A analise qualitativa de produtos é fundamental para entender o desenvolvimento econômico

A economia convencional aprendeu a medir o desenvolvimento com agregados. PIB per capita, taxa de investimento, produtividade total dos fatores, participação da indústria no produto. São números úteis, mas todos compartilham a mesma cegueira: tratam a produção como uma massa homogênea, um volume indiferenciado de valor adicionado. Somam toneladas e dólares sem perguntar o que exatamente está sendo produzido. E é justamente nessa pergunta que mora o desenvolvimento.

Imagine duas economias com renda per capita idêntica. A primeira exporta petróleo, minério de ferro e soja em grão. A segunda exporta máquinas-ferramenta, equipamentos de imagem médica, fármacos e instrumentos de precisão. Nas planilhas dos organismos multilaterais elas aparecem lado a lado, no mesmo grupo de renda. Mas qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade histórica sabe que não estamos diante do mesmo fenômeno. A primeira tem renda; a segunda tem capacidade. E capacidade é uma coisa que não se compra no mercado internacional, não se transfere por decreto e não aparece em nenhum agregado macroeconômico.

A razão é que produtos são cristalizações de conhecimento. Fabricar um avião comercial exige a coordenação de dezenas de milhares de pessoas que dominam saberes distintos, muitos deles tácitos, impossíveis de escrever num manual. Metalurgia, aerodinâmica, aviônica, materiais compostos, engenharia de sistemas, gestão de cadeias longas de fornecedores, certificação regulatória. Nenhum indivíduo carrega esse conhecimento sozinho, e nenhuma empresa o adquire por importação. Ele está distribuído numa rede social e institucional que leva décadas para se formar e pode se desfazer bem mais rápido do que se construiu. Extrair minério, por comparação, é uma operação sofisticada em termos de capital, mas mobiliza uma variedade muito menor de conhecimentos produtivos. A diferença entre as duas economias não é de quantidade, é de natureza.

É isso que a análise qualitativa da pauta produtiva revela e que os agregados escondem. Quando olhamos o que um país exporta — não quanto, mas o quê —, estamos lendo um inventário indireto das capacidades que aquela sociedade acumulou. A complexidade econômica formaliza essa leitura: um produto é complexo quando poucos países conseguem fazê-lo e quando esses poucos países fazem também muitas outras coisas. Um país é complexo quando produz muitos produtos, e produtos que poucos conseguem produzir. A partir de uma matriz simples de quem exporta o quê, emerge um retrato bastante fiel da estrutura de conhecimento produtivo de uma economia. E esse retrato prevê crescimento futuro melhor do que praticamente qualquer outra variável disponível, incluindo anos de escolaridade e índices de qualidade institucional.

Há uma segunda camada, ainda mais interessante. Produtos não são ilhas isoladas. As capacidades exigidas para fabricar um tecido de algodão se sobrepõem parcialmente às exigidas para fabricar uma peça de vestuário; as capacidades da indústria química se aproximam das da farmacêutica; as da eletrônica de consumo se aproximam das de instrumentos de medição. Essa sobreposição desenha um mapa — o espaço-produto — no qual as economias se movem passo a passo, ocupando vizinhanças, raramente saltando para regiões distantes. Países que se especializam na periferia esparsa desse mapa, onde predominam as commodities, ficam presos: as capacidades que acumulam não levam a lugar nenhum. Países posicionados no núcleo denso encontram sempre um próximo passo curto e viável. A trajetória é dependente do caminho, e o caminho é qualitativo, não quantitativo.

O Brasil é o caso de estudo por excelência. Nossa regressão produtiva das últimas décadas não é visível no PIB de forma dramática — crescemos pouco, mas crescemos. É visível na pauta. Perdemos posições em bens de capital, em eletrônica, em química fina, em bens intermediários sofisticados, ao mesmo tempo em que ganhamos peso em soja, minério, carne e petróleo. Um câmbio cronicamente apreciado pela abundância de recursos naturais — a velha doença holandesa — foi corroendo silenciosamente a competitividade dos setores que carregam mais conhecimento, e o desmonte não aparece na contabilidade nacional com a clareza que aparece na análise de produtos. O mesmo exercício aplicado aos estados brasileiros mostra distâncias internas enormes: há unidades da federação com estrutura produtiva de país europeu médio convivendo com outras cuja pauta se assemelha à de economias africanas exportadoras de minério.

Furtado já dizia, à sua maneira, que o subdesenvolvimento não é uma etapa que se atravessa, mas uma estrutura que se reproduz. A análise qualitativa de produtos é o instrumento que torna essa intuição mensurável. Ela transforma a discussão sobre desenvolvimento em algo concreto: quais capacidades temos, quais perdemos, quais estão ao alcance a partir de onde estamos hoje. E dá à política industrial um critério que não é nem a escolha arbitrária de campeões nacionais nem a abstenção completa em nome da neutralidade. Existe um mapa, existe uma posição atual e existem passos plausíveis. O trabalho é identificá-los.

Contar dólares e toneladas dirá se uma economia está maior. Só a análise do que ela produz dirá se está aprendendo. E, no longo prazo, é apenas isso que importa.


As atividades com altos retornos crescentes exibem fortes externalidades de redes e dinâmicas de aglomeração onde os “first movers” ganham posição de destaque no mercado. São dinâmicas com lock in e portanto “path dependent”. O filet mignon da produtividade está nessas atividades “complexas”. O resto é commodity e serviços não sofisticados. Os serviços sofisticados dependem das atividades complexas. A história das nações mostra que quem “dominou” o core dessas atividades produtivas ficou rico, isso é especialmente verdadeiro para EUA, Japão e Inglaterra. Muitos tentaram, alguns conseguiram. O leste da Ásia conseguiu. O leste da Europa também conseguiu. África e América Latina tentaram mas não conseguiram. Ainda Hidalgo (2015), seguindo Leontief. A microfundamentacao na analise de produtos e essencial para entender o processo de desenvolvimento economico.

Ver também Construindo complexidade

Importancia da desagragegacao

info_2

 

1 thought on “A analise qualitativa de produtos é fundamental para entender o desenvolvimento econômico”

Deixe uma resposta