Introdução: A Crise Silenciosa nas Salas de Aula de Economia
Os economistas que moldam nossas políticas realmente entendem como a economia funciona no mundo real? Esta pergunta está no centro de um debate acalorado sobre o estado “desolador” do ensino da economia. Um relatório recente da rede “Rethinking Economics”, que analisou 16 universidades de prestígio no Reino Unido, trouxe à tona uma realidade preocupante.
A ideia central do relatório é que os currículos universitários se concentram mais em treinar os alunos para “pensar como um economista” do que em fornecer uma compreensão genuína de como a economia realmente opera. O resultado é uma formação que, embora matematicamente sofisticada, é empobrecida em contexto.
Essa crítica não vem apenas de grupos dissidentes. Ela ecoa de dentro do próprio establishment, sendo articulada de forma contundente por figuras como Angus Deaton, um economista vencedor do Prêmio Nobel. Suas observações revelam falhas profundas na maneira como a economia convencional é ensinada e praticada hoje.
O Coração do Problema: 5 Deficiências da Economia Convencional
Angus Deaton delineou cinco deficiências principais que assolam a economia convencional. A seguir, exploramos cada uma delas.
1. Ignora a Influência do Poder
Deaton critica a ênfase da economia em mercados livres e competitivos, que desvia a atenção da importância do poder. O poder é um fator crucial na definição de preços e salários, na direção da inovação tecnológica e na capacidade de influenciar a política para alterar as regras do jogo. Sem uma análise do poder, torna-se difícil compreender a desigualdade ou muitas outras dinâmicas do capitalismo moderno.
Essa falha é tão surpreendente quanto fundamental, pois ignora uma das forças mais evidentes na sociedade. A conclusão do relatório da “Rethinking Economics” reforça essa crítica, ao constatar que 55% das universidades analisadas não abordam questões de desequilíbrios históricos de poder, como a escravidão e o colonialismo.
2. Abandonou a Filosofia e a Ética
Segundo Deaton, os economistas se transformaram em “tecnocratas que se concentram na eficiência”, deixando de lado questões éticas e reflexões sobre o que constitui o bem-estar humano para além do dinheiro. O bem-estar é frequentemente equiparado ao consumo ou à renda, ignorando o que realmente importa para as pessoas, como os relacionamentos em famílias e comunidades.
Essa é uma perspectiva que se afasta radicalmente das origens da disciplina. Como observa o autor do artigo que compilou estas críticas, Jostein Hauge, tanto Adam Smith quanto Karl Marx entendiam que a economia é moldada por valores humanos e, portanto, para ser economista, também é preciso ser filósofo. Essa perspectiva filosófica está amplamente ausente nos currículos atuais, onde, como aponta o relatório da Rethinking Economics, a história e a ética são sistematicamente ignoradas.
3. Valoriza a Eficiência Acima da Justiça
A economia moderna valoriza a eficiência acima de outros fins, como a justiça social. Deaton adverte que, quando a busca pela eficiência resulta na redistribuição de renda para os mais ricos, as recomendações econômicas podem se transformar em uma “licença para a pilhagem”. Muitos economistas defendem que devem focar na eficiência e deixar a equidade para os políticos, mas estes frequentemente falham em agir.
Essa priorização desequilibra a própria finalidade da economia. John Maynard Keynes defendia que o grande desafio da disciplina era conciliar a eficiência econômica, a justiça social e a liberdade individual. A economia moderna, no entanto, concentra-se quase exclusivamente na primeira, tratando a justiça social como um pensamento secundário.
4. Seus Métodos Empíricos Perdem a Visão do Todo
Deaton aponta que os métodos empíricos atualmente favorecidos na economia, como os testes controlados randomizados, concentram a atenção em “efeitos locais” (ou seja, o impacto de uma única intervenção em um grupo específico, ignorando efeitos em cascata no resto da sociedade). Com isso, ignoram mecanismos importantes, mas de ação lenta, que operam com defasagens longas e variáveis.
Essa miopia metodológica é reforçada pela forma como a economia é “ensinada em isolamento de outras ciências sociais”, conforme destacado pelo relatório, privando os alunos do contexto mais amplo que a história ou a sociologia poderiam oferecer. Deaton observa que os historiadores, que entendem de contingência e causalidade múltipla (a ideia de que os grandes resultados raramente têm uma única causa e dependem de uma complexa teia de eventos interligados), muitas vezes fazem um trabalho melhor na identificação de mecanismos importantes.
5. Falta Humildade
O ponto final de Deaton é talvez o mais direto: os economistas muitas vezes têm “certeza demais de que estão certos”. Embora as ferramentas da economia possam fornecer respostas claras, elas exigem suposições que nem sempre são válidas no mundo real. Seria mais produtivo reconhecer que quase sempre existem narrativas concorrentes e aprender a escolher entre elas.
Essa rigidez intelectual foi descrita de forma contundente pelo economista Ha-Joon Chang, que compara a economia convencional à teologia medieval.
A economia hoje se assemelha à teologia católica na Europa medieval: uma doutrina rígida guardada por um sacerdócio moderno que afirma possuir a única verdade. Os dissidentes são evitados. Dizem aos não economistas para “pensar como um economista” ou não pensar de forma alguma. Isso não é educação. É doutrinação.
Conclusão: Por Que Isso Importa Para Todos Nós
A crise no ensino da economia é, portanto, um problema social. Quando uma disciplina ignora o poder, abandona a ética, valoriza a eficiência acima da justiça, adota métodos que perdem a visão do todo e carece de humildade, ela produz profissionais com uma compreensão que o autor Jostein Hauge descreve como “matematicamente sofisticada, mas contextualmente empobrecida”. O resultado é um exército de economistas treinados para priorizar a eficiência do mercado em detrimento dos resultados sociais e para tratar desafios socioeconômicos complexos como meros quebra-cabeças técnicos.
Se aqueles que moldam nossa economia são treinados com esses pontos cegos, que suposições fundamentais sobre nossa sociedade precisamos questionar?

Referências;
https://www.theglobalcurrents.com/p/how-economics-lost-its-soul

