A armadilha dos recursos naturais: por que os booms de commodities empobrecem a estrutura produtiva latino-americana

Sobre o artigo “Natural resources trap and regressive specialisation: Global integration and the destruction of productive capabilities in Latin America”, escrito com João Paulo Nicolini Gabriel (King’s Brazil Institute, King’s College London) e publicado em acesso aberto na Economic History of Developing Regions.

O enigma

Entre 1995 e 2022, América Latina e Leste Asiático viveram dentro do mesmo sistema internacional. Liberalizaram comércio, estabilizaram a inflação, se integraram aos mercados globais de capitais e enfrentaram as mesmas restrições tecnológicas. Ambas as regiões surfaram o superciclo de commodities de 2003 a 2013. E, no entanto, suas trajetórias produtivas se separaram de forma dramática.

Os números do Índice de Complexidade Econômica (ICE) contam a história. O Brasil saiu de 0,82 em 1995 para 0,43 em 2022. O Chile caiu de 0,10 para -0,16. A Argentina, de 0,62 para -0,01. No mesmo período, a Coreia do Sul subiu de 1,10 para 1,77, a China de 0,63 para 1,36 e o Vietnã de -0,97 para 0,48. A mediana asiática foi de 0,62 para 1,22; a latino-americana praticamente não se moveu, de -0,15 para -0,13.

O enigma não é por que a integração aconteceu, mas por que ela repetidamente deixou de gerar acumulação de capacidades produtivas de um lado do mundo e produziu exatamente o oposto do outro.

O que a doença holandesa clássica não explica

Na formulação tradicional de Corden e Neary e de Bresser-Pereira, um boom de exportações de recursos naturais aprecia o câmbio real, eleva custos domésticos e corrói a competitividade industrial. Mas o ajuste seria autocorretivo: quando o boom acaba, a moeda desvaloriza e a indústria se recupera.

A trajetória latino-americana contradiz essa previsão de forma sistemática. Os booms terminam, mas a base manufatureira não volta. Cada ciclo começa de um patamar industrial mais baixo que o anterior. Em trabalho anterior com Jhean Camargo e Guilherme Magacho, mostramos que a doença holandesa pode ser caracterizada formalmente como uma queda mensurável de complexidade econômica — um painel de 122 países entre 1963 e 2013 com coeficiente de longo prazo de -0,00454 sobre concentração exportadora, significativo a 1%. A 50% de concentração em petróleo, a queda implícita de ICE em vinte anos é de 1,21 ponto, mais ou menos a distância que separa a estrutura produtiva da Dinamarca da estrutura produtiva da Índia.

O que faltava era uma teoria da persistência. É isso que o novo artigo propõe.

A armadilha dos recursos naturais

O argumento central: em economias de renda média ricas em recursos naturais, a doença holandesa não é uma distorção temporária de preços relativos, mas um equilíbrio politicamente reproduzido.

O mecanismo funciona assim. Quando as rendas de recursos naturais ultrapassam um certo limiar, elas deixam de ser apenas um fluxo de receita e passam a redesenhar a base de renda da coalizão que governa. Exportadores de commodities e o setor financeiro ganham com a apreciação cambial — o poder de compra doméstico das receitas de extração sobe. Exportadores industriais perdem, porque sua competitividade depende de custos relativos internacionais. O câmbio real deixa de ser um preço neutro e vira o campo onde interesses setoriais disputam a política macroeconômica.

A partir daí, a apreciação não é mais um resultado do mercado que o próprio mercado corrigirá. É uma condição que a coalizão dominante tem boas razões para defender. Como formulou Acemoglu em sua Nobel Lecture, os grupos que se beneficiam do arranjo macroeconômico vigente resistem tanto à reforma institucional quanto à correção macroeconômica, porque ambas ameaçam suas rendas.

E aí entra a parte decisiva: a assimetria. Capacidades produtivas se destroem rápido sob apreciação sustentada e margens comprimidas, mas se reconstroem devagar, exigindo estabilidade, coordenação e preços relativos favoráveis por períodos longos. Depreciações posteriores restauram competitividade de custo, mas não restauram redes de fornecedores, mão de obra qualificada e encadeamentos intersetoriais. O resultado é uma catraca: cada ciclo começa de uma base mais fina.

Ricardianos e schumpeterianos

O artigo organiza a comparação em torno de duas configurações de elite, usadas como tipos ideais.

Na configuração ricardiana — o termo segue a leitura de José Gabriel Palma sobre a “trilogia rentista” latino-americana — a coalizão dominante extrai renda de recursos naturais, intermediação financeira e serviços não comercializáveis oligopolizados. Sua lucratividade não depende de upgrading tecnológico. O horizonte de investimento é curto, a política industrial não tem compromisso crível e a apreciação cambial se reproduz para além da fase de boom.

Na configuração schumpeteriana, a renda dominante vem de manufatura, inovação e competição em mercados internacionais. Os interesses coalizionais se alinham com as condições que sustentam o adensamento industrial: câmbio competitivo defendido, condicionalidades aplicadas, controle recíproco crível no sentido de Alice Amsden.

Nenhuma economia real se encaixa perfeitamente em uma ou outra. O que a distinção faz é isolar a variável que consideramos decisiva: a base de renda da coalizão dominante.

A evidência

Três camadas.

O gradiente regional. Nas dezenove economias latino-americanas com dados contínuos, a correlação entre rendas de recursos naturais pré-boom (média 1995-2002) e a variação de complexidade durante o superciclo (2013 menos 2003) é de -0,738. Economias mais intensivas em renda antes do choque registraram quedas maiores de complexidade durante ele. Vale registrar com honestidade o que os testes de robustez mostram: excluindo a Venezuela, a correlação cai para -0,345 e perde significância. O sinal não se inverte, mas a força da relação se concentra no topo da distribuição de rendas — o que, aliás, é o que o argumento político prevê.

O contraste asiático. O Leste Asiático entra como contraste, não como modelo. Os Estados desenvolvimentistas da região também foram palco de conflito coalizional, intervenção pesada e fracassos episódicos de política. O ponto é mais estreito: onde as rendas de recursos permaneceram pequenas em relação ao resto da economia — na Coreia nunca passaram de 0,12% do PIB —, a exposição às commodities não remodelou a base de renda da coalizão dominante.

Os casos. O Brasil é o caso mais instrutivo justamente porque entrou na liberalização com a melhor base industrial da região. O câmbio real efetivo saiu de 89 em 2003 para 174 em 2011; a manufatura caiu de 14,5% do PIB em 2003 para 10,5% em 2013 e 13,3% em 2023. As commodities primárias foram de 44% para quase dois terços das exportações. Nem o agronegócio nem o setor financeiro tinham interesse material em corrigir o câmbio. E o crédito do BNDES esteve disponível sem as condicionalidades que Mazzucato e Rodrik identificam como essenciais — sem padrões de desempenho amarrando acesso a resultados de exportação ou upgrading tecnológico.

O Chile é o caso que testa mais diretamente a explicação institucionalista, e testa contra ela. É um dos regimes macroeconômicos mais estáveis da região e registrou uma das quedas relativas mais íngremes de complexidade: manufatura de 18,4% do PIB em 1990 para 9,6% em 2023. Com rendas do cobre acima de 17% do PIB em 2006, superando a contribuição de toda a indústria ao produto, a apreciação não era apenas tolerável para a coalizão dominante: era preferível. Nenhum grande conglomerado de cobre chileno construiu uma nova fundição desde a privatização.

O México prova as condições de escopo. A integração norte-americana estabilizou a manufatura em 18-20% do PIB, mas o ICE mal se moveu, de 0,80 para 0,91 em 27 anos. É integração sem disciplina, na acepção de Amsden: escala manufatureira desacoplada de acumulação de capacidades, com o núcleo tecnológico permanecendo externo. A catraca é atenuada, não revertida.

Por que isso importa agora

A transição energética está produzindo uma nova onda de expansão de commodities. Lítio, cobre e terras raras ocupam hoje uma posição nas redes globais de produção comparável à que petróleo e commodities agrícolas ocuparam antes.

Sem os mecanismos de condicionalidade que amarram acesso a rendas de recursos a desempenho produtivo, reinvestimento e upgrading tecnológico, a dinâmica descrita no artigo tende a se repetir e a se aprofundar. A integração aos mercados globais não gera, por si só, transformação estrutural. O que faz o trabalho é a economia política doméstica pela qual as oportunidades externas são filtradas — e, em particular, se o arranjo político que emerge de um surto de rendas amarra a sobrevivência do Estado ao desempenho produtivo ou à acumulação extrativa.

A objeção mais comum é que especialização em recursos naturais não é problema desde que gere receitas de exportação e espaço fiscal. A evidência comparativa sugere que esses ganhos vêm às custas do upgrading tecnológico, do aprendizado cumulativo e dos encadeamentos que permitem subir a escada da produtividade. E que o custo se acumula ao longo dos ciclos.

O artigo está em acesso aberto: 10.1080/20780389.2026.2713694

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