4 Verdades Surpreendentes Sobre a Economia dos EUA que os economistas Não Contam

Introdução: A Imagem e a Realidade

A imagem dos Estados Unidos como o maior defensor global do livre mercado e do liberalismo econômico está profundamente enraizada na percepção popular. A nação é frequentemente apresentada como o modelo de sucesso de uma economia construída sobre a base da mínima intervenção estatal e da máxima liberdade comercial. Essa narrativa, no entanto, simplifica e até mesmo distorce a complexa jornada que transformou uma colônia agrária na maior potência industrial do mundo.

A história real da ascensão econômica americana é muito mais contraintuitiva e pragmática do que a imagem popular sugere. Com base na análise do livro “Concrete Economics” de Brad Delong, este artigo explora quatro fatos surpreendentes que revelam uma longa e decisiva tradição protecionista no coração da política econômica dos EUA, desafiando o mito fundador de que seu sucesso foi construído sobre uma base de puros princípios de livre mercado.

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1. O Projeto Original dos EUA Era Protecionista, Não Liberal

Ao contrário do que se imagina, a política econômica que moldou os Estados Unidos em sua infância era fortemente protecionista. O arquiteto dessa visão foi Alexander Hamilton, o primeiro secretário do tesouro, que acreditava ser fundamental estimular a indústria manufatureira nascente no país. Em seu famoso “Reports of the Secretary of the treasury on the subject of manufactures” (1791), Hamilton delineou uma estratégia de proteção que seria a base da política econômica americana por décadas.

As ideias de Hamilton seriam mais tarde formalizadas pelo economista alemão Friedrich List no célebre argumento da “proteção à indústria infante”, mas sua origem era uma resposta direta às recomendações do liberalismo inglês da época. Figuras como Adam Smith defendiam que os EUA deveriam se concentrar em sua “vantagem comparativa natural”, a agricultura, e importar produtos manufaturados. Numa das grandes ironias da história, os Estados Unidos construíram sua potência industrial ao rejeitar explicitamente o conselho do próprio homem considerado o pai do capitalismo moderno.

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2. A Guerra Civil Americana Também Foi um Conflito Sobre Protecionismo

Este conflito de visões econômicas não permaneceu no campo do debate; escalou até se tornar a falha tectônica central da Guerra Civil Americana. Embora a questão da escravidão tenha sido a causa moral e social primária, a guerra representou a violenta resolução do embate entre dois modelos antagônicos: o protecionismo da União, que defendia os interesses industriais do Norte, e o liberalismo da Confederação, que representava os interesses agrícolas e de livre comércio do Sul.

A eleição de Abraham Lincoln foi um reflexo dessa tensão, tendo sido garantida pelo voto decisivo de estados protecionistas como New Jersey e Pensilvânia. Com a vitória do Norte, o modelo hamiltoniano foi consolidado, transformando os Estados Unidos em um dos mais assíduos praticantes de políticas de proteção à indústria infante em todo o mundo, uma posição que mantiveram firmemente até a Primeira Guerra Mundial.

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3. Pais Fundadores Tentaram Censurar Livros de Economia Liberal

O debate ideológico sobre o futuro econômico dos Estados Unidos era tão intenso que chegou a motivar tentativas de censura. Thomas Jefferson, um dos pais fundadores tentou proibir a publicação do livro “Principles of Political Economy and Taxation”, do economista britânico David Ricardo, em solo americano.

A razão era clara: as teorias de Ricardo sobre vantagem comparativa e livre comércio forneciam a munição teórica para a visão econômica que os hamiltonianos combatiam — uma América agrária que importava bens manufaturados em vez de produzi-los. Jefferson considerava a obra um pilar do pensamento liberal clássico e, portanto, prejudicial aos interesses da jovem nação. Este episódio ilustra a profundidade do conflito de visões que existia no cerne da fundação dos EUA.

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4. A Estratégia do Sucesso: “Chutar a Escada” Depois de Subir

A trajetória econômica dos Estados Unidos ilustra perfeitamente a estratégia conhecida como “chutar a escada”. O conceito descreve como um país utiliza políticas protecionistas, subsídios e intervenção estatal para construir sua base industrial e alcançar a supremacia econômica. Uma vez no topo, esse mesmo país muda sua retórica, passando a defender fervorosamente o livre mercado para as outras nações, efetivamente “chutando a escada” que usou para subir e dificultando que outros sigam o mesmo caminho.

É interessante acompanhar a história do protecionismo americano para perceber como a retórica de cada país muda ao longo dos estágios de desenvolvimento econômico. A Inglaterra que começou fortemente protecionista no século XVI mudou sua retórica ao conquistar a supremacia industrial nos 1800. O mesmo ocorreu com os EUA do século XX!

Essa mudança de discurso não é uma coincidência, mas uma estratégia pragmática. Ao promover o livre mercado como a única via para o desenvolvimento, as potências estabelecidas obscurecem o verdadeiro caminho histórico para a riqueza, tornando mais difícil para as nações em desenvolvimento justificarem o uso das mesmas ferramentas — protecionismo e subsídios industriais — que foram cruciais para o sucesso do Ocidente.

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Conclusão: Repensando a História para Entender o Presente

A narrativa de que os Estados Unidos sempre foram uma nação defensora do livre mercado é, em grande parte, um mito histórico. A análise de sua trajetória revela que uma forte tradição protecionista não foi um desvio, mas sim um elemento fundamental para sua ascensão como a principal potência econômica do mundo. Compreender essa verdade nos força a questionar as narrativas dominantes sobre desenvolvimento. Se as maiores potências usaram o protecionismo para se enriquecer, qual é o verdadeiro propósito das receitas de livre mercado que elas hoje recomendam às nações em desenvolvimento?

1 thought on “4 Verdades Surpreendentes Sobre a Economia dos EUA que os economistas Não Contam”

  1. Concordo com tudo o que você disse mas qual a solução então se todos os paises resolverem ser protecionistas e proteger sua indústria e incentivar a complexidade tecnológica interna? Teríamos um mundo de economias fechadas e extremamente nacionalistas como no cenário anterior à primeira guerra mundial

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