o acompanhamento do aumento de produtividade provocou importante alta dos custos relativos do trabalho. As margens de lucro caíram. O crédito e consumo acompanharam essa onda. Nos anos de 2005 a 2011 tanto investimento agregado quanto consumo agregado subiam graças a expansão de salários. O aumento de preços de commodities também ajudou, constituindo pilar fundamental do modelo CCC (crédito, commodities e consumo). Entretanto esse modelo se esgotou. Os preços das commodities estão cedendo, o crédito se expande a taxas bem menores e o consumo perdeu o vigor.

Sobraram os altos custos trabalhistas em reais e em dólares. Como resolver esse problema nos próximos anos? Dado que os salários nominais não vão cair, só existem dois caminhos: desvalorização cambial e aumento de produtividade. A desvalorização já está ocorrendo pela via de mercado. O aumento de produtividade poderá vir pelo aumento do investimento em infraestrutura e pela sofisticação tecnológica do tecido produtivo brasileiro (aumento da complexidade econômica): novos mercados e novos produtos, especialmente de natureza industrial. Num mundo ultra competitivo como o atual não será tarefa fácil. Talvez com uma onda de pesados investimentos em infraestrutura e câmbio bem mais desvalorizado seja possível. Sem esse caminho o crescimento deve ficar estagnado por aqui.

O preço dos cortes de cabelo no mundo: Samuelson, Balassa, Baumol e os economistas brasileiros

O mapa da produtividade no Brasil

ver paper empirico de Rodrik sobre o tema, Construindo complexidade, Serviços sofisticados dependem de uma estrutura produtiva complexaCusto unitário do trabalho no Brasil, Sobre o papel da educação no desenvolvimento econômicoQuadro do emprego industrial no BrasilO fim do Boom brasileiroa preocupante regressao tecnologica da economia brasileira

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Livro do ipea sobre produtividade no Brasil vol Ivol II

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37 comentários sobre “Por que a produtividade da economia brasileira não aumentou nos últimos anos?

  1. Ótimo artigo! A realização de uma nova política de desenvolvimento produtiva, diferente do que foi o PBM (uma vez que a atual situação das contas do Estado não permitiria sua reprodução) seria a saída para a modernização tecnológica?

  2. Nós no Brasil temos dois problemas: o sistema de ensino não evolui em nada nos últimos anos. Continuamos a ensinar português da mesma forma há mais de 40 anos. Isso vale para matemática também. Não mudamos o método. Temos que ensinar ao jovem à entender os textos e também saber se comunicar. Não adianta investir milhões em tecnologia sem que se compreenda. Outro é o bndes que financia multinacionais e não pequenos empreendedores com capacidade tecnológica. Talvez seja uma visão até simplista a minha. Mas modificando isso já traria grandes avanços!

  3. Concordo com a mensagem final propositiva mas tenho muitas dúvidas sobre a análise, o que surpreende não é exatamente o baixo crescimento da produtividade agregada decorrente do maior emprego do setor serviço mas o baixo crescimento da produtividade industrial, ainda assim esta parece se ajustar bem a proposição kaldoriana evoluindo de forma pró-cíclica;
    o baixo crescimento da produtividade é particularmente expressivo pós 2009 seguindo a direção do produto e da taxa de investimento

  4. Prezado, o seu artigo está interessante, mas os países “ricos” exploram muitos recursos naturais dos países pobres, ajudando a aumentar a separação ou distância social. Outro, muita riqueza é oculta mediante o cobro abusivo de juros feito pelos bancos e que vão parar nos países ricos (essa parte nem mencionastes). Abraços,,,

  5. Mas não podemos nos esquecer da produtividade social. Além de incluir milhões no consumo, que é um primeiro passo, o Brasil começa um processo de inclusão de milhões da miséria para o mercado de trabalho. O PIB não faz distinção entre uma ferrari e toneladas de arroz com feijão, ou uma escola. A sociedade deve ser analisada como um todo,e a produtividade como um todo voltado para a comunidade. Não adianta nada avançar na produção de quinquilharias, como acontece nos eua, mas onde quase ninguém tem acesso à universidade, de qualidade, nem à saúde nem à odontologia. Além da péssima alimentação, que é consequência do mercado capitalista e também da má qualidade da educação. No conjunto a sociedade deve trilhar o caminho de não só produzir um produto social, esse objeto que todos produzem fazendo cada um a sua parte, mas um produto social de qualidade, de qualidade para toda a comunidade, e não só pra alguns. Isso também é produtividade.

  6. A análise retrata a estrutura da nossa economia, porém não creio que o problema esteja no crescimento das commodities e serviços, mas sim no baixo desempenho da indústria.
    O Brasil tem muitos potenciais e não pode abrir mão disso, mas é preciso construir vantagens competitivas (não comparativas) em diversos setores, incluindo commodities e serviços.

    1. Processamento de commodities pode ser um bom caminho. Sem construir setores mais complexos o desenvolvimento não será possível. Casos similares importantes para nós são Noruega, Canadá, Finlândia, EUA, produtores de commodities que conseguiram se sofisticar

  7. Nao esqueceste de mencionar os juros absurdamente altos no Brasil que fazem os industriais apostarem no mercado financeiro ao invés de empreenderem?

  8. A solução não é de curto ou médio prazo, mas sim de modificação nas bases. Mudança estrutural começando por crianças em escolas de qualidade em tempo integral. Aí sim ganhos de produtividade serão observados em setores de maior valor agregado. O que se quer do futuro, tem que começar agora, é o trabalho de formar novas gerações.

  9. Muito bom post ! Com o real vivendo um momento de apreciação, futuros cortes no orçamento da educação, Selic mantida num patamar altíssimo – desencorajando o investimento físico e a dificuldade de investimento em infraestrutura aqui no Brasil, a produtividade parece está indo ao fundo do poço.

  10. Ótimo texto! Parabéns!

    Você acredita que a política de desoneração seja uma política eficiente para de estimular a economia? E em especial o setor industrial?

  11. Excelente texto, obrigado por contribuir com informações de qualidade tão grande. Sempre me pareceu simplista demais quando dizem que “a produtividade no Brasil é baixa porque o trabalhador não é qualificado” e você demonstrou muito bem isso, apontando uma outra causa do problema. Tenho aprendido muito com os textos publicados por você. Abraços

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