Trump contra o “novo normal”

A vitória de Donald Trump para o cargo principal da maior economia do planeta não estava no radar dos institutos de pesquisas qualificados, das principais casas de análise, dos veículos de imprensa e de analistas do mercado financeiro. Surge, então, o paralelo óbvio com o evento recente do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. Nos EUA, a ascensão de Trump parece seguir a mesma lógica. Afinal, o que está por trás destes eventos? O que motivou decisões “surpreendentes” dos eleitores? Isso pode ser entendido como uma ruptura do “modelo” atual? A resposta para essas questões passa, necessariamente, pela análise de dados econômicos. O mundo desenvolvido não consegue crescer na velocidade de outros tempos, o desemprego europeu é enorme, os empregos criados nos EUA desde 2008 remuneram mal, os países emergentes não conseguem crescer para atingir o grupo de economias desenvolvidas: Brexit e Trump são frutos desse mundo de “estagnação secular” ou de “novo normal”.  O cenário de novo normal estava bem claro na cabeça de analistas e economistas: crescimento lento nos EUA e no mundo, o banco central americano (FED) elevando taxas de maneira muito lenta (dovish) e inflação ainda abaixo dos 2% nos EUA (onde? Nos EUA?). O mercado de trabalho americano está próximo do pleno emprego, mas com pessoas abandonando a força de trabalho (como assim baixa participação?) e com a maioria de empregos gerados recentemente de baixa qualidade, meio-período ou subemprego; os salários não sobem de forma consistente e a produtividade segue estagnada. Trump promete chacoalhar tudo isso: foi eleito pelos insatisfeitos para tentar mudar o “normal”. Em um primeiro momento de muitas incertezas, pode ser útil analisar o que mercado financeiro acha que Trump vai fazer e o que, de fato, ele fará para tentar mudar essa situação.

A primeira leitura do mercado em ralação à vitória de Trump seguiu um padrão do tipo “taper tantrum”, observado quando Ben Bernanke, ex-presidente do FED, anunciou a redução do programa de afrouxamento monetário em meados de 2013, causando forte alta das taxas de juros longos nos EUA e a venda desenfreada de treasuries e títulos públicos mundo afora por medo de inflação futura. Em relação à política econômica que Trump deverá seguir, o que se imagina no momento é um novo mix: política fiscal expansionista e normalização da política monetária, com a alta das taxas de juros. É importante lembrar que um dos pilares do “new normal” sempre foi a recusa no uso do gasto público como estímulo legítimo de demanda no curto prazo, especialmente, no tocante a investimentos em infraestrutura. Em meados de 2013, o próprio Bernanke apontava também os temores em relação ao efeito contracionista no PIB dos cortes de gastos públicos nos EUA. Apesar de clamores por uma política fiscal mais expansionista), nenhum governo teve a coragem de ir adiante com essa agenda. Trump pode enveredar por esse caminho. Se for o caso, como a economia americana responderá? Os EUA estão com pleno emprego, saindo de uma taxa de 10% de desemprego em 2008 no auge da crise para 4,9% hoje, uma recuperação incrível comparada ao que ocorreu na Europa e no Japão. Mas um pequeno detalhe contribuiu para a vitória de Trump: todos esses empregos gerados são de baixa qualidade, precários em sua maioria e em setores de serviços de baixa qualificação. Em geral, uma política fiscal expansionista aplicada a um país em pleno emprego tem resultado bastante esperado: a inflação. Quem olha os dados mais a fundo sabe que o problema dos EUA é bem mais grave do que se imagina. Os empregos americanos de qualidade foram mesmo deslocados para a Ásia, houve uma enorme transformação estrutural progressiva na Ásia Leste dos últimos anos e regressiva, do ponto de vista produtivo, nos EUA.

Se a política fiscal for mesmo acionada com aumento de diferencial de juros em relação à Europa e Japão, cujas economias continuam estagnadas, haverá uma apreciação do dólar que, por sua vez, dificultará a  voltade empresas americanas fugidas para Ásia para os EUA. Até mesmo um choque de tarifas não garante a volta dessas empresas, dependendo da resultante final na trajetória do dólar. A capacidade ociosa gigante da Ásia continuará lá. No melhor cenário, Trump poderia, então, produzir alguma aceleração nos EUA pela via do investimento em infraestrutura, que já está praticamente sucateada. Na pior das hipóteses, o “populismo fiscal” de Trump poderá apreciar ainda mais o dólar e gerar inflação em uma economia que já está em pleno emprego, causando estagflação. É muito cedo ainda pra dizer quais serão as consequências de um novo mix de política macro nos EUA, mas dá pra dizer que não será fácil a luta de Trump contra o “novo normal”.  O mundo emergente, por sua vez, já sofre e seguirá pagando parte da conta do “Trump tantrum”. No Brasil, o câmbio deve seguir pressionado, apesar do notável ajuste externo. A convergência de juros deverá ser lenta aqui graças à pressão menos deflacionária de um câmbio mais depreciado e risco-país mais salgado. Alguma recuperação pode vir pela via de exportações e a substituição de importações pode ganhar fôlego graças a uma moeda mais competitiva. A atividade econômica seguirá deprimida no Brasil.

*escrito com Luiz Rizo

** video: Death by China

*** dados:http://www.rug.nl/ggdc/productivity/10-sector/

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