Capital humano e educação, know how tácito e conhecimento produtivo

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Seguindo a metáfora de C. Hidalgo e R. Hausmann, o desenvolvimento econômico pode ser entendido com o uso do brinquedo lego. São ricos e desenvolvidos aqueles países que possuem muitas peças de Lego e são capazes de montar “brinquedos” complexos. O que são as peças de Lego? São as chamadas capacidades locais de produção ou competências técnicas de um país; não das pessoas individualmente, mas das empresas e organizações de uma determinada sociedade. Quanto maior e mais diversificado o número de empresas de um país, maior a quantidade de peças de Lego que são conhecidas e maior a quantidade de produtos que podem ser feitos. Cada peça de Lego é uma capacidade produtiva que pode ser combinada com outra peça de Lego para gerar um produto (brinquedo). Dentro das empresas existem, portanto, várias capacidades produtivas (peças de Lego) que podem ser usadas em várias direções. Quanto maior a diversidade de empresas, maior a disponibilidade de capacidades e, portanto, maior o potencial de se produzir coisas (mais complexa a economia).

Sobre a tradicional questão do papel da educação e capital humano no desenvolvimento econômico é importante ter claro, então, que da perspectiva aqui apresentada com inspiração no Atlas da Complexidade a “educação produtiva relevante” do país é um conhecimento tácito que está nas empresas e nas atividades e, portanto, não se aprende na escola. É uma questão de “on the job experience”, por isso o Atlas capta bem melhor essa questão de conhecimento relevante para produzir via medidas de complexidade. Um músico ou tenista tem, por exemplo, enorme conhecimento tácito relevante. Se ler as partituras bastasse, todos poderiam ser excelentes músicos. Ou ainda conhecer as regras de tênis e os movimentos básicos tornaria qualquer pessoa num potencial campeão. Conhecimento e know how de produção estão embutidos nas redes sociais produtivas assim como o conhecimento tácito dos grandes músicos e artistas esta “embutido” nessas pessoas. O aprendizado produtivo relevante é, portanto, social; pessoas aprendem com outras pessoas mais experientes sobre como fazer coisas em geral e produzir bens e serviços no caso particular da economia. Não é possível ser um médico sem antes ter feito residência ou um controlador de tráfego aéreo tendo apenas lido livros e manuais sobre o tema. O mesmo se aplica, por exemplo, a produção de computadores, carros, aviões, pneus e qualquer outro bem ou serviço. O aprendizado produtivo tem, portanto, aspectos experimentais e sociais que tornam a acumulação de know how e conhecimento bastante difícil e condicionada a condições pre-existentes nas economias e sociedades.

Além da dimensão social e experimental do conhecimento existe ainda uma questão relevante que dificulta a acumulação de know how e conhecimento nos sistemas produtivos: a limitação individual quanto a capacidade de acumular informações. C. Hidalgo define o conceito de “personbyte” como a quantidade de informação máxima possivelmente armazenada por uma única pessoa; que é limitada. Assim produtos que requeiram mais do que um “personbyte” de informação para serem produzidos demandarão necessariamente trabalhos coletivos e produção integrada em rede com vários “personbytes”, de preferencia de forma harmônica para que a integração dos diversos conhecimentos entre pessoas seja adequadamente integrado. Usando o exemplo de Hidalgo para se formar uma banda de musica; provavelmente a pior estratégia seria contratar vários músicos desconhecidos e colocá-los para tocar juntos. Uma boa banda tem uma íntima integração entre seus membros assim como um ótimo time de futebol não é apenas a somatória das excelentes habilidades individuais de cada jogador. O mesmo se aplica para redes produtivas complexas. A integração harmônica entre pessoas e firmas é fundamental e existe uma dependência mútua generalizada na rede existente para que o processo seja bem sucedido.

Assim como podemos pensar em “personbyte” como o limite de informação que uma pessoa é capaz de carregar, podemos também, seguindo Hidalgo, pensar em “firmbyte” como o limite de informação que uma firma pode carregar. Para produzir bens altamente complexos uma economia precisa de muitos “personbytes” e “firmbytes” que só podem ser organizados em sofisticadas redes produtivas. Os produtos da Apple e Samsung são um belo exemplo dessa dependência entre firmas para gerar produtos complexos. A construção do iPod só foi possível graças a um micro hard drive desenvolvido pela empresa Toshiba. O Gorilla Glass super resistente dos iPhones foi desenvolvido por uma empresa de manufaturas de vidro em NY chamada Corning. Qualquer computador independente de sua marca carrega em geral um chip da Intel ou AMD, um hard drive Quantum, Seagate ou Fujitsu e uma memória feita provavelmente pela Kingston ou Corsair. Nas palavras de Cesar Hidalgo os computadores de hoje em dia nada mais são do que uma salada de eletrônicos.

Claro que ha uma questão muito relevante de ovo e galinha presente em toda essa discussão de conhecimento produtivo tácito contido nas rede locais produtivas. Se o pais não tem o parque produtivo relevante onde as pessoas possam buscar esses conhecimentos fica difícil pois não vão aprender isso nem na escola nem na faculdade. Para fazer relógios um pais precisa de especialistas e relojoeiros, mas se não existem empresas que já produzem esse tipo de bem numa determinada região, não ha incentivos para que esse tipo de trabalhadores e especialistas se movam para lá. Trata-se de uma típica “falha de mercado” na linha do que exploravam os economistas clássicos do Desenvolvimento. E aqui R. Hausmann destaca um papel fundamental do estado como possível coordenador para ajudar a iniciativa privada a resolver esses problemas. Hausmann sugere que o estado poderia funcionar como um identificador de oportunidades de diversificação produtiva e trabalhar para ajudar a iniciativa privada a ocupar esses espaços como um agente coordenador. Não se trataria assim de “escolher vencedores”, mas trabalhar em conjunto com a iniciativa privada para buscar ganhos relevantes de produtividade avançando na direção da diversificação produtiva e “upgrading” tecnológico, na linha do que fizeram os governos de sucesso do leste asiático. 

Os gráficos abaixo que comparam Tailândia e Gana em termos de educação, complexidade e renda per capita ajudam a ilustrar o ponto. Gana avançou muito mais do que a Tailândia em termos de educação medida como anos de escolaridade media da população, mas não apresentou nenhum avanço em termos de sofisticação produtiva. Apesar do aumento da escolaridade media da população, os índices de complexidade de Ghana permanecem os mesmos desde os anos 60. Na Tailândia, que passou por forte mudança estrutural em seu sistema produtivo, houve uma explosão de complexidade como pode se observar no segundo gráfico. O segundo gráfico mostra a impressionante diferença na evolução das rendas per capitas desses países nos últimos 40 anos.

A partir dessa perspectiva, Hidalgo e Hausmann (2012) constroem um modelo simplificado bastante interessante para entender as relações de comércio mundial como uma rede bipartite complexa formada a partir de três simples hipóteses: i)produtos do comércio mundial necessitam de capacidades locais não transacionáveis para serem produzidos, ii)cada país pode ser caracterizado por um conjunto dessas capacidades locais, iii)países só podem produzir produtos para os quais tenham a totalidade das capacidades locais produtivas necessárias. A partir dessas três hipóteses os autores são capazes de explicar a configuração e dinâmica da rede atual do comércio mundial (rede bipartite complexa de países e produtos abaixo). O mapa abaixo mostra essa rede de maneira resumida. No eixo y estão os países rankeados por ordem de diversidade de sua pauta exportadora. No eixo x os produtos rankeados por sua ordem de ubiquidade. O mapa é uma matriz de 0 e 1 identificando quais países têm quais indústrias.  Além dessa bela visualização que mostra que só os países muito diversificados são capazes de fazer a maioria dos produtos não ubíquos, surge também uma característica formal comum encontrada em redes estudadas na biologia: nestedness.

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ver também Construindo complexidade e Brasil x Coreia do Sul

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