Uma crise em várias rodadas

A rigor a crise americana começou no final de 2007. Me lembro bem daquela capa da revista The Economist com um tubarão nadando embaixo da frágil economia, pronto para atacar. Se bem me lembro a capa era de novembro de 2007 e acertou em cheio na previsão da crise. No final desse ano o preço dos imóveis começava a se estabilizar e até cair na margem. Alguns calotes em hipotecas e pequenos bancos começavam a chacoalhar. A subida de juros de Bernanke alguns meses antes estava contribuindo para esse “saudável ajuste” da farra de crédito dos ultimo 10 anos. Só que o ajuste começou a se tornar uma bola de neve sem tamanho. O primeiro grande golpe foi a quebra da Bear Sterns, socorrida pelo FED e JP Morgan. Depois vieram Freddie Mac e Fannie Mae, AIG e por fim a bomba nuclear da Lehman Brothers. O governo americano foi fazendo de tudo para tentar evitar o colapso, mas no caso final da Lehman não foi feliz. Enquanto isso nos mercados de títulos e equities a tensão começou a aumentar depois que o BNP fechou dois fundos para resgate em 9 de agosto de 2007. Para muitos a data oficial do início da crise de 2008.

De lá para cá todos nós já conhecemos a história. Os bancos americanos foram caindo numa seqüência de dominós. Os mercados de ações começaram a ceder e derreteram no segundo semestre de 2008. Os mercados de empréstimos interbancários travaram e as taxas de juros explodiram. Os BCs entraram em cena para socorrer emitindo trilhões de dólares e de euros. A atividade econômica despencou e o desempregou voou. O clássico script de uma mega crise de desalavancagem seguida de um período de expansão hercúlea do crédito. Os mercados acionários atingiram recordes históricos até 2007/2008 para depois mergulhar vertiginosamente para 50% de seus valores em questão de semanas. Foi um inferno. Fundos fecharam, bancos e empresas quebraram. Nos EUA a GM quase desapareceu. O Citibank foi salvo pelo governo e no final nenhum banco de investimento sobrou por lá. Não ficou pedra sobre pedra.

No final de 2009 e primeiro semestre de 2010 veio ainda uma segunda rodada da crise, graças à novidade da união monetária do EURO. Se os países fracos da região não estivessem atrelados ao Euro suas moedas teriam se desvalorizado com violência e os governos frágeis teriam poder limitado para fazer gasto público estimulante. Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha teriam quebrado bem antes. Só que o arranjo do Euro acabou dando uma sobrevida para esses países. E finalmente no primeiro semestre de 2010 veio a segunda rodada da crise, com ameaça de ruptura de toda a região do EURO. O gasto público feito nos PIGS para evitar a recessão e acabou deixando esses governos na corda bamba. Até hoje dependem do oxigênio fornecido por alemães e pelo norte da Europa para respirar. Nos momentos de maior tensão os PIGS quase arrastaram a Europa inteira com temores de dissolução da zona monetária e até mesmo expulsão de alguns países membro. Assim começou a grande crise que, por incrível que pareça, dura ate hoje no mundo.