Bolha ou revolução? Falta de chips e o novo ciclo de investimentos em IA

A AMD acaba de se tornar a quarta fabricante americana de chips a superar US$ 1 trilhão em valor de mercado, depois de Nvidia, Broadcom e Micron. A Nvidia, que cruzou essa marca em 2023, é hoje a empresa mais valiosa do mundo, avaliada em US$ 5,49 trilhões. Quatro empresas de semicondutores no clube do trilhão. Há poucos anos, isso seria impensável.

Diante desses números, a reação mais comum é imediata: é uma bolha de IA, e vai explodir. Pode ser. Mas a pergunta mais interessante não é se há bolha. É qual bolha, e o que ela deixa para trás.

Bolhas são o combustível das revoluções tecnológicas

A economista venezuelana Carlota Perez mostrou, em Technological Revolutions and Financial Capital, que toda grande revolução tecnológica segue um padrão. Primeiro vem o período de instalação, em que o capital financeiro se lança com entusiasmo sobre a nova tecnologia, os preços dos ativos disparam e a especulação toma conta. Depois vem o colapso, o ponto de inflexão. E, por fim, o período de implantação, em que a tecnologia se espalha pela economia inteira, agora conduzida pelo capital produtivo.

Foi assim com as ferrovias na Inglaterra dos anos 1840, com a eletricidade e o automóvel no início do século XX e com a internet nos anos 1990. A bolha pontocom de 2000 quebrou muitas empresas, mas os cabos de fibra óptica instalados naquela euforia sustentaram as duas décadas seguintes de economia digital.

A lição de Perez é que bolha e revolução não são opostas. A bolha é frequentemente o mecanismo pelo qual a revolução é financiada. O capital especulativo paga pela infraestrutura que, depois do estouro, será usada a preço de banana por quem sobreviver.

Desta vez, o sinal vem da economia real

O que chama atenção no ciclo atual é que ele não se limita às cotações em bolsa. Há sinais físicos de uma realocação profunda da capacidade produtiva. Boa parte da produção de chips está sendo direcionada para inteligência artificial, e já há relatos de falta de componentes para TVs, celulares e outros eletrônicos de consumo.

Isso é muito importante. Quando uma tecnologia nova passa a disputar insumos com a economia antiga e a deslocar preços relativos, estamos diante de algo mais do que euforia financeira. É o paradigma tecno-econômico mudando de lugar. Os data centers de IA estão fazendo hoje o papel que as ferrovias fizeram no século XIX: absorvem capital, aço, energia e engenharia numa escala que redesenha cadeias produtivas inteiras.

Os chips no topo da complexidade econômica

Do ponto de vista da complexidade econômica, os semicondutores estão no topo da pirâmide. Poucos produtos exigem tanto conhecimento acumulado, tantas capacidades distribuídas e tanta coordenação entre países. O projeto está concentrado nos Estados Unidos, a fabricação de ponta em Taiwan, as memórias na Coreia do Sul, as máquinas de litografia na Holanda e os materiais e químicos especiais no Japão. É um clube pequeno, e é justamente aí que se captura a maior parte do valor da revolução em curso.

Não é por acaso que a política industrial voltou com força. O CHIPS Act americano, a corrida chinesa por autossuficiência e os programas europeus e japoneses mostram que nenhum país sério trata semicondutores como um setor qualquer. Trata-se de soberania produtiva e tecnológica.

E o Brasil?

Aqui está a questão que mais deveria nos preocupar. Revoluções tecnológicas redistribuem riqueza entre países, e não só entre empresas. Quem participa da fase de instalação, produzindo os equipamentos e o conhecimento, colhe os frutos na fase de implantação. Quem apenas consome a nova tecnologia paga por ela com exportações de baixa complexidade.

O Brasil corre o risco de repetir o roteiro de revoluções anteriores: usuário entusiasmado, produtor ausente. Exportamos soja, minério e petróleo e importamos os chips, os servidores e os serviços de IA. Não é preciso sonhar com uma fábrica de chips de 2 nanômetros, mas existe espaço para atuar em nichos como encapsulamento e teste, semicondutores de potência para a transição energética, data centers alimentados por energia limpa e desenvolvimento de software e aplicações. Nada disso acontece sem estratégia deliberada.

Conclusão

Talvez estejamos, sim, numa bolha. Carlota Perez diria que isso é quase inevitável nesta fase do ciclo. Mas a bolha convive com uma revolução tecnológica real, que já está alterando preços, cadeias de suprimento e a geopolítica da produção. Quando a poeira baixar, a pergunta relevante não será quem perdeu dinheiro nas ações de IA, mas quais países ficaram com as capacidades produtivas. Esse é o debate que o Brasil precisa fazer agora.


https://youtu.be/sD_15p9Y6CA?is=zau-lgobD_JoE1am

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