Novas evidências da RAIS 2025 mostram que a dependência de commodities continua corroendo a complexidade produtiva dos estados brasileiros — e que o mapa desenhado no século XIX ainda está lá, quase intacto.
Por que algumas economias permanecem estruturalmente subdesenvolvidas depois de décadas de integração aos mercados globais de commodities? E por que, dentro de um mesmo país, regiões dotadas de riqueza natural ficam sistematicamente para trás em relação a regiões ancoradas na indústria diversificada?
Essas são as perguntas que eu e João Paulo Nicolini Gabriel (King’s College London) tentamos responder em nosso novo trabalho, que reúne três corpos de evidência que raramente conversam entre si: a história econômica da divergência regional brasileira entre 1850 e 1930, a econometria de painel de Sousa e Veríssimo (2026) para as 27 unidades da federação, e estimativas originais de complexidade construídas a partir da RAIS 2025 — 60,7 milhões de vínculos formais, 5.570 municípios e 669 classes de atividade a cinco dígitos.
A conclusão é dura: o atraso produtivo não é uma condição inicial a ser superada. É um equilíbrio duradouro, ativamente reproduzido por mecanismos econômicos, políticos e institucionais.
O ponto de partida: uma economia que desaprende
O dado mais eloquente é a trajetória do Índice de Complexidade Econômica do Brasil. Éramos 0,82 em 1995. Chegamos a 0,91 em 2000. Depois: 0,75 em 2005, 0,76 em 2010, 0,65 em 2015, 0,38 em 2020 e 0,43 em 2022.
Repare no padrão. Cada recessão registra um piso mais baixo. Cada recuperação falha em alcançar o pico anterior. Isso não é doença holandesa no sentido estático dos manuais — é doença holandesa composta ao longo do tempo por uma erosão de capacidades que simplesmente não se reverte quando as condições externas mudam.
E aqui está o ponto teórico central do artigo. A formulação clássica de Corden e Neary supõe autocorreção: passado o boom, o câmbio deprecia e a indústria volta. No Brasil, os booms terminam, mas a capacidade industrial não retorna. A razão é que a doença holandesa não é apenas uma distorção de preços — é uma redistribuição de poder político. Quando as receitas de commodities são grandes em relação à economia, os setores que ganham com a apreciação cambial (exportadores de recursos, intermediários financeiros, prestadores de serviços não-comercializáveis oligopolizados) ampliam simultaneamente sua renda e sua capacidade de influenciar a política macroeconômica. A apreciação que destrói a competitividade industrial é, ao mesmo tempo, um aumento do poder de compra das rendas extrativas.
Chamamos as duas configurações possíveis de ricardiana e schumpeteriana. Na primeira, a coalizão dominante tira sua renda da extração, das finanças e dos não-comercializáveis protegidos — e sua lucratividade não depende de upgrading tecnológico. Na segunda, típica das industrializações tardias bem-sucedidas, a coalizão vive de manufatura, competição exportadora e progresso técnico, e precisa exatamente daquilo que a coalizão ricardiana resiste: câmbio competitivo, horizontes longos de investimento e a disciplina da concorrência internacional.
Não se trata de virtude moral. Trata-se de que estruturas de renda diferentes geram preferências macroeconômicas diferentes.
A história já tinha dito isso
Em meados do século XIX, as regiões brasileiras eram comparáveis. São Paulo era uma cidadezinha de 30 mil habitantes, atrás de Salvador, Rio, Campinas e Recife. O fato notável da divergência posterior não é que algumas regiões cresceram e outras não — é que o mesmo estímulo externo produziu consequências estruturais radicalmente diferentes conforme o contexto institucional em que operou.
A borracha amazônica é o caso paradigmático de crescimento sem transformação. No auge, a região exportava quase 80% do volume do café paulista. Belém e Manaus estavam entre as cidades mais ricas do país. E não sobrou nada: o sistema de aviamento impedia a formação de mercado de trabalho assalariado, de demanda urbana e de investimento industrial. O capital circulava na esfera comercial, gerando lucro na troca e não na produção. Quando os preços colapsaram após 1913, a participação da região na produção industrial nacional caiu de 4,3% em 1907 para 1,3% em 1919.
O Nordeste açucareiro é outro caso. O preço do açúcar em Londres caiu de 120 libras por tonelada no início do século XVII para 9 libras no início do século XX, com a beterraba europeia capturando metade do mercado mundial em 1882. A participação da região na indústria nacional foi de 17% em 1907 para cerca de 10% em 1939. O problema não era falta de commodity — era a ausência das condições que permitiriam converter renda de commodity em capacidade produtiva cumulativa.
São Paulo fez o contrário, e não por acaso. Técnicas de produção mais intensivas em capital no Oeste Paulista; ferrovias privadas e lucrativas que geraram encadeamentos para trás (oficinas, metalurgia, finanças); 2,5 milhões de imigrantes entre 1887 e 1930, que trouxeram conhecimento prático e disposições empresariais — Bresser-Pereira documentou que cerca de 84% dos industriais paulistas de meados do século XX eram imigrantes ou descendentes diretos; e o sistema de colonato, que criou agricultura mercantil de alimentos para abastecer as cidades. Resultado: de 15,9% da produção industrial nacional em 1907 para 45,4% em 1939.
O café do Oeste Paulista era, em sentido estrutural, uma atividade de maior complexidade do que a borracha ou o açúcar escravista — ainda que os três fossem produtores primários. O legado de capacidades do primeiro se acumulou; os vazios dos outros dois persistiram.
O que a RAIS 2025 mostra
A parte nova do trabalho é medir isso por dentro do tecido produtivo doméstico, e não pela pauta de exportações. Exportação é um bom indicador, mas numa economia continental como a brasileira boa parte da atividade mais sofisticada — bens de capital para o mercado interno, engenharia, fármacos, software, finanças especializadas — nunca cruza uma fronteira.
Construímos então índices de complexidade a partir do emprego formal (ICE-R e ICA-R), pelo método Hidalgo-Hausmann adaptado. O mapa que aparece é imediatamente reconhecível para qualquer leitor da história econômica brasileira:
- São Paulo: +2,39 desvios-padrão, com vantagem comparativa revelada em 399 das 669 classes de atividade.
- Depois: Santa Catarina (+1,69), Rio Grande do Sul (+1,60), Paraná (+1,41), Rio de Janeiro (+1,22) e Amazonas (+1,21) — este último apoiado no complexo concentrado da Zona Franca, não em amplitude produtiva.
- No outro extremo: Maranhão (−1,19), Piauí e Tocantins (−1,08), Pará (−0,97), Acre (−0,95) e Amapá (−0,92).
A dispersão entre estados brasileiros é da mesma ordem de grandeza que separa economias avançadas de economias de baixa renda nos rankings internacionais. Entre unidades que compartilham moeda, sistema legal e mercado de trabalho nacional.
E a relação com a dependência de recursos? Controlando pela composição da estrutura produtiva — participação da manufatura e dos serviços intensivos em conhecimento —, dez pontos percentuais a mais de emprego formal em atividades baseadas em recursos estão associados a cerca de 0,69 desvio-padrão a menos de complexidade estadual. A especificação explica quase 90% da variância entre estados. No nível municipal, com 5.570 observações e efeitos fixos de estado — ou seja, comparando municípios sujeitos ao mesmo câmbio, à mesma legislação e ao mesmo piso salarial —, o coeficiente é ainda maior e estimado com precisão muito superior.
Vale registrar uma inconveniência honesta: sem controles, a relação não aparece. A razão é estrutural, não estatística. Os estados menos complexos do Brasil não são, em geral, os mais intensivos em commodities — são aqueles em que o emprego formal é dominado pela administração pública. Em Amapá, Roraima, Acre e Maranhão, a administração pública responde por 37% a 43% de todos os empregos formais. Dependência de recursos e dependência administrativa são duas rotas distintas para uma estrutura produtiva rala, e uma regressão bivariada as confunde.
O salário segue a complexidade, não a commodity
Se complexidade mede capacidades, ela deveria prever salários. E prevê. Nos 5.570 municípios, um ponto a mais de ICE-R municipal está associado a 11,5% de salário formal médio mais alto.
No nível das atividades, o resultado é mais nítido ainda. As atividades no quartil superior de complexidade pagam R$ 7.039 por mês, contra R$ 3.480 no quartil inferior — mais que o dobro. Mas o dado distributivo é o que importa: o quartil superior absorve apenas 3,6 milhões dos 60,7 milhões de empregos formais brasileiros, ou 5,9%. O quartil inferior absorve 38,1 milhões, ou 62,7%.
O mercado de trabalho brasileiro não é apenas desigual. Ele está estruturalmente concentrado na região do espaço-produto onde os salários são baixos porque as capacidades são rasas.
A assimetria que torna a armadilha politicamente estável
E aqui está o resultado que mais contraria a leitura ingênua da maldição dos recursos — e que precisa ser dito com todas as letras. Dentro de um mesmo estado, municípios mais especializados em atividades de recursos pagam salários formais mais altos, não mais baixos. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul têm 20,7% e 22,2% do emprego formal em atividades baseadas em recursos e pagam R$ 3.784 e R$ 3.823 em média — acima de Minas, Bahia, Pernambuco e Ceará —, mas ficam na metade inferior da distribuição de complexidade.
Isso não contradiz o argumento; é sua expressão micro mais precisa. O agronegócio e a mineração modernos no Brasil são intensivos em capital, tecnicamente competentes e comparativamente bem pagos frente ao varejo, à construção e aos serviços pessoais que constituem a alternativa num município pequeno. O que eles não fazem é gerar a teia densa de atividades adjacentes — fornecedores, fabricantes de equipamentos, engenharia, laboratórios, finanças especializadas — pela qual as capacidades se acumulam e se diversificam.
É exatamente a assimetria que Sousa e Veríssimo (2026) encontram nos dados de exportação, onde o valor das exportações de recursos entra positivamente na relação de longo prazo (+0,24) enquanto a participação dos recursos na pauta entra negativamente (−2,84) e o peso das exportações de recursos no PIB também (−6,97).
Abundância de recursos eleva a renda. Dependência de recursos suprime a acumulação de capacidades. Os dois efeitos não estão em tensão — e é justamente a coexistência deles que torna a armadilha politicamente durável: a coalizão que se beneficia do primeiro não tem razão material alguma para se incomodar com o segundo.
Alagoas é o caso emblemático. Na RAIS 2025, a fabricação de açúcar em bruto empregava 35.744 trabalhadores formais a um salário médio de R$ 2.496, e o cultivo de cana mais 12.647 a R$ 2.549. A indústria química no estado — representada até seu fechamento pelo complexo cloro-soda da Braskem — retinha menos de duzentos empregos formais, em atividades que pagam de 30% a 60% mais. A administração pública responde por 33,2% do emprego formal. E o salário médio de R$ 2.826 é o menor entre as 27 unidades da federação.
O que fazer
Três instrumentos, e eles são complementares, não substitutos. Nenhum funciona sem os outros.
Câmbio. A gestão cambial é instrumento de desenvolvimento, não apenas de estabilização macro. Tolerar sobrevalorização estrutural durante booms de commodities impõe custos que são substancialmente maiores — e substancialmente menos reversíveis — do que os benefícios de curto prazo de importações baratas. Fundos de poupança fiscal e acumulação contracíclica de reservas são estruturalmente essenciais numa economia de renda média rica em recursos.
Condicionalidade. Política industrial sem condicionalidade é distribuição de renda. A experiência do BNDES no ciclo 2003-2014 é instrutiva: grandes transferências que não geraram o upgrading tecnológico nem o desempenho exportador que as justificariam, porque o acesso não estava vinculado a padrões de performance. Isso não exige um Estado heroico com informação perfeita — exige que a relação entre recurso público e desempenho privado seja explícita, crível e cobrada.
Capacidades. Nas nossas estimativas de 2025, a participação do emprego em serviços intensivos em conhecimento é o correlato positivo mais forte da complexidade estadual, com coeficiente cerca de três vezes o da participação da manufatura. Para Alagoas, Maranhão e Piauí, a implicação é que a política precisa operar em várias frentes simultaneamente: ensino superior orientado a setores com potencial de upgrading, infraestrutura conectando municípios do interior aos centros industriais, e apoio seletivo a atividades que geram transbordamentos de conhecimento — não apenas receita.
Instituições como o Sebrae têm papel preciso aqui. Os municípios canavieiros de Alagoas, onde 48 mil empregos formais em cana e açúcar convivem com menos de duzentos na indústria química, não precisam de apoio para expandir a produção de açúcar. Precisam desenvolver as firmas de engenharia mecânica, as capacidades de processamento de alimentos e as atividades de bioeconomia que permitam caminhar pelo espaço-produto para longe da commodity bruta.
Quebrar a armadilha não é, no fim, um problema de desenho técnico de instrumentos. É um problema de economia política da governança macroeconômica. Historicamente, a saída ocorreu onde coalizões produtivas foram fortes o bastante para disciplinar o Estado em direção a fins produtivos — e onde o Estado foi capaz de tornar essa disciplina crível.
O Brasil de 2025, medido vínculo a vínculo, município a município, ainda não é esse lugar.
Baseado no artigo “The Natural Resources Trap and the Persistence of Regional Underdevelopment in Brazil”, de Paulo Gala (FGV/EESP) e João Paulo Nicolini Gabriel (King’s College London), 2026. Estimativas próprias a partir dos microdados da RAIS 2025 (CNAE 5 dígitos por município).


Como fazer com que esse tipo de análise chegue aos decisores políticos?
No Executivo, temos uma esquerda que parece passar longe de uma agenda consistente de desenvolvimento empresarial, preferindo concentrar seus esforços no auxílio às parcelas mais vulneráveis da população.
Do outro lado, uma direita cada vez mais dominada por setores que parecem confundir política com slogans, costumes conservadores e aversão à ciência, deixando em segundo plano qualquer reflexão séria sobre desenvolvimento econômico e produtivo.
E o Executivo ainda depende de um Legislativo cujo foco frequentemente está na disputa por emendas e recursos públicos, fundamentais para a manutenção de suas bases eleitorais.
No fim, o problema é maior do que a polarização entre esquerda e direita: falta uma visão de país.
Faltam políticas de longo prazo, planejamento, estratégia produtiva e, sobretudo, disposição para ouvir quem se dedica a estudar e pensar esses problemas.
Ninguém parece pensar o país — e, pior, ninguém parece disposto a ouvir quem pensa.