A “Bomba Fiscal” da China é um Mito: 5 Lições Econômicas que o Ocidente Ignora

O Paradoxo Chinês

Há décadas, analistas ocidentais preveem o iminente colapso econômico da China. A cada novo desafio, de bolhas imobiliárias a endividamento local, a narrativa de um “fim trágico iminente” ressurge. Um artigo recente na revista The Economist, questionando a capacidade fiscal do país, é apenas o último capítulo dessa longa saga. No entanto, a realidade insiste em desafiar essas previsões. A China não apenas sobrevive, como continua sua massiva trajetória de crescimento.

A tese central é contraintuitiva para a mentalidade ocidental: o sucesso da China não ocorre apesar de seu modelo único, mas por causa dele. É um modelo que rejeita explicitamente dogmas econômicos ocidentais, como as rígidas metas fiscais do Tratado de Maastricht e as políticas de livre mercado do Consenso de Washington. Para entender como a China continua a prosperar, é preciso abandonar a contabilidade tradicional e analisar cinco aspectos surpreendentes e mal compreendidos de sua abordagem econômica.

——————————————————————————–

1. A Dívida Não é uma Bomba, é um Motor de Crescimento

A primeira lição que a China oferece é uma refutação direta da austeridade fiscal pregada por Maastricht. A ideia de que o endividamento dos governos locais é uma “bomba fiscal” prestes a explodir é um dos mitos mais persistentes no Ocidente. Na verdade, essa dívida é um atributo deliberado e funcional do modelo de desenvolvimento do país. O sistema opera em ciclos: o governo central periodicamente absorve as dívidas dos governos locais, liberando-os para iniciar novas rodadas de “endividamento produtivo” direcionado a infraestrutura e desenvolvimento.

Longe de ser um sinal de fraqueza, essa é a engrenagem do sistema em pleno funcionamento. Prova disso é que o pacote fiscal de 1,4 trilhão de dólares anunciado para reorganizar dívidas locais foi apenas um entre outros 14 pacotes fiscais anunciados entre setembro de 2024 e dezembro de 2025. Essa escala de intervenção contínua desafia a obsessão ocidental com orçamentos equilibrados.

“o endividamento local não constitui uma contradição, mas um atributo da dinâmica de desenvolvimento chinesa.”

——————————————————————————–

2. O Estado Empresta para Si Mesmo (em sua Própria Moeda)

O mecanismo que torna possível a estratégia da dívida como motor é a segunda lição: aplicar a lógica contábil ocidental à China leva a conclusões equivocadas. A chave para entender sua estrutura financeira é que a relação entre bancos e empresas é, em essência, o Estado emprestando a si mesmo, em uma moeda que ele próprio cria. A China construiu uma “potente economia monetária e pública” e um “sistema produtivo e empresarial também público”, tornando o livro de contabilidade tradicional inadequado para sua análise.

O poder desse modelo fica evidente em seus projetos de infraestrutura. Foi esse sistema que permitiu a construção de 45 mil quilômetros de trens de alta velocidade em duas décadas e transformou Xangai, que não tinha uma única estação de metrô em 1996, no maior hub metroviário do mundo. Hoje, há 44 cidades operando grandes malhas metroviárias, sendo 40 delas sustentadas por subsídios públicos. Financiados por dívida e subsídios, esses feitos demonstram que os chineses aprenderam com os ingleses o papel central da dívida pública na construção da riqueza de uma nação.

——————————————————————————–

3. O “Setor Privado” é uma Concessão Pública

A dicotomia simplista entre Estado e mercado, tão presente no pensamento ocidental, não se aplica à China. Lá, o setor privado é institucionalmente uma “concessão pública”. A relação não é de oposição, mas de simbiose, onde o Estado e a iniciativa privada coexistem e se reforçam mutuamente. O modelo chinês combina “máxima competição”, usando o mercado como um instrumento eficiente para o desenvolvimento, com “máximo controle”, usando bancos públicos e empresas estatais para direcionar investimentos a áreas estratégicas.

O projeto Made in China 2025 é um exemplo claro dessa fusão, onde fundos de investimento governamentais se associam a capital de risco privado para impulsionar avanços tecnológicos cruciais. Este sistema não busca um equilíbrio entre dois polos opostos, mas usa um para fortalecer o outro em uma dinâmica unificada.

——————————————————————————–

4. Regulação Abrangente: Novas Finanças, Velhas Regras

Enquanto o Ocidente debate como regular inovações financeiras, a China adota uma abordagem direta e abrangente, especialmente com fintechs e “bancos sombra”. A diretriz do People’s Bank of China é clara: se as grandes empresas de tecnologia se tornaram essenciais para o sistema financeiro, elas devem operar sob o mesmo conjunto de regras que os bancos comerciais tradicionais.

Conforme afirmado em um relatório de 2021 do People’s Bank of China:

“…grandes empresas de tecnologia já se tornaram essenciais ao funcionamento do sistema financeiro e, portanto, devem ser reguladas de maneira equivalente.”

Essa abordagem possui uma natureza dual: quando tudo corre bem, a acumulação e a precificação da riqueza estimulam a criatividade e a inovação; quando as tensões se intensificam, emerge a face centralizadora do Estado para estabilizar o sistema. Isso garante um terreno seguro para o investimento produtivo, evitando a instabilidade que assola os mercados ocidentais.

——————————————————————————–

5. Uma Filosofia Diferente: Superar e Conservar

O modelo chinês é guiado por uma filosofia fundamentalmente diferente da ocidental. Desde as reformas de Deng Xiaoping, o princípio orientador tem sido o conceito hegeliano de Aufhebung, que significa simultaneamente superar e conservar. Isso se manifesta como uma “metamorfose permanente”, onde novas instituições são criadas e integradas ao sistema sem que as antigas sejam necessariamente destruídas.

Essa abordagem torna inaplicáveis as dicotomias entre Estado e privado ou planejamento e mercado. Ambas as dimensões são absorvidas por instituições de planejamento como a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC) e a Comissão de Supervisão e Administração dos Ativos do Estado (SASAC). Como descreve a economista Keyu Jin, o raciocínio chinês é “circular e não linear”, moldado pelo contexto e por relações sociais complexas, em contraste direto com o pensamento linear ocidental.

——————————————————————————–

Conclusão: Repensando as Regras do Jogo

Os cinco pontos demonstram como o modelo chinês desafia os pressupostos econômicos ocidentais. Ele transforma a dívida em motor, opera com um sistema financeiro estatal fechado, trata o setor privado como um parceiro simbiótico, impõe regulação uniforme e se baseia em uma filosofia de evolução constante.

Esse sistema combina competição de mercado com controle estatal de uma maneira que as “inteligências binárias”, presas à oposição simplista entre Estado e mercado, têm dificuldade em compreender. O chamado “modelo” chinês é, portanto, a negação de Maastricht e a rejeição do Consenso de Washington. E está apenas em sua infância.

Enquanto o Ocidente debate os limites entre esses dois polos, a China já criou um modelo simbiótico que os transcende. Que lições podemos, ou devemos, aprender com essa abordagem radicalmente diferente para construir a riqueza de uma nação?


A China e o Tratado de Maastricht

O êxito do “modelo” chinês reside na negação do Tratado de Maastricht e na rejeição do Consenso de Washington.

*Por Elias Jabbour e Luiz Gonzaga Belluzzo**

Artigo recente na *The Economist* (“A China terá capacidade fiscal para resgatar sua economia?”) tenta, pela enésima vez, chamar a atenção para os supostos “problemas” do crescimento chinês. Na verdade, em retrospectiva histórica, para os donos da verdade financeira, as décadas de crescimento econômico estariam eivadas de equívocos e, ao melhor estilo shakespeariano, prestes a um trágico fim.

Agora, os críticos apontam os crescentes déficits recentes do país — a violação do chamado “Concílio de Maastricht” e de suas cabais fiscais adotadas em 1992. Citam o bombasticismo chinês em cumprir essas metas à risca até recentemente, omitindo as bases reais de cálculo diante do fato de o país dobrar o tamanho do PIB a cada sete anos, o que coloca a elevação do produto em patamar muito superior a qualquer déficit possível.

Existem mais coisas entre o céu e a terra do que a péssima filosofia liberal pode explicar. Os liberais jamais conseguirão compreender as consequências do processo chinês de construção de uma potente economia monetária e pública, de um sistema produtivo e empresarial também público, que transformou imensos conglomerados na outra face de um profundo processo de reformas. A compreensão desse processo e de suas causas e consequências institucionais já é suficiente para descartar o livro de contabilidade tradicional da relação entre bancos e empresas. Trata‑se do Estado emprestando ao próprio Estado, em moeda criada pelo Estado. Some‑se a isso o fato de que, institucionalmente, o chamado setor privado na China é uma concessão pública, não um produto da lei dos orçamentos.

A título de exemplo, não foi a obediência chinesa ao “Concílio de Maastricht” que permitiu ao país construir 45 mil quilômetros de trens de alta velocidade em apenas 20 anos, nem transformar Xangai — que em 1996 não possuía nenhuma estação de metrô — no maior hub metroviário e ferroviário do mundo. Hoje, há 44 cidades operando grandes malhas metroviárias, sendo 40 delas sustentadas por subsídios públicos que, em alguns casos (como Xangai e Wuhan), superam em quatro vezes os custos de manutenção operacional. Como isso foi possível? Os chineses aprenderam com os ingleses o papel central da dívida pública na construção da riqueza das nações.

O livro *China versus Ocidente*, de Ivan Tselichtchev, dimensiona essa transformação. Nos anos 1980, a China detinha a mesma participação do Brasil no comércio mundial — cerca de 1%. Em 2010, sua fatia saltou para 10,4%, contra 8,4% dos Estados Unidos e 8,3% da Alemanha. Durante a primeira década do novo milênio, a taxa média de crescimento anual da economia chinesa foi de 10,5%, frente a 1,7% dos EUA e 0,9% da Alemanha. Ao final da década, a China respondia por 42% da produção mundial de televisores em cores, 67% dos produtos de vídeo, 53% dos telefones móveis, 97% dos PCs e 62% das câmeras digitais.

O choro ocidental não cessará. A suposta “bomba fiscal”, associada ao elevado endividamento local, é frequentemente apresentada como prova do esgotamento do modelo chinês. No entanto, o endividamento local não constitui uma contradição, mas um atributo da dinâmica de desenvolvimento chinesa. Ciclicamente, o governo central absorve as dívidas dos entes subnacionais, abrindo espaço para novas rodadas de endividamento produtivo. Dito e feito: no início de novembro de 2024 foi anunciado um pacote fiscal de 1,4 trilhão de dólares, voltado tanto à reorganização das dívidas locais quanto à recompra de concessões de terras das incorporadoras afetadas pela crise imobiliária. Esse foi apenas um entre outros 14 pacotes fiscais anunciados entre setembro de 2024 e dezembro de 2025.

As autoridades chinesas entendem que as novas instituições financeiras — fintechs e os chamados “bancos sombra” — devem operar sob o mesmo conjunto de regras aplicáveis aos bancos comerciais tradicionais. Em relatório de 2021, o People’s Bank of China afirmou que grandes empresas de tecnologia já se tornaram essenciais ao funcionamento do sistema financeiro e, portanto, devem ser reguladas de maneira equivalente. Uma vez estabelecidos os princípios gerais, regulamentações mais detalhadas passam a disciplinar as novas formas de atividade financeira. A gestão da riqueza online tende, assim, a ser submetida a um arcabouço regulatório mais abrangente, como já ocorre com toda a gestão da riqueza monetária.

Os sistemas monetários financeiros são cruciais não apenas para as economias capitalistas, mas também para o socialismo chinês. São organismos de coordenação — planejamento, em sentido amplo — de economias irremediavelmente monetárias. Centralizados por natureza, esses sistemas oferecem terreno seguro para a multiplicação de agentes responsáveis pela emissão e gestão de ativos privados heterogêneos, unificados por uma homogeneidade monetária. A convivência entre a dimensão privada da riqueza monetária e a força centralizadora dos gestores da moeda constitui uma dinâmica permanente de encontros e desencontros entre o “mesmo” e o “outro”. Quando tudo corre bem, a acumulação e a precificação da riqueza estimulam a criatividade e a diferenciação de ativos; quando as tensões se intensificam, emerge a face centralizadora do Estado.

Nesse contexto, a iniciativa privada sente‑se protegida contra choques de incerteza e pode dedicar‑se à acumulação de capital por meio de investimentos tecnológicos, produtivos e comerciais. A ampliação do papel do mercado combinada ao reforço das empresas estatais pode soar como um oximoro às inteligências binárias, presas à oposição simplista entre Estado e mercado. O projeto *Made in China 2025* rompe essa dicotomia ao assegurar políticas de apoio financeiro voltadas a avanços tecnológicos em áreas estratégicas, estimulando a associação entre fundos públicos — como os *Government Guidance Funds* — e fundos privados de *venture capital* e *private equity*.

Políticas monetárias e fiscais expansivas também se impõem diante da corrida chinesa pela autonomia em infraestruturas críticas, como semicondutores e Inteligência Artificial. Se governos ocidentais lançaram mão de trilhões de dólares para avançar na fronteira tecnológica, a China faz o mesmo. Ciência, tecnologia e inovação demandam investimentos massivos e de retorno incerto. Entre 2025 e 2030, estima‑se que o país invista cerca de 1,4 trilhão de dólares apenas em Inteligência Artificial. Em 2023, os investimentos em energia limpa cresceram 40% em relação ao ano anterior, alcançando 890 bilhões de dólares.

Antes mesmo de Adam Smith, a fisiocracia já se mostrava incapaz de explicar o funcionamento de uma simples fábrica de alfinetes; tampouco as superstições do “equilíbrio geral” conseguem dar conta do novo que emerge da China. O socialismo chinês é uma metamorfose permanente, na qual novas instituições são criadas sem que as antigas sejam necessariamente destruídas. Desde as reformas de Deng Xiaoping, o princípio hegeliano da *Aufhebung* — superação e conservação — orienta o projeto de desenvolvimento do país.

Esse processo torna inaplicáveis as dicotomias entre Estado e privado, planejamento e mercado. Ambas as dimensões são absorvidas como formas históricas que ampliam a capacidade de coordenação dos planejadores chineses, alocados em instituições como a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC) e a Comissão de Supervisão e Administração dos Ativos do Estado (SASAC). O desenvolvimento econômico chinês é, assim, um caso explícito de simbiose entre o Estado e a iniciativa privada: combina máxima competição — com o mercado como instrumento de desenvolvimento — e máximo controle, por meio de bancos públicos e empresas estatais que direcionam o investimento produtivo e em infraestrutura.

O avanço do Partido Comunista sobre as big techs impõe uma reflexão profunda sobre a relação entre macroeconomia e microeconomia. A fusão entre as contabilidades social e empresarial — exemplificada pela saída de parte dos bilionários chineses do país nos últimos anos — ajuda a explicar a elevação das capacidades do Estado em conduzir transformações estruturais de grande escala. Fintechs, bancos sombra e instituições financeiras tradicionais, sem exceção, devem obedecer às mesmas regras, conforme reiterado pelo People’s Bank of China.

Os chineses não acreditam na eficiência estática nem na mítica dinâmica da mão invisível. Para eles, as verdadeiras leis do mercado se expressam por meio de normas que regulam efetivamente a competição global — muitas vezes ignoradas pelas análises liberais. O chamado “modelo” chinês é, portanto, a negação de Maastricht e a rejeição do Consenso de Washington. E está apenas em sua infância. Como observa Keyu Jin, “o raciocínio chinês é circular e não linear; é informado pela lógica, mas também ativamente moldado pelo contexto e por um complexo sistema de relações sociais”.

*CartaCapital — 29 de janeiro de 2025*

Deixe uma resposta