Para entender sobrevalorização cambial

Um câmbio muito apreciado significa preços de bens transacionáveis muito baixos em reais. Ou seja, preço da soja, ferro, sapato, carro, avião, brinquedos, maquinas, café, milho e assim por diante. Tudo que é vendido no mercado mundial. Significa também que o preço dos não transacionáveis fica muito elevado em termos relativos, especialmente salários e imóveis. Como uma economia reage a essa configuração de preços? Produzindo bens não transacionáveis e consumindo bens transacionáveis.
Ou seja, as importações aumentam, as exportações caem, o consumo e o investimento residencial aumentam. Cria-se um desequilíbrio na economia com baixa produção e alto consumo de bens transacionáveis, leia-se, desequilíbrio externo e falta de dólares. Mas como o otimismo com Brasil é enorme, os estrangeiros fornecem esses dólares faltantes através da conta capital (IDE, bolsa, títulos e derivativos). O déficit em conta corrente é financiado com folga pelo superávit da conta capital. Podendo ocorrer inclusive uma situação de deterioração externa com apreciação cambial na medida em que as perspectivas de investimentos de curto prazo ainda sejam atrativas para o estrangeiro.

O câmbio não desliza para corrigir o déficit em conta corrente. E assim o processo caminha com PIB crescendo puxado pelo mercado interno, bolsa e imóveis subindo e déficit em conta corrente aumentando. Num primeiro momento a apreciação cambial começa a atrapalhar a indústria, depois vai prejudicando a agricultura até que finalmente, em níveis críticos, penaliza a própria produção de commodities. Claro que quanto maior for o domínio tecnológico do setor em questão, menor a dependência do câmbio. Turbinas de avião, chips de computador, química fina, são setores com consideráveis vantagens de monopólio que conseguem se defender bem. Os que não conseguem, paciência, ficam pelo caminho.

Qual o limite de uma dinâmica desse tipo? A capacidade de endividamento das unidades econômicas individuais e do país como um todo em termos externos. Quando os estrangeiros não quiserem mais financiar esse desequilíbrio no mercado de bens transacionáveis o câmbio tem que fazer o ajuste. Ou seja, vem aquela boa e velha conhecida crise cambial.

 

3 thoughts on “Para entender sobrevalorização cambial”

  1. Prof,

    Acho que encontrei um errinho no post acima. O texto “O déficit em conta corrente é financiado com folga pelo superávit da corrente” não seria pelo “superávit da capital”?

    abs!

      1. Na vdd, a amortização da divida é uma despesa de capital, mas os juros são correntes … E o que paga a dívida é o superávit primário, que é a confrontação entre a receita e a despesa corrente!

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